Modern Family S1


Act like a parent, talk like a peer. I call it ‘peerenting’.

Famílias disfuncionais foram, desde sempre, as predilectas deste lado, não só pelo facto de permitirem tocar em histórias mais profundas, mas também por se aproximarem muito mais da realidade que vemos todos os dias do lado de cá do ecrã. Talvez por isso, as séries que se baseiem em “famílias perfeitas” sejam, por estas bandas, relegadas para o fundo do disco, de onde, raramente, conseguem sair. Mas por vezes… por vezes uma ou outra série diferente consegue escapar, e se “Modern Family” não parecia muito aliciante de início, acabou por tornar-se na estreia favorita do ano.

Jay (Ed O’Neill), é casado com Gloria (Sofía Vergara), uma fogosa (e muito mais nova) mulher colombiana, e padrasto de Manny (Rico Rodriguez II), um rapaz muito sensível e maduro para os seus 11 anos. Claire (Julie Bowen) é uma extremosa (se bem que um pouco paranóica) mãe de família, que tem de lidar todos os dias com as trapalhadas das filhas Haley (Sarah Hyland), Alex (Ariel Winter), do desastrado filho Luke (Nolan Gould) e do marido Phil (Ty Burrell), o pai mais fixe (ou talvez não) de sempre. Mitchell (Jesse Tyler Fergunson) é um advogado algo stressado, que partilha a vida com o fabuloso Cameron (Eric Stonestreet) e a recém-adoptada bebé Lily. Três famílias diferentes, três realidades diferentes, três mundos totalmente distintos, não fosse um pequeno pormenor: fazerem todos, afinal, parte da mesma grande família. Quando, ao som da banda sonora de Lion King, nos é revelada a grande surpresa do laço que liga todas estas personagens, “Modern Family” passa de apenas mais uma comédia que tenta mostrar o dia-a-dia actual de forma humorística, para uma comédia imprescindível todas as semanas.

Individualmente, as personagens integram-se perfeitamente bem no seu pequeno núcleo familiar, mas é quando se encontram todas juntas em situações surreais, como no episódio piloto, na festa de anos de “Fizbo” ou na viagem especial de aniversário até ao “Hawaii“, ou quando se juntam em pares inesperados, como Claire e Manny em “Come Fly With Me“, Claire e Mitchell em “En Garde” ou Gloria e Cameron em “Starry Night“, que a série se revela em todo o seu esplendor. Juntando a tudo isto o estilo “mockumentary”, que se integra perfeitamente no estilo de história a ser contada, e momentos de génio cortesia de personagens recorrentes como Dylan (Reid Hewig), namorado de Haley e criador da indescritível “In The Moonlight (Do Me)”, ficamos com uma série que se recomenda a todos os que queiram passar um bom bocado.

Flashforward


As expectativas são uma coisa lixada. Seja no cinema, nos livros, na banda desenhada ou na televisão, é quase impossível não ter expectativas relativamente a uma estreia, devido em grande parte à forma como a internet dissemina a informação mais depressa do que conseguimos (ou gostaríamos) de assimilar. Quando se trata da televisão, então, torna-se tudo ainda mais complicado, uma vez que a dependência da aceitação junto do público como forma de garantir a estabilidade de uma história continua a ser a regra, especialmente do lado de lá do oceano. Assim, não é de estranhar que ao aliar uma premissa interessante baseada numa obra conceituada, um elenco bem conhecido do público, produtores famosos e uma grande vontade de equiparar esta nova série a outros sucessos prestes a desaparecer, se tivesse formado um mega-hype à volta de “Flashforward“.

No dia 24 de Setembro de 2009, estreia a série “Flashfoward” na ABC, que conta a história de evento misterioso que faz toda a gente ter uma visão do seu próprio futuro, causando o pânico e a morte um pouco por todo o mundo. O que é esse evento misterioso, quem foi o misterioso responsável por ele, qual o mistério por detrás das visões que alguns tiveram e que outros, misteriosamente, não tiveram, quem é a figura misteriosa que, misteriosamente, ficou acordada durante o evento, e de onde surgiu o misterioso canguru são algumas das perguntas a que Mark Benford (Joseph Fiennes), extraordinário agente do FBI, vai ter de responder. Com a ajuda do seu parceiro Demetri Noh (John Cho) e da colega Janis (Christine Woods), vai então tentar desvendar este grande mistério e, quem sabe, tentar impedir que o futuro menos do que perfeito que viu se concretize.

Com tantos mistérios para resolver, e uma premissa por demais intrigante – afinal, será ou não possível alterar o futuro? Será que as nossas acções irão ter algum impacto e mudar aquilo que vimos ou, como defendem alguns, apenas criar uma espécie de futuro alternativo? – havia aqui muito pano com que trabalhar. Juntando a isso uns cliffhangers interessantes que a série fez questão de nos apresentar no final dos primeiros episódios, e era quase impossível não aderir ao burburinho.

No dia 27 de Maio de 2010, trezentos dias depois da grande estreia, o que resultou então de todo este hype, de todas estas especulações? Um segundo evento, em tudo igual ao primeiro (se bem que, desta vez, já não inesperado), mais visões de um possível futuro e… the end. Sim, é certo, a série foi cancelada quando o final da primeira temporada já tinha sido filmado, não havendo qualquer hipótese de dar uma explicação sobre os mistérios levantados ao longo da temporada. Sim, é certo que os produtores tinham pensado em cinco temporadas e que, por isso, é natural que a primeira fosse a temporada de apresentar personagens e de expor os mistérios que, num mundo ideal, iriam ser desenvolvidos ao longo dos anos. Sim, nós sabemos tudo isto. Mas isso não significa, no entanto, que aceitemos de qualquer maneira as grandes asneiras que a série foi fazendo ao longo da temporada e que culminaram neste cancelamento.

O que correu mal? Tudo! Personagens fracas que apenas se destacavam pela total incompetência que exibiam (o supra mencionado Mark) ou pela total inutilidade, como no caso da Penny de Lost Olivia Benford (Sonya Walger), que passou meia temporada a fazer olhinhos de carneiro mal morto e a tentar não trair o marido para, no final, se atirar a Jack de Coupling Lloyd Simcoe (Jack Davenport), o homem acusado de causar o evento, juntamente com o seu misterioso parceiro hobbit de Lord of the Rings Simon Campos (Dominic Monaghan), mas que afinal não foram os causadores do evento porque foi uma outra qualquer pessoa misteriosa que afinal morre antes de revelar que não era ele o lobo mau mas sim um outro que quando é capturado revela que ainda não era ele o lobo mau chefe mas sim outro e… Bom, foi qualquer coisa assim parecida, ninguém percebeu muito bem a história cheia de voltas e de reviravoltas e de tramas secundárias completamente indescritíveis, como a do médico que se ia suicidar mas que afinal já não o vai fazer porque teve uma visão da sua julieta e tem de ir até ao Japão à procura dela; isso e, é claro, a história do amigo do Mark, o homem das barbas que está sempre a chorar pela filha que morreu mas que afinal já não está morta, mas que é raptada e o pai vai para o Afeganistão à procura dela mas chega tarde porque ela morre mas depois, mesmo antes da série acabar – ou, se quiserem, trinta segundos depois de nos terem dito que está morta – descobre que afinal ela ainda estava a respirar e, por isso mesmo, ainda estava viva e… Confusos? Também eu… e acabei de descrever basicamente apenas o início e o final da série. Resta saber o que andaram a fazer nos restantes episódios!

Como dizia ali atrás, as personagens eram fracas, os diálogos piores ainda, e as tramas tão embrulhadas, mas tão embrulhadas, que nem mesmo um chinês teria paciência para tentar encontrar o fio à meada. As grandes questões – Poderá o futuro ser alterado? Quem criou o evento? O que é o evento? – essas, ficaram por explicar. Pois se nem sequer nos disseram o que significa o raio do canguru…

Trezentos dias depois do evento que deu origem a este “Flashforward”, o que sobrou para os espectadores foi uma mega-desilusão e a certeza de que se as expectativas elevadas tiveram alguma influência no nosso desagrado, foi sem sombra de dúvidas a direcção (ou falta dela) da história e das suas personagens que selou o destino a esta experiência. Lição aprendida, mais vale tentarmos, para a próxima, ignorar as expectativas que se estão a formar porque, como já deu para ver, a coisa vai, muito provavelmente, dar para o torto.

Pushing Daisies S2

No panorama televisivo actual, onde se aposta em produtos certos, em sequelas, spin-offs, reimaginações e actualizações, as histórias diferentes perdem cada vez mais o seu lugar, relegadas para horários pouco atractivos ou canceladas sem dó, deixando em aberto tramas principais e secundárias. Talvez por isso soubéssemos desde o início que “Pushing Daisies” não iria ter vida fácil, mesmo com a crítica e o público a apoiá-la. Talvez por isso os meros nove episódios da primeira temporada e a interrupção a meio da segunda não nos surpreendessem verdadeiramente. Mesmo assim, e mesmo se “Pushing Daisies” nunca tenha deslumbrado, por estas bandas, tanto como deslumbrou por outras, a verdade é que o cancelamento desta pequena fantasia não deixa de ser injusto.

Com treze sólidos episódios que não só nos deram casos divertidos como o da morte misteriosa de uma freira em “Bad Habits” ou o de um assassinato num farol em dia de chuva em “The Legend of Merle McQuoddy”, mas também exploraram personagens que permaneciam misteriosas, como o regresso da família de Emerson Cod (Chi McBride) em “Water and Power”, e  trouxeram uma nova parceria entre este e Olive (Kistin Chenoweth), arrancando as maiores gargalhadas ao longo da temporada, e confirmando o estatuto destes dois grandes actores, foi sem dúvida quando se regressou ao mistério principal, ao poder de Ned (Lee Pace) e as suas consequências para todos, que a série se superou. E mesmo se o final abrupto de “Kerplunk” tenha interrompido a história principal, deixando um pouco em aberto as histórias dos pais tanto de Ned como de Chuck (Anna Friel), o facto de termos tido a oportunidade de regressar, por breves momentos, a Coeur d’Coeur já é uma bela prenda.

Diálogos brilhantes, personagens divertidas, situações inusitadas, cenários fantasiosos e um romance que não deixa ninguém indiferente, é assim que “Pushing Daisies” se despede de todos. A sua vida pode não ter sido longa, mas só pelo facto de trazer à vida personagens como as tias Vivian (Ellen Greene) e Lily (Swoosie Kurz), merece um lugar de destaque.

Better Off Ted S1

betteroffted

Products are for people who don’t have presentations.

Há séries tão incríveis, tão inusitadas, que é impossível não nos rendermos a elas. E se a temporada não foi pródiga em grandes estreias, não há dúvida que “Better Off Ted” conquistou todos aqueles que a descobriram.

Veridian Dynamics, uma corporação multinacional, é o palco desta nova comédia da ABC. Como em muitas outras corporações multinacionais sem escrúpulos, onde se põe o dinheiro à frente dos valores morais, aqui criam-se os mais divertidos e estranhos produtos, desde pratos que pegam fogo a abóboras assassinas ou mesmo a bifes sem carne, tudo em nome da ciência – e do dinheiro, é claro.

O nosso protagonista é Ted Crisp (Jay Harrington), director do departamento de investigação, que procura balançar a sua carreira, a sua moral e a vida como pai solteiro da pequena Rose. A seu cargo tem dois dos melhores cientistas da companhia – Phil (Jonathan Slavin), o mais sensível, e Lem (Malcolm Barret), o mais pragmático – bem como Linda (Andrea Anders), chefe do departamento de testes, uma mulher divertida que intriga Ted mas que nunca poderá ser mais do que sua amiga por a quota de romances no escritório já ter sido gasta. A supervisionar tudo e todos encontra-se Veronica (Portia de Rossi), uma mulher fria e calculista, sem escrúpulos ou boas maneiras, que tudo faz para garantir o sucesso dos projectos mas que, por vezes, consegue mostrar um lado mais sensível.

Das estranhas políticas corporativas à burocracia, das ineficiências aos cortes de custos controversos, tudo é debatido nestes pequenos episódios, mas são as situações caricatas e, especialmente as personagens adoráveis que populam esta corporação, que nos convencem episódio atrás de episódio. Phil e Lem são uma das melhores (e mais estranhas) duplas de cientistas já vistas na televisão, homens que tudo fazem em prol da ciência, mesmo quando isso implica serem congelados vivos, e cada momento que estão no ecrã torna-se uma pérola, mas é sem dúvida a interpretação de Portia de Rossi como Veronica, a implacável chefe com alguns segredos no armário, a mulher que nunca tem um cabelo fora do sítio mas que consegue, por vezes, surpreender tudo e todos, que nos conquista definitivamente.

Com apenas treze episódios, a primeira temporada de “Better Off Ted” pode ter passado despercebida a muitos. Mas para todos aqueles que quiserem soltar uma boas gargalhadas, esta é a série ideal. A segunda temporada está já garantida, e se nos trouxer mais anúncios “Bosses! Better” ou momentos como os vistos em “Racial Sensitivity”, irá certamente entrar para o rol das favoritas deste cantinho.