Heroes S4

Nada custa mais do que ver a morte inglória de algo que nos agrada, que nos deixa intrigados. Nada custa mais do que ver o desperdício desnecessário de algo que tinha potencialidades. Nada custa mais do que ver o poço fundo onde uma história consegue cair. Mas por muito que nos custe, chega o momento em que é preciso dizer “Basta!”. E esse momento chegou com o final da quarta temporada de “Heroes”.

Palavras para quê? Não há alegoria com a banda desenhada que consiga explicar aquilo em que esta série se tornou. Uma lufada de ar fresco no seu ano de estreia, trazendo finalmente da melhor forma para o pequeno ecrã a nona arte, contando com actores competentes, um orçamento decente e histórias intrigantes, quatro anos depois é impossível arranjar mais desculpas para o descalabro que se vê, semana após semana, na televisão.

Sem qualquer tipo de redenção, como nos prometia o título do quinto volume, o que encontramos ao longo dos longos, muito longos dezanove episódios que constituem esta quarta temporada, é mais do mesmo. Mais histórias embrulhadas, mais personagens adicionadas à pressão que não acrescentam nada à história, mais mortes efémeras, mais mudanças inexplicáveis de lado a cada dois ou três episódios, mais mistérios e promessas que, no final, não resultam em nada. Todo o ambiente do Carnival tinha potencialidades, e personagens como o misterioso Samuel (Robert Knepper) e a mulher das tatuagens Lydia (Dawn Olivieri) poderiam ter-nos conquistado, não fosse o facto de as suas histórias se perderem no meio de uma trama que nunca se conseguiu afirmar.

Do lado dos “heróis”, a confusão deixada pelo final do volume quatro não augurava nada de bom, mas certamente ninguém esperava que o caso Nathan/Sylar conseguisse bater tão fundo, deixando não só os actores Adrian Pasdar e Zachary Quinto à deriva, mas destruindo de tal forma o nosso interesse pela história, que nem uma morte mais do que anunciada conseguiu ter qualquer tipo de impacto. Juntando a isso o deambular do resto dos Petrelli pela história, especialmente de Peter (Milo Ventimiglia), que parece ter perdido a temporada inteira atrás de Emma (Deanne Bray) não se sabe bem porquê, a curiosa passagem de Claire (Hayden Pannetiere) pela Universidade, que se resumiu a praxes estranhas, uma suposta relação semi-lésbica com a colega de quarto Gretchen (Madeline Zima) e demasiadas conversas melosas com o papá Bennet (Jack Coleman), e a absolutamente inacreditável trama da doença fatal de Hiro (Masi Oka), que não tem qualquer tipo de justificação, temos a receita para o desastre.

Nada pior existe do que uma morte inglória. Nada pior é do que admitir derrota. Mas há que admitir que “Heroes” já não tem redenção possível.
 

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Heroes S3

Heroes 3

Fénix. Uma criatura mitológica que renasce das suas próprias cinzas. Uma das mais queridas figuras da banda desenhada norte-americana, a Fénix representa também o poder de superar os obstáculos e conseguir reinventar-se. Nada menos do que isso era o que esperávamos da terceira temporada de “Heroes”, depois da desilusão que foi o segundo volume, “Generations”. Esperava-se que a trama passasse a ter um rumo definido, que as personagens escolhessem um lado e o mantivessem por mais do que um episódio, que os mistérios que desde o início nos intrigavam fossem explicados, e que a série recuperasse o encanto inicial. Mal sabíamos nós em que nos estávamos a meter.

Ominosamente intitulado “Villains”, o terceiro volume desta série pretendia explorar o lado mais negro das personagens, dar-nos uma visão do que seria o mundo controlado por eles. É assim que descobrimos a verdade sobre a tentativa de assassinato a Nathan (Adrian Pasdar), que vemos mais um futuro alternativo que terá de ser evitado, e que assistimos à reunião dos elementos deste xadrez. De um lado, Mohinder (Sendhil Ramamurthy), Nathan, Nikki/Jessica/Tracy (Ali Larter), Elle (Kristen Bell) e Sylar (Zachary Quinto), guiados pelo renascido Arthur Petrelli (Robert Forster), o misterioso patriarca da família que parece ter vindo a puxar todos os cordelinhos desta história. Do outro lado, guiados pelas visões de Angela Petrelli (Cristine Rose), Peter (Milo Ventimiglia), Claire (Hayden Panettiere), Daphne (Brea Grant), Parkman (Greg Grunberg), Hiro (Masi Oka) e Bennet (Jack Coleman). Os dois campos encontram-se no momento mais aguardado destas três longas temporadas, o eclipse que tanto deu que falar, para no final… não acontecer nada. Toda a trama da fórmula milagrosa que daria poderes a todos os humanos termina sem nenhuma resolução, e todo o impacto que “The Eclipse” poderia trazer foi, mais uma vez, desperdiçado, assistindo-se ao regresso ao status quo inicial.

Num capítulo onde tudo aconteceu a velocidades que fazem inveja a Daphne, em que as personagens mudaram de alianças e de lado tantas vezes quantas mudaram de roupa, passando de bons para maus para bons em questão de meros episódios, e em que a história se revelou ainda mais embrulhada do que antes, houve, mesmo assim, alguns momentos interessantes, como o destino da mãe biológica de Claire em “Dual”, a roleta russa do Puppet Master em “Dying of the Light”, ou a sentida despedida de Hiro da sua mãe em “Our Father”, mas o peso das múltiplas linhas de argumento que não levam a lado nenhum e que destroem o trabalho para trás já realizado fez-se sentir, ilustrando a falta de direcção que a série tem desde o início da segunda temporada.

Despedidos alguns escritores, e prevendo-se já o regresso de um dos antigos responsáveis pelo sucesso da série, o início do quarto volume, “Fugitives” almeja fazer esquecer todos os problemas e dar um novo propósito à série, e a verdade é que a “A Clear and Present Danger” consegue dar-nos um pouco daquilo que a série tanto precisava: uma direcção mais concreta, mais acção e novas personagens interessantes, como The Hunter (Željko Ivanek). Nesta homenagem à X-Tinction Agenda, Nathan (novamente do lado do mal) alia-se ao governo americano para livrar a América dos mutantes heróis, obrigando-os a sofrer (e, em alguns casos, mesmo a morrer) para conseguirem escapar das garras dos seus captores. Quanto a Sylar, este prefere deambular livremente pelos Estados Unidos fora, à procura das suas verdadeiras raízes e de uma vingança há muito sonhada do pai biológico que o abandonou.

Se a história começa bem, e o destino de algumas personagens, como Micah (Noah Gray-Cabey) em “Cold Snap” nos deixa bem impressionados, o problema de sempre mantém-se: reviravoltas confusas, mudanças de aliança inexplicáveis, reaparecimentos inacreditáveis e ret-cons que deixam qualquer fã de continuidade de cabelos em pé. Por muito interessante que “1961” seja, mostrando-nos um pouco do passado da Companhia e dos seus principais elementos, torna-se dispensável no meio de uma história que não se sabe bem para onde caminha, e apresenta tantos erros de continuidade que nem mesmo a pequena atenção ao roubos de Angela Petrelli na primeira temporada nos deixa descansar sabendo que a série está em boas mãos. Entre histórias desperdiçadas (como a supra-mencionada X-Tinction Agenda), desperdiçáveis (dois japoneses e um bebé) e completamente inacreditáveis, como a resolução de “An Invisible Thread”, o volume quatro, melhor do que o terceiro, continua a cair nos mesmos erros.

Ao contrário da Fénix, que renasceu das cinzas, “Heroes” mostra-se cada vez mais incapaz de sair da sua espiral descendente, deixando-nos com receio do que poderá chegar na quarta temporada.

Heroes S2

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Oh, how the mighty have fallen!

Não é fácil cruzar as fronteiras dos géneros, adaptar universos tão intimamente ligados a um media, com particularidades próprias, e usá-los para contar histórias clássicas. É especialmente difícil manter os fãs originais quando se tenta fazê-lo, respeitando os seus gostos mas conseguindo, ao mesmo tempo, alcançar novos públicos. E se este segundo volume (temporada?) de Heroes provou algo, é que os heróis também têm pés de barro, e podem cair do alto do seu pedestal. Dentro e fora da história.

Quatro meses depois de How to Stop an Exploding Man, tenta-se ainda lidar com o resultado das tragédias recentes. Novos heróis continuam a surgir em todos os cantos do globo, mas uma doença que ataca o seu metabolismo poderá acabar com a prevista evolução da humanidade, a não ser que Mohinder (Sendhil Ramamurthy) consiga encontrar uma cura. Mas enquanto alguns procuram o bem da humanidade, há segredos escondidos que começam agora a ser revelados, e que poderão pô-la em perigo. Alguém anda a matar os Doze, e esse alguém poderá ser o próximo pior pesadelo. Quem é assassino? Quais os seus poderes? Qual a ligação entre os heróis e os Doze? Qual o papel da Mrs. Petrelli (Cristine Rose) em toda esta história?

Do Japão feudal com Hiro (Masi Oka) e Kenzei (David Anders) à da Irlanda actual com Peter (Milo Ventimiglia); de Nova Iorque com Nathan (Adrian Pasdar) e Matt (Greg Grunberg) à Califórnia, com Claire (Hayden Panettiere) e Noah Bennet (Jack Coleman); das Honduras ao México, de Nova Orléans ao Texas, novos e velhos heróis vão ver-se confrontados com dilemas que os irão chamar, novamente, até Nova Iorque e Odessa para um novo conflito final.

Depois de um excitante primeiro capítulo, esperava-se mais, muito mais deste segundo volume, Generations. A homenagem a grandes histórias de BD como a conspiração de Watchmen e o Legacy Virus dos X-Men, prometia elevar o Heroes a um novo nível, trazendo consigo os clássicos do drama, suspense e acção, mas o resultado ficou longe do esperado; em vez disso, apresentou-se uma história desconexa, onde nada realmente acontece, onde se corre, sem sentido, de um lado para o outro, onde as histórias e os dilemas se repetem ad infinitum, e onde as repercussões são inexistentes. No fundo, o que este segundo volume fez, foi pegar no pior que a banda desenhada tem para oferecer, e expô-lo a todos. E se os fãs de banda desenhada são pacientes, já acostumados às particularidades do género, o mundo da televisão é bem mais implacável, e os seus fãs muito mais impacientes.

Se a evolução de algumas personagens e dos seus poderes é interessante, e a adição de novos heróis como Elle (Kristen Bell) trouxe alguns bons momentos, a pressão de gerir um elenco grande teve consequências graves para a evolução da história, onde as reviravoltas se sucedem e onde nunca se consegue saber de que lado estão as personagens. Num momento do lado dos anjos, depois do lado dos demónios, Bob (Stephen Tobolowsky) passa de misterioso a malévolo a simpático a preocupado e regressa a misterioso com uma rapidez irritante. Parece ser ele que está por detrás do grande Plano, embora o que esse plano foi, é e poderá ser nunca é bem explicado – fica o mistério para os próximos capítulos.

Certezas temos algumas: nunca ninguém morre verdadeiramente; os vilões nunca serão verdadeiramente derrotados; os bons irão continuar amargurados; as grandes corporações são malévolas; a moral é ambígua. Ah, e o Peter fica bem sem camisa. Resta a esperança que os escritores se dediquem a descobrir mais sobre o género sobre o qual resolveram escrever, que confirmem haver muito mais do que estes clichés no maravilhoso mundo dos comics, e que Heroes regresse aos bons velhos tempos. Que este volume sirva como o seu seu próprio Cautionary Tale.

Heroes S1

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In recent days, a seemingly random group of individuals has emerged with what can only be described as “special” abilities.

Although unaware of it now, these individuals will not only save the world, but change it forever. This transformation from ordinary to extraordinary will not occur overnight. Every story has a beginning.

Volume One of their epic tale begins here…

Em Nova Iorque, Peter Petrelli (Milo Ventimiglia) sonha que pode voar e escapar para longe de uma família que o pressiona; em Las Vegas, Nikki Sandres (Ali Larter) tenta cuidar do seu filho e lutar contra os fantasmas do passado que a parecem perseguir; no Texas, Claire Bennet (Hayden Panettiere) desafia as leis da ciência; no Japão Hiro Nakamura (Masi Oka) acredita poder um dia mudar o mundo e tornar-se num verdadeiro herói; e na Índia Mohinder Suresh (Sendhil Ramamurthy) tenta desvendar os mistérios de um pai que perdeu.

Todas estas pessoas normais estão prestes a descobrir que são especiais, que têm poderes que não compreendem e que muitas vezes não conseguem controlar. Todas estas pessoas estão interligadas, irão cruzar-se ao longo das semanas e descobrir qual o seu papel neste conflito.

Para um fã de banda desenhada, nada nesta série é novo. Rising Stars, X-Men e Watchmen, referências a Star Trek e a Star Wars, com um cheirinho a teorias de conspiração saídas dos Ficheiros Secretos, esta série não é, de longe, a mais original de todos os tempos. E, no entanto, a sua originalidade foi ter apostado em trazer estas histórias ao pequeno ecrã, sem preconceitos e honrando as longas tradições em que se basearam.

A série prometia imenso, e mesmo com alguns altos e baixos (que raio de season finale é aquele??), a primeira temporada é excelente. Episódios como Fallout, Company Man e Five Years Gone, com abordagens tão diferentes, conseguem agarrar-nos ao ecrã. Os mistérios por resolver são mais do que muitos: que importância teve o eclipse para o nascimento destes “heróis”? Qual o significado do misterioso símbolo? Quais os planos da geração anterior? Como é que a maldita franja do Peter aguentou tantos episódios?

Infelizmente, o Volume Dois ainda está longe, mas entretanto podemos ir-nos deliciando com os e-comics que, pelos vistos, trazem algumas surpresas. (Aos geeks assumidos recomendo a discussão sobre viagens no tempo, universos paralelos, erros de continuidade e string theories!. Um must.) Até Outubro… save the cheerleader, save the world.

‘Nuff Said