United States of Tara S2

“Do you know what today is? Today is my bullet train to a new life.
They’re normal people. And they’re making room in their normal-people group photos… For me.”

Estreias auspiciosas há muitas: aquelas que nos cativam, que prometem trazer algo de novo e marcante à televisão e que nos deixam na expectativa de algo infinitamente melhor no ano seguinte. Infelizmente, poucas são as vezes que o regresso consegue alcançar o feito do original. Mas porque, mesmo assim, ainda há excepções à regra, a segunda temporada de “United States of Tara” provou que não só é possível manter o nível de qualidade da história, dos diálogos e das interpretações de todo o elenco, como por vezes consegue-se mesmo superá-lo.

Tendo por tema da temporada as memórias, aquelas que se tentam esconder e as que se tentam criar, sentimos desde logo que a tranquilidade aparente de “Yes” não poderia durar muito. Desde o primeiro momento, desde a primeira visão que temos de toda a família reunida a deitar fora as memórias de vidas passadas que fica claro que a nova tranquilidade, conseguida à custa de uma combinação de medicamentos, não poderia durar, que as desordens de Tara (Toni Collette) podiam estar adormecidas, mas não desaparecidas para sempre. Talvez por isso, o regresso dos alters fosse algo esperado. Já a forma como isso acontece, como a relativa paz da família é quebrada com o regresso de Buck não por eventos internos, mas devido a um suicídio estranho na casa ao lado, levanta mais questões que permanecem por esclarecer.

Por entre avanços e recuos, alegrias e tristezas, confusões e reencontros, o evento que despoletou o transtorno dissociativo de identidade de Tara, e que há tantos anos marca esta família, começa lentamente a revelar-se, com a ajuda de pequenas pistas que nos levam, de forma inesperada, a revelações surpreendentes. A relevância da casa do vizinho pode permanecer por esclarecer, mas com a chegada da terapeuta Shoshanna em “You Becoming You“, um novo alter de Tara que, ao contrário dos restantes, parece estar ali para ajudar toda a família, o mistério principal ganha novo fôlego e as revelações não se fazem esperar. Primeiro no espectacular “Torando!“, onde à música se sucedem as lágrimas, à dança o terror, e o papel de Charmaine (Rosemarie DeWitt) em toda esta história começa a ser cada vez mais evidente, depois na visita inesperada a uma velha conhecida que desperta rancores antigos em “To Have And To Hold“, e terminando com o confronto final  em “From This Day Forward“, no que deveria ter sido um dos dias mais felizes para a família mas que acaba envolto em lágrimas, a mistério de Tara e da sua doença fica assim, se não totalmente esclarecido, pelo menos algo resolvido, e promete trazer mais emoções na próxima temporada.

Se a trama principal da temporada conseguiu mostrar o que de melhor esta série tem – uma história cativante com personagens fascinantes e interpretações de nota – , conseguindo mesmo dar a Charmaine, personagem por vezes irritante mas que tem, no fundo, algo mais para contar, uma maior dimensão, já as histórias secundárias acabaram por prejudicar a evolução da temporada. A facada no matrimónio por parte de Max (John Corbett), devido a um crescente desespero e desejo de vingança, é de certa forma compreensível, tais como as tentativas de Marshall (Keir Gilchrist) de encontrar o seu lugar no mundo e de se sentir bem na sua pele, que o levam a primeiro experimentar o lado oposto, antes de finalmente decidir assumir as suas preferências e encontrar – esperamos nós – alguém que partilha dos seus sentimentos. No entanto, e tal como na primeira temporada, é a história de Kate (Brie Larson), primeiro no gabinete de colectas, depois com a estranha amizade com Lynda (Viola Davis) e a criação da do alter-ego princesa Valhalla e terminando com o novo (e, mais uma vez, muito estranho) namorado, que acaba por sugar grande parte do interesse aos episódios, e deixar-nos com a vontade de ver terminado o suplício. Mas porque é à volta de Tara que tudo gira, porque a série continua a apresentar grandes interpretações e porque consegue, mesmo com alguns pontos mais fracos, surpreender-nos a cada episódio, é possível afirmar que “United States of Tara” continua a ser uma das séries favoritas da mid-season americana e que se aguarda, com expectativa, mais aventura da família Greggson.

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United States of Tara S1

ust

O que é preciso para fazer uma boa série? Actores famosos, grandes orçamentos, efeitos especiais espectaculares e muita publicidade? Não, muito pelo contrário. Por vezes basta uma boa ideia, uma trama interessante, um elenco competente e a coragem para mostrar algo de novo. E se “United States of Tara” não é a melhor série estreante, podemos pelo menos considerá-la uma das mais irreverentes dos últimos tempos.

Tara (Toni Colette) é uma mulher como todas as outras. Vive nos subúrbios com o marido Max (John Corbett) e os dois filhos adolescentes, Kate (Brie Larson) e Marshall (Keir Gilchrist); tem uma irmã mais nova, Charmaine (Rosemarie DeWitt), com quem ocasionalmente se chateia, e um trabalho esporádico como pintora de murais. Poderia ser uma mulher como qualquer outra… não fosse o facto de sofrer de Transtorno Dissociativo de Identidade, uma condição mental que a faz criar múltiplas personalidades que se manifestam quando menos se espera. A vida na casa dos Gregson é, por isso, tudo menos normal, especialmente quando uma das personalidades alternativas se revela. Para além de Tara, a original, temos  também T, uma miúda de 16 anos sem papas na língua, selvagem e provocadora como tantas outras; Buck, um camionista de meia idade, veterano da guerra do Vietname, viciado em cerveja, cigarros e armas; e Alice, a esposa ideal, a típica dona de casa dos anos cinquenta, com o seu penteado perfeito, avental branco imaculado à cintura e uma capacidade incrível de magoar todos à sua volta. Ao mínimo stress, Tara refugia-se dentro de si própria e permite a uma das suas personalidades alternativas sair para o mundo exterior, criando grandes confusões, momentos hilariantes mas também algum drama.

Da imaginação de Diablo Cody saiu assim esta dramédia diferente, que nos força a questionar aquilo em que acreditamos em cada episódio. Do humor ao drama, das gargalhadas às lágrimas, ao longo dos doze episódios que constituem a primeira temporada temos oportunidade de ver todas as emoções espelhadas no rosto da principal interveniente, mostrando mais uma vez a grande actriz que Toni Colette é. Mas se a força da série reside nesta mistura de drama e comédia, é também aí que reside, em certa forma, um dos seus maiores problemas. Não havendo um arco de história bem definido para a série de início, criam-se alguns problemas de fluidez da trama, que parece andar perdida em histórias paralelas, como a de Kate e do seu estranho chefe, Gene (Nathan Corddry) ou toda a trama das amizades coloridas de Marshall, que apenas em  “Betrayal” conseguem surpreender.

Sem nunca resolver as grandes questões que levantou desde início – o mistério que envolve o primeiro sintoma de Tara, a hierarquia das personalidades alternativas e o surgimento de uma nova personalidade animalística -, a primeira temporada desta série consegue mesmo assim apresentar grandes momentos e deixar alguma expectativa para as próximas temporadas. E mesmo que a série venha a desapontar aqueles que julgavam estar perante a nova grande comédia da televisão americana, como o deu a entender o episódio piloto, certamente que, com a ajuda de momentos brilhantes como o da sequência das personalidades alternativas em “Miracle”, a série conseguirá encontrar o seu público e terá a oportunidade de nos revelar mais desta complexa Tara.