The Syndicate S1

E se, de repente, ganhassem a lotaria? O que fariam com dezoito milhões de libras? Comprariam a casa dos vossos sonhos e juntariam de novo a família quase perdida? Mudariam o vosso corpo e estilo para agradar ao marido? Pagariam todas as dívidas e iniciariam uma nova vida de luxo? Ou, simplesmente, continuariam a viver a vida como até aí? Este dilema, com que muito poucos se depararam até hoje, dá o mote a “The Syndicate“, mais um interessante drama da BBC.

Em Leeds, quando tudo parecia perdido, e o desespero toma conta dos irmãos Stuart (Matthew McNulty) e Jamie (Matthew Lewis), chega a bonança na forma de um chorudo cheque para dividir entre os cinco membros da sociedade do supermercado Right U Buy. Mas o que poderia ter sido mais uma história com final feliz, ganha novos contornos ao explorar as consequências de uma mudança de vida tão dramática.

Para Stuart, esta era a oportunidade de resgatar a sua família da bancarrota financeira e, ao mesmo tempo, de recuperar a família, especialmente agora com a chegada da nova filha. Já para Denise (Lorraine Bruce), o dinheiro não traz felicidade, mas pode ajudar a recuperar o marido que, após anos e anos de casamento, rodeado de parentes indesejáveis e de uma mulher sem qualquer auto-estima, a resolveu abandonar. Jaime, pelo contrário, pensa apenas em si, nas suas dívidas agora saldadas, e nos carros desportivos que pode comprar, enquanto Leanne (Joanna Page) apenas quer continuar a educar a sua filha em paz e Bob (Timothy Spall), bom, Bob tem mais em que pensar. A cada episódio, a cada história que vamos descobrindo e segredo escondido que se vai revelando, torna-se cada vez mais claro que, como reza o ditado, o dinheiro nem sempre traz a felicidade.

Com um início bem promissor e apenas cinco episódios – um dedicado a cada personagem – esperava-se que a série fosse bastante contida e que terminasse da melhor forma. Infelizmente não foi o que aconteceu. Se as histórias de Matthew, Bob e Denise foram interessantes, quando chegamos à vez de Leanne o tom começa a mudar, as situações começam a ficar rebuscadas demais, a telenovela impõe-se na forma de um triângulo indesejável e leva a que, quando chegamos a Jamie, o desfecho seja já tão previsível, que acaba por perder um pouco a piada. De qualquer forma, a certeza de que a história destes cinco vencedores teve aqui o seu fim, e de que a segunda temporada da série irá focar-se em novos vencedores, deixa alguma esperança de que se tenha aprendido com alguns erros da primeira temporada, e que a próxima história seja mais consistente.

Inside Men

“Being rich didn’t matter, getting away with it didn’t matter – I just couldn’t go back to being him”

Um dia como tantos outros numa empresa de contagem de dinheiro. John (Steven Mackintosh), um homem como tantos outros, de meia-idade, pai de família, burocrata. Uma porta que se abre. É este o cenário que dá início aos dez minutos mais frenéticos dos últimos anos.

Histórias de assaltos a bancos são à dúzia nos dias que correm: umas boas, outras más, outras assim-assim. Mas depois há também aquelas que são feitas pela BBC, como a mini-série “Inside Men“, que conseguem dar um novo alento a um género que se encontra já por demais batido. E tudo isso graças a uma história bem elaborada, recheada de voltas e reviravoltas que nos fazem ficar agarrados à cadeira, a uma acção frenética e, especialmente, a personagens extremamente complexas que não deixam de nos cativar de início ao fim.

Se é verdade que a série começa com um grande estrondo, também é verdade que logo a seguir o passo desacelera. Do decorrer do assalto, saltamos nove meses para o passado, para ver como se chegou até aqui. E, de repente, tudo muda. O assalto continua a ser o objectivo a atingir, mas as histórias individuais, essas, vão-se ganhando predominância. Dita (Leila Mimmack), a jovem polaca apanhada a roubar umas libras; Chris (Ashley Walters), o segurança que sonha com um futuro melhor; Marcus (Warren Brown), o aventureiro que quer dar a Gina (Kierston Wareing) mais, muito mais; e John, o homem inteligente, correcto, e tranquilo que decide estar na altura de mudar. Se a premissa da série é de um thriller sobre um assalto, ao longo dos quatro episódios, com a ajuda dos saltos entre o presente e o passado, descobre-se que o mais importante afinal é conhecer as personagens, ver o que as motiva, ver como evoluem, ver como se revelam lentamente, e a forma como isso é capaz de mudar a nossa percepção de uma história. O que temos, no final, é uma exploração da motivação do ser humano, que pode surpreender-nos das mais variadas formas. E é por isso que perdoamos a “Inside Men” algumas incongruências da história, algumas decisões mais confusas e algumas cenas que nos deixam na dúvida: porque no final, o que temos são personagens complexas, e uma interpretação fascinante de Mackintosh, que tão cedo não dará para esquecer.

Outcasts

Se há coisa que deixa qualquer um frustrado, é a capacidade que existe para esgotar histórias até à exaustão, para estragar uma série com inúmeros episódios desnecessários e tramas que nunca chegam a fazer sentido. Pão nosso de cada dia nas séries americanas, quando falamos em séries britânicas temos normalmente o prazer de ver séries curtas, com poucos episódios por temporada, mas que nos deixam, no final, com um sentimento de que todo o tempo investido valeu, realmente, a pena. E depois, é claro, temos “Outcasts“.

Com o lento, mas inevitável desaparecimento da ficção científica das nossas televisões, este novo projecto da BBC prometia animar um pouco quem é fã deste género televisivo. Contando com uma história há vários anos em desenvolvimento nos escritórios da BBC, com as paisagens maravilhosas da África do Sul a fazerem as vezes do planeta Carpathia, com alguns efeitos especiais interessantes e actores com qualidades reconhecidas no elenco, era de esperar que saísse daqui algo de bom. Infelizmente, o tiro saiu pela culatra e o que temos é uma série aborrecida, que nunca apresentou um rumo concreto para as suas trama, que deixa as personagens principais vaguearem de um lado para o outro sem grandes desenvolvimentos e que nunca se consegue afirmar.

Forthaven é uma colónia estabelecida no planeta Carpathia por humanos que fugiram da destruição nuclear do seu planeta. Situado a cinco anos de distância do planeta Terra, Carpathia tem uma população bastante variada, onde se incluem os “Expedicionários”, liderados por Mitchell (Jamie Bamber) e que parecem ser a antiga facção militar da expedição, os representantes civis, onde se encontram não só o presidente Richard Tate (Liam Cunnigham) mas também a chefe do Departamento de Segurança Stella Isen (Hermione Norris) e os (aparentemente) dois únicos polícias da zona Cass Cromwell (Daniel Mays) e Fleur Morgan (Amy Manson), bem como famílias em geral, com crianças pequenas a brincar descontraidamente por entre a areia da colónia. Há dez anos que a expedição se instalou neste planeta, e nesses dez anos nem tudo parece ter corrido de feição, especialmente no que a uma misteriosa doença diz respeito, doença essa que afectou várias crianças da expedição e que levou à tomada de medidas extremas.

Com uma premissa interessante, e vários mistérios lançados desde o primeiro minuto – estarão os colonos sozinhos neste planeta? Quem são os ACs, qual a sua relação com os Whiteouts, fenómenos meteorológicos estranhos que causam muitos danos, e com os Outros, os habitantes originais deste planeta? O que se passou na Terra e porque está Julius Berger (Eric Mabius) tão ansioso para tomar o controle da colónia? – “Outcasts” tinha tudo para vingar. Infelizmente o pior aconteceu. As tramas sem sentido sucedem-se; as personagens têm misteriosos diálogos sobre assuntos pouco concretos e que nunca chegam a ser esclarecidos, enquanto deambulam de um lado para o outro da colónia; a ameaça dos ACs e dos Outros, e mesmo a sua história passada nunca se concretiza, e o que sobra, ao fim dois oito longos – mas mesmo muito longos – episódios é a sensação de que se esteve a perder tempo e que não se chegou a lado nenhum.

Se as expectativas eram elevadas, especialmente para quem queria a ficção científica de volta ao ecrã, não foi, infelizmente, com “Outcasts”, que isso se concretizou. O cancelamento não foi, por isso, de estranhar, restando apenas a esperança de que melhores tempos venham para este género televisivo tão discriminado…

Luther S1

Se há algo que faz uma série superar-se, que a eleva do estatuto de “apenas mais uma” para “série a não perder”, são as personagens. Sem personagens marcantes, que nos cativem a cada segundo em que estão no ecrã, interpretadas por actores experientes que encarnem, na perfeição, aquilo que a história nos propõe, não há premissa – mais ou menos interessante – que sobreviva. E se este é um facto já conhecido, fica mais uma vez claro nesta aposta da BBC por terrenos do drama policial.

Pôr um nome como Idris ‘Stringer Bell’ Elba à frente de um projecto da BBC, a interpretar John Luther, um detective do departamento de homicídios em Londres, atormentado por casos do passado e incapaz de viver no presente, é garantia de receber muita atenção. Juntar a isso Alice Morgan (Ruth Wilson), uma assassina meticulosa, cuja inteligência fora do normal a leva a cometer crimes injustificáveis e que promete não descansar enquanto não destruir Luther, e temos a certeza de que ninguém irá deixar passar ao lado esta produção. Mas será que as personagens são suficientes? Será que conseguem levar às costas uma série inteira?

Independentemente do brilhantismo das interpretações dos dois actores principais, que conseguem dar uma profundidade a personagens que, com outros actores, seriam apenas caricaturas – o polícia atormentado pelo seu passado que recusa o final do casamento com a mulher Zoe (Indira Varma) e a assassina fria e mordaz que não olha a meios para conseguir os seus intentos, inimigos que acabam por estabelecer uma relação de cumplicidade – não há actor, por muita experiência que tenha, que consiga valer por uma trama. E isso fica claro à medida que vamos avançando nesta história. Depois de um primeiro episódio impressionante, onde fica desde logo estabelecida esta estranha relação entre detective e assassina, dois lados da mesma moeda que partilham tanto a genialidade como a loucura, o que se segue são episódios com casos diversos que variam entre o emocionante, como o do soldado que resolve virar-se contra as forças policiais da cidade, o assustador, como o do raptor que escreve com o sangue das suas vítimas e que proporciona, nos minutos iniciais, grandes arrepios, e o absurdo, como o dos diamantes, deixando-nos com a sensação que algo de muito errado se está aqui a passar. Se os casos individuais até conseguem ser, de início, interessantes – embora com algumas resoluções demasiado fáceis – e a relação entre Luther e Alice, sempre em pano de fundo entre ameaças e aproximações, permaneça o elemento mais cativante de toda esta história, a convergência de todas as tramas secundárias a caminho do desfecho final e o papel determinante dado a personagens que pouco desenvolvimento tiveram durante a restante série, parece virar a história de pernas para o ar e deixar-nos sem saber o que esperar da segunda temporada.

Com apenas seis episódios mas uma história que sofreu uma reviravolta de 180 graus, a primeira temporada de “Luther” não convence totalmente, mas proporciona, mesmo assim, alguns bons momentos e irá certamente regressar a este cantinho numa próxima oportunidade, nem que seja para continuar a seguir a evolução da relação entre Luther e Alice, que promete não ficar por aqui.

The Deep

O que temos quando juntamos uma premissa inteligente, actores de renome e um canal que já nos habituou a grandes marcos televisivos? Provavelmente não o que esperávamos quando olhamos para este “The Deep“.

Sejamos justos: a série não é assim tão má. Não obstante os enormes buracos de argumento por onde poderíamos fazer passar o submarino russo que os nossos heróis encontram no fundo do Oceano Árctico, os diálogos insípidos e forçados que mais parecem discursos dirigidos ao espectador, o technobabble sem sentido que deixa qualquer série de “Star Trek” envergonhada e as personagens que insistem em morrer, ressuscitar – ninguém sabe muito bem como – para prontamente morrer outra vez, ainda conseguimos encontrar alguns elementos positivos. Mesmo com pouco tempo de antena, a Svetlana (Vera Filatova) e o Vincent (Sasha Dawhan) até conseguem ser personagens interessantes, e o destino de Arkady (Tom Wlaschiha), lá para o final da história, ainda nos deixa com alguma expectativa. E se a história em si se arrasta lentamente ao longo dos cinco episódios, a verdade é que ainda há algumas cenas digna de nota (por boas razões), como o final do episódio piloto “To The Furthest Place” ou as reviravoltas de “Ghosts of the Deep“, tanto na terra como no fundo do oceano. O problema… o problema é tudo o que fica no meio.

Mas voltemos ao início: a trama em si. A bordo do submarino Orpheus, um grupo de oceanógrafos inicia uma missão ao fundo do Oceano Ártico em busca de um combustível biológico que poderá vir a revolucionar o mundo. No comando da missão Frances (Minnie Driver) e Samson (Goran Visnjic) alternam entre prestar atenção ao que se passa dentro do submarino e discutir o romance proibido entre os dois, enquanto Clem (James Nesbitt) se preocupa mais em tentar descobrir o que aconteceu à sua mulher Catherine (Orla Brady), que desapareceu sem deixar rasto com a última expedição, do que em reparar o submarino quando este se estraga. Para além deste trio e de mais três cientistas que não interessam muito para o caso (ou seja, pouco mais são do que carne para canhão), temos ainda o misterioso e sinistro Raymond (Tobias Menzies) que não parece nada interessado em desvendar o mistério da expedição Hermes mas apenas preocupado em fazer o que os seus patrões – os homens do dinheiro – querem. Quando o Orpheu começa a falhar, a salvação poderá ser um submarino russo que, ao que tudo indica, está abandonado. Mas, como não podia deixar de ser, nada é o que parece à primeira vista, e em solo russo as coisas vão complicar-se com a descoberta de vários corpos e de alguns sobreviventes com cara de poucos amigos.

Se dentro de água a situação parece complicada, na terra as coisas não andam melhores. Em casa de Clem e Catherine, a filha do casal e a sua avó estão a ser vigiadas por alguém que procura destruir todos os dados da investigação de Catherine, e na estação internacional de monitorização do Ártico há facadas nas costas a torto e a direito, com revelações espantosas a chegarem tanto da parte de Lowe (Nigel Whitmey) como de Hatsuto (Dan Li), numa jogada tão surpreendente que nem mesmo o melhor agente secreto ao serviço de sua majestade teria conseguido compreender bem.

Muitas reviravoltas (e muitos revirares de olhos também) depois, quando finalmente chegamos ao último e ridículo capítulo desta história (que pareceu longa, muito longa, mas teve apenas cinco episódios) ominosamente intitulado “The Last Breath“, a certeza que fica é que haveria aqui uma história para contar, que o ambiente criado até era interessante e que os actores poderiam, certamente, ter dado muito, muito mais, mas que a aposta, desta vez, não foi ganha e “The Deep” não irá entrar para a história da BBC.

Gavin and Stacey S1-3

“Boy meets girl”. Assim começam muitas histórias de amor, com uma trama simples mas intemporal que não deixa nunca de nos cativar. E é exactamente isso que nos prova “Gavin & Stacey“, mais uma britcom a homenagear neste cantinho.

Reza a lenda que da vizinha Espanha nem bons ventos nem bons casamentos, mas em Inglaterra isso parece ser diferente. Pelo menos é o que descobrem Gavin Shipman (Matthew Horne), um inglês dos subúrbios de Essex, e Stacey West (Joanna Page), uma rapariga da pequena cidade de Barry, no País de Gales. Depois de alguns meses de namoro pelo telefone, o amor à primeira vista fica consolidado com um encontro em Londres, e à amarga despedida segue-se a doce reunião. “E viveram felizes para sempre”, podíamos dizer. Mas será mesmo assim?

“Boy meets girl. Boy loses girl. Boy finds girl again”. Deixando de lado estes tradicionais modelos de construção das comédias românticas, “Gavin & Stacey” é uma comédia leve e divertida, que nunca põe verdadeiramente em causa a relação principal destes dois jovens apaixonados, focando-se, pelo contrário, em tudo o que fica à sua volta. Pegando na história que fica por contar quando os créditos finais das comédias românticas surgem no ecrã, “Gavin & Stacey” procura mostrar mais do que um romance – procura também ilustrar como nem sempre é fácil ligar duas famílias, dois conjuntos de amigos e dois mundos totalmente diferentes. Pamela (Alison Steadman) e Nick Shipman (Larry Lamb) podem nem ser a família inglesa mais tradicional, graças ao seu sentido de humor cáustico e a um casal de amigos muito sui generis, mas comparados com a família de Stacey, composta pela mãe extremosa Gwen (Melanie Walters) e pelo impagável tio Brynn (Rob Brydon), parecem saídos de outro planeta. E se as famílias são peça essencial desta história, o que dizer dos melhores amigos do casal apaixonado, Nessa (Ruth Jones) e Smithy (James Corden), que entre amores e ódios, são presença incontornável na vida de todos e proporcionam sem dúvida nenhuma os mais hilariantes momentos da série?

Com muitas surpresas, muitas reviravoltas, muitas gargalhadas, alguns mistérios (o que terá acontecido naquela pescaria?) e vários momentos musicais míticos, “Gavin & Stacey” é mais do que uma comédia brilhante ao bom estilo do que só os ingleses sabem fazer – é também uma série imperdível. Ou, como diria Brynn… “Crackin'”

Coupling S1-4

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Jane, could you stop doing this? Could you stop just wandering through my front door? Because this is not, I repeat NOT, an American sitcom!

Quando a paciência é pouca, e a disposição não ajuda, nada melhor do que pegar numa bela comédia para passar o tempo. E no panteão das melhores britcoms que predominam nas estantes desta casa, Coupling encontra-se num dos lugares cimeiros. Da história às situações inusitadas, das personagens à escolha dos actores que lhes dão vida, tudo foi perfeito nesta comédia, que peca apenas pelo reduzido número de temporadas.

Steve (Jack Davenport) conhece Susan (Sarah Alexander) no bar. Os dois apaixonam-se. Poderia ter começado aqui um romance como muitos outros, não fosse o facto desta relação a dois estar, desde início, sobrepovoada. A impedir o percurso seguro do romance está a alucinada ex-namorada de Steve, Jane (Gina Bellman), e o narcista ex-namorado de Susan, Patrick (Ben Miles), sem esquecer os melhores amigos dos pombinhos, o estranho Jeff (Richard Coyle) e a paranóica Sally (Kate Isitt). Um casal, o melhor amigo dele, a melhor amiga dela, a ex dele e o ex dela. Seis amigos que vão passar a conviver e a discutir, até à exaustão, todas as relações por que passam.

Visto por muitos como um Friends inglês, Coupling prova, desde o primeiro minuto, que vai muito para além da famosa sitcom americana. Fala de amizades e de relações, mas também das inseguranças e trapalhadas amorosas por que todos eventualmente passam, sempre com uma bela pitada de sexo para apimentar a história. Dos dilemas iniciais criados pelo  “Sock Gap” em “Size Matters“ e pelo “Melty Man” em “The Melty Man Cometh”, aos silêncios desconfortáveis em “My Dinner in Hell”, não há etapa da relação esquecida pela série.

Se o humor inteligente, e as divertidas experiências com a tradicional abordagem à narrativa, como o “rewind” em “The Girl With Two Breasts”, as legendas do Captain Subtext em “Her Best Friend’s Bottom” ou o ecrã dividido em “Split” diferenciam esta série das tradicionais comédias românticas, são as maravilhosas personagens e as brilhantes interpretações dos actores que a distanciam de todas as outras. Ao longo das suas quatro temporadas, constroem-se personagens memoráveis, onde se destaca desde o primeiro momento Jeff, com os seus “Jeff-ismos”, o “Giggle-Loop” e diarreia cerebral que o leva frequentemente a admitir coleccionar orelhas de mulheres e ter uma perna a menos, mas sem esquecer a presença igualmente memorável de Steve, com os seus discursos inflamados sobre temas difíceis em “Inferno” e “The Girl With One Heart”. E se a partida de Jeff condiciona, de certa forma, a última temporada, deixando um vazio que Oliver (Richard Myland) nunca consegue preencher, permite um maior desenvolvimento dos restantes personagens, especialmente de Patrick e Sally, que depois dos excelentes “Remember This” e “Perhaps, Perhaps, Perhaps” já mereciam o devido louvor.

Rever séries é complicado: já não há surpresas, já não há a emoção de descobrir uma nova história, de ver o desenvolvimento daquela relação que sempre quisemos acompanhar. Mas rever as aventuras destes seis amigos prova ser a excepção.

Homem quase descomprometido procura mulher para relação sólida. Requisitos: desinibida, descontraída, óptimo sentido de humor; capacidade de argumentação com ex-namorada irritante e amigo estranho é indispensável. Dá-se preferência a fãs de pornografia de teor lésbico e casa de banho com fechadura. Boas perspectivas de futuro. (S.T.)