Dexter S3

“Be careful what you think you know about someone – you’re probably wrong.”

Todos os heróis precisam, a certo ponto da sua vida, de um sidekick, um parceiro que os ajude a sair das maiores embrulhadas, que seja a voz da razão naqueles momentos de desespero; uma pessoa que compreende os dilemas por que passam os heróis e que os apoia incondicionalmente. E se “Dexter” não gira à volta de um herói no verdadeiro sentido da palavra, a verdade é que conseguiu provar, com esta terceira temporada, que mesmo os assassinos em série precisam, por vezes, de alguém em quem confiar.

Falar sobre uma temporada que se viu há mais de um ano não é fácil, ainda para mais quando essa temporada não agradou da mesma forma que as anteriores. Não deixando nunca de ser uma grande série com uma magnífica interpretação da parte de Michael C. Hall como o assassino em série mais interessante de sempre, a verdade é que se começava aqui a sentir algum cansaço. Depois de um final de temporada com um cheirinho a final da série, a terceira temporada é dedicada à rebelião de Dexter contra o código que sempre o guiou, à tentativa de encontrar um novo caminho sem as limitações do passado que o seu pai adoptivo, Harry (James Remar), sempre lhe tentou ensinar. Mas se a rebelião anunciava algo de interessante, uma nova direcção para esta personagem que sempre se mostrou tão incapaz de evoluir, a verdade é que acabou por não surtir os efeitos desejados, proporcionando duas histórias de qualidade muito diferente que não se conseguiram nunca impor.

Enquanto o nascimento de uma relação de amizade com Miguel Prado (Jimmy Smits) possibilita as cenas mais interessantes de toda a série, dando a Dexter aquilo que nunca teve – uma pessoa que não só o compreendia, que conhecia o seu passageiro negro e que não fugia dela mas que também o instigava e tentava absorver todos os ensinamentos -, já o foco num novo assassino em série que, de assustador, só mesmo o nome, acabou por retirar o impacto ao que poderia ter sido um passo importante no desenvolvimento da personagem principal. Sem um nome tão ominoso como Skinner, sem revelar os níveis de crueldade do assassino da temporada, Miguel acaba por transformar-se num inimigo bem mais perigoso que o serial killer, provando que os ensinamentos de Harry não são para todos.

Se, a nível profissional, a qualidade das histórias variou, já a nível familiar este foi o ano em que tudo mudou. Depois dos dilemas da segunda temporada, a relação de Dexter com Rita (Julie Benz) altera-se de forma significativa – para o bem e para o mal. A personagem de Rita sempre foi secundária mas importante para a evolução de Dexter, para o seu crescimento enquanto personagem e enquanto ser humano – aquele que ele é, mesmo que, por vezes, se recuse a reconhecê-lo. Infelizmente, o papel preponderante que teve na primeira e, de certa forma, na segunda temporada acaba por diminuir, transformando-se em pouco mais de uma caricatura de uma mulher grávida insegura, algo que não desejávamos para a personagem. Igual sorte tem Debra (Jennifer Carpenter), cujas relações amorosas insistem em não querer vingar, e que apenas no plano profissional parece conseguir vingar, mesmo quando se vê obrigada a lidar com um novo parceiro, Quinn (Desmond Herrington).

Embora a forma como as promessas e histórias lançadas no final da segunda temporada parecem ter sido esquecidas e se o anti-climax de “Do You Take Dexter Morgan” não nos surpreende verdadeiramente, tirando algum do brilhantismo a uma série até agora irrepreensível, é impossível deixar de pensar que esta história ainda agora parece ter começado e que, tal como a gota de sangue que mancha o vestido imaculado, o futuro de Dexter poderá vir a ser mais sangrento do que se imaginava.

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It’s going to happen again!

Não obstante o já longo e bem documentado fascínio desta casa pelas personagens controversas, mais propriamente pelos bad boys, é no mínimo estranho admitir que se venera um serial killer. Mas quem conhece bem o mundo da televisão, quem já ouviu falar desta pedra preciosa que é Dexter, não pode deixar de concordar que, por vezes, as obsessões mais estranhas fazem sentido.

Bater uma temporada perfeita como a primeira era quase impossível, e esta segunda temporada não o consegue fazer. Não manifesta o brilhantismo de uma história perfeitamente desenhada, a surpresa de nos fazer apaixonar por uma personagem tão moral e socialmente controversa. Mas mesmo com alguns altos e baixos ao longo dos doze episódios, não deixa de ser um regresso em força, de trazer alguns sobressaltos inesperados e de nos fazer, novamente, questionar a essência do ser humano.

Numa Miami que se encontra ainda no rescaldo da ameaça do Ice Truck Killer, é a nível pessoal que as consequências mais se fazem sentir. O trauma de Debra (Jennifer Carpenter) é compreensível, mas o de Dexter (Michael C. Hall) mais profundo. Ao perder o seu maior competidor, perdeu também a única pessoa que o compreendia, que o poderia aceitar como ele é. Juntando a isso a perseguição constante de Doakes (Erik King), que o obriga a trabalhar mais arduamente no seu disfarce, e a desconfiança crescente da namorada Rita (Julie Benz), a vida de Dexter torna-se cada vez mais complicada… até ao dia em que rebenta a notícia de que há um novo assassino nas águas da cidade, um homicida impiedoso, com inúmeras vítimas enterradas no fundo da baía. Um assassino que tem por nome Dexter.

Se a reviravolta policial é no mínimo inesperada, trazendo à trama o Tenente Lundy (Keith Carradine), pronto a liderar uma nova investigação e forçando Dexter a reprimir mais do que nunca os seus instintos, é mais interessante verificar que o conflito interno ultrapassa o externo: não só Dexter não pode, como não consegue matar… e isso leva-o a questionar tudo na sua vida: o código por que se rege, as relações com os que o rodeiam e com os que já o deixaram, a sua vida até este momento. A luta entre os dois lados da sua personalidade – o lado que quer ceder aos instintos vs. aquele que quer continuar no bom caminho; vilão vs. herói – é o grande tema da temporada, presente em todos os episódios mas espelhando-se especialmente no intrigante The Dark Defender e no revelador There’s Something About Harry. E se o confronto entre estes dois opostos era inevitável, o caminho escolhido não é certamente o mais saudável.

Tal como o Ice Truck Killer na primeira temporada, Lila (Jaime Murray) surge na história para preencher uma lacuna, mas tal como este não o vai conseguir fazer. Por mais que se iluda do contrário, Lila não conhece o verdadeiro Dexter, e apenas no final irá admitir esse facto. Por mais que tente emular os seus actos, por mais que tente resolver, de forma absolutamente chocante, a principal história da temporada, é tudo em vão, síndrome de uma obsessão que apenas poderia ter resultados trágicos.

Por vezes algo desconexa, com alguns momentos menos bons, a segunda temporada de Dexter não deixa de ter uma excelente história e de dar novamente a oportunidade a Michael C. Hall de brilhar num papel que parece feito à sua medida. Fica a impaciência para mais aventuras de um renovado Dexter, quem sabe contra uma nova inimiga, na pessoa da Detective LaGuerta (Lauren Velez), que em poucos minutos se redime de uma temporada mais fraca com um sentido lamento em The British Invasion. E se a mini-homenagem prestada pela série a si própria deixa antever algo, é que ainda há muito para explorar desta personagem.

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A Showtime parece querer desafiar a HBO como a rede televisiva com as séries mais inteligentes dos últimos tempos. Depois da grande descoberta que foi Weeds, Dexter foi outra grande surpresa.

Baseada nos livros de Jeff Lindsay (alguém tem, por acaso?), nesta série somos apresentados a Dexter Morgan (Michael C. Hall), um técnico de laboratório especialista em sangue, que trabalha para a polícia de Miami. Dexter é introvertido e tem problemas em relacionar-se com os outros, quer na sua família, no trabalho, ou com a própria namorada Rita (Julie Benz).

Mas Dexter esconde um grande segredo… ele é, na verdade, um assassino em série. Não um assassino em série qualquer, no entanto… não: Dexter rege-se por um código de conduta que não lhe permite matar indiscriminadamente, mas apenas sacrificar aqueles que escaparam das malhas da lei, executando assim um pouco da sua visão de justiça poética.

Ao longo dos doze episódios que constituem esta primeira temporada, vamos descobrindo a vida de Dexter, vendo como tenta lentamente começar a lidar com os que o rodeiam, ao mesmo tempo que procura desvendar o mistério do Ice Truck Killer, um novo assassino que está a deixar Miami em pânico.

Só o tema principal da série bastava para chamar atenção, mas é a interpretação de Michael C. Hall como Dexter que a leva para uma nova dimensão. Nesta nova interpretação, que já lhe valeu uma nomeação para os Globos de Ouro, Hall consegue fazer-nos esquecer os fatos pretos de David Fisher do saudoso Sete Palmos de Terra e vibrar com as pequenas conquistas de Dexter.

Uma série excelente, e que promete regressar em grande com uma segunda temporada.

E para quem já terminou… adivinharam quem era o assassino? O que acharam daquele final? Estou em pulgas para a próxima temporada!