Terriers

“Aw, we’ve been in worse situations.
I can’t think of any off the top of my head, but they’re there.”

Todos os anos, por entre as dezenas de estreias que surgem na nossa televisão, há aquelas que passam despercebidas, que nascem, crescem e morrem sem que ninguém dê por isso. E se esse é um percurso inevitável da vida televisiva, há algumas que custa mesmo – mas mesmo muito – perder. “Terriers” foi, em 2010, uma delas.

A vida de um ex-polícia, Hank Dolworth (Donal Logue) e de um ex-ladrão, Britt Polack (Michael Raymond-James), detectives privados em San Diego, vai mudar para sempre no dia em que recebem um pedido de um amigo de Hank: encontrar a filha desaparecida deste, que se meteu com quem não devia na alta roda da cidade e parece estar em apuros. Por entre dinheiro e perseguições, mansões e chantagens, estes dois detectives privados não oficiais, que não primam pela competência ou pela astúcia mas que compensam em determinação, vão ver-se envolvidos numa conspiração que poderá pôr em risco tudo e todos os que os rodeiam, e que irá pôr à prova a sua perseverança.

Com o cenário descontraído de San Diego a dar o tom à série, sucedem-se os típicos casos da semana que já se tornaram cliché neste género de histórias, como a recuperação de itens roubados de “Ring-A-Ding-Ding” ou as provas de infidelidade de “Change Partners“, casos que podem, de início – e mesmo com os diversos twists mais negros -, não cativar, mas que se revelam, devido a uma escrita inteligente e a diálogos contundentes, um bom acompanhamento para o prato principal da série: a história de Robert Lindus (Christopher Cousins) e das falcatruas em que este se envolveu, uma história que nos acompanha desde o primeiro, mais ligeiro episódio, e que parece por diversas vezes encerrada, até ao final da  temporada (e da série).

Se a trama principal da série tem, nestes treze episódios, uma evolução perfeita, desde as primeiras menções, às pistas lançadas nas diversas histórias secundárias, ao crescendo de intensidade em “Quid Pro Quo” e ao desfecho final em “Hail Mary“, proporcionando uma experiência gratificante, são sem dúvida as personagens que nos conquistam desde o primeiro momento e que nos fazem passar por cima de algum momento menos bom que possa existir. A cumplicidade que vemos no ecrã entre os protagonistas e que tão boas recordações nos deixa, é reflexo de uma verdadeira amizade fora do ecrã, e estende-se mesmo a personagens secundárias como a problemática Steph (Karina Logue), irmã de Hank dentro e fora do ecrã, ou a Katie  Nichols (Laura Allen), personagem que em outras séries poderia ser a típica namorada irritante mas que aqui se revela uma mulher complexa, ciente das suas escolhas e da pessoa com quem partilha a sua vida, capaz de nos surpreender tanto pela positiva, com um pedido mais picante, como pela negativa, ao cair em tentação. E mesmo se Gretchen (Kimberly Quinn) nunca tenha conseguido afirmar-se, e o detective Gustafsson (Rockmond Dunbar) pudesse ter tido mais destaque nas poucas (mas excelentes) cenas em que o vimos, a certeza permanece de que uma série que nos traz episódios como “Asunder“, onde os papéis se invertem num piscar de olhos, onde o desespero se transforma em determinação e a felicidade em tristeza, prova que mesmo num género já por demais esgotado ainda é possível fazer algo de bom.

“So what do you say, partner. Which way will it be?” O final pode ter chegado mais depressa do que esperávamos, deixando-nos desde logo cheio de saudades de Hank e Britt. Mas pelo menos fica a certeza de que esta é uma série que vale a pena ver (e rever).

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