Californication S3

“Happiness. I’ll be happy. Finally.”

Se há série que mais discórdia causa, que mais divide os espectadores e que tanto vai parar à lista de favoritas como de odiadas, é “Californication”. E a explicação é simples: esta não é uma série obrigatória, das que se recomenda a todas as pessoas e que figura inevitavelmente nas listas de melhores do ano. Muito pelo contrário: é uma série que requer uma mente mais aberta, algum à vontade com o deboche gratuito e muita paciência para aguentar as situações mais inusitadas, em busca dos momentos mais calmos, mais sérios, mais reais. “Californication” não é uma série que ofereça um retrato muito fiel da sociedade, preocupando-se mais em divertir o espectador com as situações inusitadas em que se metem as suas personagens do primeiro ao último episódio. E isto é, por vezes, o grande problema que apresenta.

Depois de um regresso algo desapontante mas não inesperado ao ponto de partida, “Wish You Were Here” deixa desde logo antever que pouco irá mudar por estas bandas, mesmo com desafios algo diferentes. Depois de diversas tentativas falhadas de escrever, que muitas dores de cabeça dão ao seu agente, Hank (David Duchovny) acaba por arranjar emprego como professor de escrita criativa num colégio privado, prometendo ajudar a formar (para o bem e para o mal), as mentes dos jovens californianos. Se no trabalho os desafios são muitos, e a sua atenção promete ser desviada por três belas mulheres que o perseguem incessantemente – Jill (Diane Farr), a assistente, Felicia (Embeth Davidtz), a directora, e Jackie (Eva Amurri), a aluna -, já em casa é Becca (Madeleine Martin) que começa, curiosamente, a causar alguns distúrbios próprios da adolescência. E, no meio de tudo isto, por entre as conquistas e os engates, não se esquecem as saudades pela mulher ausente, a única que verdadeiramente ama e com quem quer viver feliz: Karen (Natascha McElhone).

Quem se predispõe a ver “Californication” está desde logo preparado para hilariantes histórias, grandes diálogos, monólogos bem escritos e muita, muita diversão. Não estranha, por isso, a chegada e partida de personagens curiosas, algumas mais marcantes do que outras, como é o caso de Sue Collini, numa prestação profundamente assustadora de Kathleen Turner, e que tantas situações absurdas cria ao longo da temporada, para grande desespero de Charlie (Evan Handler). Não se assusta, também, com as cenas mais estranhas de “Sozo“, ou mais absurdas como o ridículo duelo que opõe Hank ao reitor Stacy Koontz (Peter Gallagher) por uma honra há muito perdida em “Comings & Goings“. E até consegue tolerar, de certa forma, a irritante história que continua a marcar presença em todas as temporadas, de Charlie e os seus dilemas amorosos com Marcy (Pamela Adlon). Mas é quem dá uma maior oportunidade à série, quem passa por cima destas suas características que acabam, por vezes, por constituir também alguns dos seus defeitos, que se surpreende com uma história diferente, mais profunda, que nos consegue fazer pensar. Se é nos momentos mais hilariantes que a série se destaca, como no brilhante “The Apartment“, que respira loucura em todos os segundos, ou nas cenas onde a retórica e a escrita inteligente se tornam mais proeminentes, como acontece em “So Here’s The Thing…“, em que Hank se tenta livrar de todas as mulheres que o perseguem para ficar só com a que ama, é nos momentos mais calmos, onde se renova uma amizade entre velhos amigos num simples sofá ou numa noitada pela rua fora, como acontece em “Dogtown” e, especialmente, num surpreendente “Mia Culpa“, em que fantasmas do passado regressam para tudo destruir uma família que tanto lutou para ficar junta mas que irá, muito provavelmente, ficar perdida agora, que a série se supera.

“I’m not the man they think I am at home.” Com uma temporada mais inconstante que as anteriores, mas um final perfeito do início ao fim, graças à alegoria tão bem criada que não consegue deixar ninguém indiferente, onde se destacam as ninfas na água, a inépcia do Hank, a conversa entre Hank e Becca e, especialmente, o confronto final entre Hank e Karen ao som de uma das músicas preferidas deste cantinho, não há dúvida de que “Californication” continua a ser uma das séries mais aguardadas todos os anos, e que merece o seu lugar entre as favoritas desta casa.

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Californication S2

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Things fall apart. They break. That’s life.

Sexo, drogas e rock’n’roll. Esta simples frase poderia resumir a vida de Hank Moody (David Duchovny), um escritor bloqueado que vagueia sem rumo por essa Califórnia fora, à procura de algo que o ajude a esquecer as mágoas do passado. Esta era, na verdade, a realidade de Hank Moody… até ao dia em que tudo muda. Inesperadamente, Hank recupera aquilo que mais almejava – a sua família. Mas porque a vida real não é um conto de fadas, e o “viveram felizes para sempre” já não é suficiente, “Slip of the Tongue” traz-nos de volta ao universo de “Californication”, e marca o início de mais um capítulo na saga de Hank e da sua família.

Não é fácil resistir à tentação, especialmente quando nos encontramos rodeados daquilo de que mais gostamos. A promessa de algo doce, proibido, e tão, mas tão delicioso, deixa qualquer um com água na boca. Quando se é Hank Moody, esse fruto proibido – as mulheres que o rodeiam incessantemente – torna-se ainda mais difícil de resistir. Mas desta vez, Hank tem tudo aquilo que quer, e promete fazer um esforço para manter a família unida.

Se, por vezes, explorar demasiado uma história acaba por diminuir a sua qualidade, não há dúvida de que a segunda temporada de “Californication” consegue surpreender ao superar-se a si própria. O dilema essencial continua lá: a dificuldade de conciliar os nossos maiores desejos com os erros do passado; as personagens continuam, no fundo, a ser as mesmas: Hank nunca poderia deixar de ser Hank, tal como não esperamos mais dos que o rodeiam. Mas, ao mesmo tempo, com o passar dos episódios, vemos as personagens a crescer, a aceitarem-se como são na verdade; vemos a história – e os seus intervenientes – a evoluir. E isso é exactamente aquilo que pedimos de uma série. Mesmo quando, no final, regressamos ao estado inicial.

Hank bem tenta, mas as confusões sucedem-se: depois de se ver em apuros com Karen (Natascha McElhone) ao escolher o quarto errado, descobre que uma das suas relações do passado poderá vir a dar frutos inesperados. O futuro, que tanto tinha desejado, acaba assim mesmo antes de começar, e o regresso aos vícios não se faz esperar, agora com a colaboração de um novo parceiro de crime e empregador, o grande Lew Ashby (Callum Keith Rennie).

O sexo, o álcool, as festas e as drogas continuam a rodear todas estas personagens, mas os diálogos contundentes, os momentos mais contemplativos e, especialmente, as poucas mas impressionantes cenas em que Madeleine Martin tem a oportunidade de brilhar como a pequena Becca, ajudam a equilibrar uma série que passa cada vez mais de um mero “guilty pleasure” para o rol dos favoritos. Por cada “In A Lonely Place” que insista em contar a completamente dispensável história de Charlie Runkle (Evan Handler), da sua mulher drogada Marcy (Pamela Adlon) e da actriz de filmes pornográficos que ambos adoptaram, temos um sentido vislumbre do passado como o apresentado em “In Utero”, e por cada cena mais ousada de “The Raw & The Cooked”, temos os momentos finais de “Blues From Laurel Canyon”, que provam que esta não é uma série que se encaixe em nenhum formato pré-estabelecido.

Mesmo se “La Petite Mort” termine a temporada de forma previsível e nos transporte de volta ao primeiro episódio desta série, não há dúvida que as desventuras de Hank Moody pela sua Califórnia marcarão presença obrigatória neste canto.

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You can’t always get what you want

Ver simultaneamente duas séries pode ser complicado, com o perigo de personagens e mesmo argumentos começarem a sobrepor-se, resultando numa amálgama onde não se percebe onde começa uma história e acaba outra. E se essa é uma regra geral que tenho vindo a descobrir, nada a consegue provar melhor do que a experiência surreal que é ver Californication e X-Files ao mesmo tempo.

Na verdade, o Hank Moody de David Duchovny nada tem a ver com o antigo Fox Mulder do mesmo actor. Hank Moody, um escritor caído em desgraça, drogado, alcoólico e promíscuo, não procura a verdade, como o seu antecessor, mas sim recuperar o tempo perdido com a família que perdeu, especialmente a ex-namorada, Karen (Natascha McElhone), numa obsessão que parece difícil de compreender. Talvez por isso, como disseram muito bem nesta outra crítica, a história pareça um tanto ou quanto desconexa de início, recheada de sexo, drogas, líquidos corporais e histórias paralelas perfeitamente dispensáveis, como a relação entre o agente Charlie (Evan Handler) e a sua secretária masoquista Dani (Rachel Miner).

Felizmente, com o avançar da temporada, a série consegue estabelecer-se, encontrar uma estabilidade entre drama e comédia, entre diversão e seriedade, que a eleva a um outro nível. Embora Californication tivesse já dado provas de que conseguia ser séria em alguns diálogos, geralmente nas conversas entre Hank e Becca (Madeleine Martin), é a partir de California Son que conseguimos finalmente conhecer o verdadeiro Hank Moody, que compreendemos a dor pela perda da mulher que ainda ama e da família que, no fundo, sempre desejou; que percebemos que, por vezes, a culpa não está tão bem entregue quanto pensamos.

E se, no final, a série continua a ser arrojada, por vezes mesmo exagerada nas demonstrações dos vários vícios que afectam as personagens, pelo menos deixa-nos com a sensação de que conseguimos finalmente compreender a personagem principal… e de que nunca mais conseguiremos olhar para a pequena Grace Sheffield (Madeleine Zima) da Nanny da mesma forma