Broadchurch

bc108_0789

“We were happy here.”

Nada há melhor do que um bom mistério. Daqueles que nos permitem mergulhar numa história, apegar-nos às personagens que a habitam, sofrer com elas todos os altos e baixos da investigação e, no final, acompanhá-las na grande revelação. Desde as primeiras aventuras com os Cinco ao romance com o bigode de um belga baixinho, os grandes mistérios sempre fizeram parte desta casa. E em 2013, com “Broadchurch”, regressaram em força.

Na cidade costeira de Broadchurch, o amanhecer traz consigo uma descoberta terrível. O corpo do pequeno Danny Latimer (Oskar McNamara) surge na praia, sem vida, e despoleta uma investigação policial que vai mudar, irremediavelmente, a vida de todos na cidade. Soa familiar? Talvez. Afinal, “Broadchurch” não apresenta uma história inédita. Mas isso não tira mérito à série. Muito pelo contrário, pois prova que, por vezes, não é o mistério em si que é o essencial da história, mas sim a forma como se aborda o tema da morte, da perda, da desconfiança. Na pequena comunidade de Broadchurch, a morte de Danny é mais do que uma investigação – é a oportunidade que temos para descobrir mais sobre aqueles que nos rodeiam, sobre as suas vidas e os seus passados, sobre os seus segredos e os seus erros. É a oportunidade de ver o que acontece quando uma mãe (Jodie Whitaker) tem de lidar com o que deveria ser uma alegre surpresa no pior momento da sua vida. É a oportunidade de ver um pai (Andrew Buchan) a perder aquilo que mais ama por causa de uma decisão errada. É a oportunidade de ver que os erros do passado acabam sempre por regressar no presente, com consequências devastadoras, tanto para uns (David Bradley), como para outros (Pauline Quirke). É saber que, por mais que tentemos fugir dos nossos erros, eles irão sempre alcançar-nos. E é perceber que, afinal, não sabemos mesmo nada sobre os nossos vizinhos.

“Broadchurch” é tudo isto. É todas estas histórias, todos estes dramas, todos estes segredos. E é também todas as suas personagens. Mas, no fundo no fundo, é a história de Ellie Miller (Olivia Colman) e de Alec Hardy (David Tennant). É a história de dois detectives tão diferentes, que encontram em Broadchurch um ponto em comum – a dor, e o desespero. É a história de como uma mulher carinhosa e alegre descobre o lado negro de todos aqueles que a rodeiam, e de como um homem desiludido e amargo começa, lentamente, a confiar novamente em alguém. E é também a certeza de que, por vezes, não temos as respostas correctas, de que nunca iremos saber porquê.

Se aliarmos uma excelente história e personagens eximiamente construídas a uma maravilhosa cinematografia, proporcionada pela belíssima costa jurássica de Dorset, que serviu de pano de fundo para a fictícia cidade, e a uma banda sonora impressionante do islandês Ólafur Arnalds, que permanece connosco mesmo depois de terminados os episódios, percebe-se porque “Broadchurch” é uma série a não perder antes da estreia do inevitável (e totalmente desnecessário) remake americano.

Appropriate Adult


“You’re the only one I can trust.”

O ser humano é uma criatura estranha, capaz do melhor e do pior. Capaz de amar profundamente uma pessoa e de matar sem piedade. Capaz de se deixar deslumbrar por belas histórias de amor, e fascinar pelos mais terríveis assassinatos. É uma dicotomia estranha esta, mas que transforma o ser humano numa criatura muito interessante. E é exactamente esta dicotomia que é explorada em “Appropriate Adult“.

Gloucester, Fevereiro de 1994. As ossadas de Heather Ann West são descobertas debaixo do pátio da casa de Fred (Dominic West) e Rosemary (Monica Dolan) West. Depois de anos de especulação, de investigações frustradas e de julgamentos que nunca o chegaram a ser, Fred é finalmente indiciado por uma sucessão de assassinatos que remontam aos anos 70.

A história de Fred e Rose West, um casal de assassinos em série que, durante mais de duas décadas, aterrorizou Gloucester, é uma das mais famosas do Reino Unido, não só pelo elevado número de vítimas descobertas, mas também devido a uma história sórdida que envolve incesto, prostituição e violência contra jovens, mulheres e crianças e que chocou a Inglaterra nos anos noventa. Os contornos deste caso, e a pouca distância que nos separa ainda dos eventos que tiveram lugar no número 25 de Cromwell Street, rodearam a sua passagem para o pequeno ecrã de inúmeras polémicas. Mas se há algo que podemos dizer da mini-série, é que conseguiu abordar a história de uma perspectiva diferente, tirando o foco dos crimes em si e virando-o para Janet Leach (Emily Watson), a psicóloga destacada para o caso. E é isso que a torna tão interessante. É na relação de cumplicidade e dependência mútua de Fred e Janet, que a série deixa de ser apenas mais uma sobre assassinos em série, para passar a explorar o próprio ser humano. É na forma como Dominic West se transfigura em Fred, um homem ao mesmo tempo abominável e cativante, que a série se supera e confirma todos os prémios recebidos. E é pela forma como consegue deixar-nos a pensar, chegados os créditos finais, que vale sem dúvida a pena ver.

The Syndicate S1

E se, de repente, ganhassem a lotaria? O que fariam com dezoito milhões de libras? Comprariam a casa dos vossos sonhos e juntariam de novo a família quase perdida? Mudariam o vosso corpo e estilo para agradar ao marido? Pagariam todas as dívidas e iniciariam uma nova vida de luxo? Ou, simplesmente, continuariam a viver a vida como até aí? Este dilema, com que muito poucos se depararam até hoje, dá o mote a “The Syndicate“, mais um interessante drama da BBC.

Em Leeds, quando tudo parecia perdido, e o desespero toma conta dos irmãos Stuart (Matthew McNulty) e Jamie (Matthew Lewis), chega a bonança na forma de um chorudo cheque para dividir entre os cinco membros da sociedade do supermercado Right U Buy. Mas o que poderia ter sido mais uma história com final feliz, ganha novos contornos ao explorar as consequências de uma mudança de vida tão dramática.

Para Stuart, esta era a oportunidade de resgatar a sua família da bancarrota financeira e, ao mesmo tempo, de recuperar a família, especialmente agora com a chegada da nova filha. Já para Denise (Lorraine Bruce), o dinheiro não traz felicidade, mas pode ajudar a recuperar o marido que, após anos e anos de casamento, rodeado de parentes indesejáveis e de uma mulher sem qualquer auto-estima, a resolveu abandonar. Jaime, pelo contrário, pensa apenas em si, nas suas dívidas agora saldadas, e nos carros desportivos que pode comprar, enquanto Leanne (Joanna Page) apenas quer continuar a educar a sua filha em paz e Bob (Timothy Spall), bom, Bob tem mais em que pensar. A cada episódio, a cada história que vamos descobrindo e segredo escondido que se vai revelando, torna-se cada vez mais claro que, como reza o ditado, o dinheiro nem sempre traz a felicidade.

Com um início bem promissor e apenas cinco episódios – um dedicado a cada personagem – esperava-se que a série fosse bastante contida e que terminasse da melhor forma. Infelizmente não foi o que aconteceu. Se as histórias de Matthew, Bob e Denise foram interessantes, quando chegamos à vez de Leanne o tom começa a mudar, as situações começam a ficar rebuscadas demais, a telenovela impõe-se na forma de um triângulo indesejável e leva a que, quando chegamos a Jamie, o desfecho seja já tão previsível, que acaba por perder um pouco a piada. De qualquer forma, a certeza de que a história destes cinco vencedores teve aqui o seu fim, e de que a segunda temporada da série irá focar-se em novos vencedores, deixa alguma esperança de que se tenha aprendido com alguns erros da primeira temporada, e que a próxima história seja mais consistente.

Inside Men

“Being rich didn’t matter, getting away with it didn’t matter – I just couldn’t go back to being him”

Um dia como tantos outros numa empresa de contagem de dinheiro. John (Steven Mackintosh), um homem como tantos outros, de meia-idade, pai de família, burocrata. Uma porta que se abre. É este o cenário que dá início aos dez minutos mais frenéticos dos últimos anos.

Histórias de assaltos a bancos são à dúzia nos dias que correm: umas boas, outras más, outras assim-assim. Mas depois há também aquelas que são feitas pela BBC, como a mini-série “Inside Men“, que conseguem dar um novo alento a um género que se encontra já por demais batido. E tudo isso graças a uma história bem elaborada, recheada de voltas e reviravoltas que nos fazem ficar agarrados à cadeira, a uma acção frenética e, especialmente, a personagens extremamente complexas que não deixam de nos cativar de início ao fim.

Se é verdade que a série começa com um grande estrondo, também é verdade que logo a seguir o passo desacelera. Do decorrer do assalto, saltamos nove meses para o passado, para ver como se chegou até aqui. E, de repente, tudo muda. O assalto continua a ser o objectivo a atingir, mas as histórias individuais, essas, vão-se ganhando predominância. Dita (Leila Mimmack), a jovem polaca apanhada a roubar umas libras; Chris (Ashley Walters), o segurança que sonha com um futuro melhor; Marcus (Warren Brown), o aventureiro que quer dar a Gina (Kierston Wareing) mais, muito mais; e John, o homem inteligente, correcto, e tranquilo que decide estar na altura de mudar. Se a premissa da série é de um thriller sobre um assalto, ao longo dos quatro episódios, com a ajuda dos saltos entre o presente e o passado, descobre-se que o mais importante afinal é conhecer as personagens, ver o que as motiva, ver como evoluem, ver como se revelam lentamente, e a forma como isso é capaz de mudar a nossa percepção de uma história. O que temos, no final, é uma exploração da motivação do ser humano, que pode surpreender-nos das mais variadas formas. E é por isso que perdoamos a “Inside Men” algumas incongruências da história, algumas decisões mais confusas e algumas cenas que nos deixam na dúvida: porque no final, o que temos são personagens complexas, e uma interpretação fascinante de Mackintosh, que tão cedo não dará para esquecer.

United States of Tara S2

“Do you know what today is? Today is my bullet train to a new life.
They’re normal people. And they’re making room in their normal-people group photos… For me.”

Estreias auspiciosas há muitas: aquelas que nos cativam, que prometem trazer algo de novo e marcante à televisão e que nos deixam na expectativa de algo infinitamente melhor no ano seguinte. Infelizmente, poucas são as vezes que o regresso consegue alcançar o feito do original. Mas porque, mesmo assim, ainda há excepções à regra, a segunda temporada de “United States of Tara” provou que não só é possível manter o nível de qualidade da história, dos diálogos e das interpretações de todo o elenco, como por vezes consegue-se mesmo superá-lo.

Tendo por tema da temporada as memórias, aquelas que se tentam esconder e as que se tentam criar, sentimos desde logo que a tranquilidade aparente de “Yes” não poderia durar muito. Desde o primeiro momento, desde a primeira visão que temos de toda a família reunida a deitar fora as memórias de vidas passadas que fica claro que a nova tranquilidade, conseguida à custa de uma combinação de medicamentos, não poderia durar, que as desordens de Tara (Toni Collette) podiam estar adormecidas, mas não desaparecidas para sempre. Talvez por isso, o regresso dos alters fosse algo esperado. Já a forma como isso acontece, como a relativa paz da família é quebrada com o regresso de Buck não por eventos internos, mas devido a um suicídio estranho na casa ao lado, levanta mais questões que permanecem por esclarecer.

Por entre avanços e recuos, alegrias e tristezas, confusões e reencontros, o evento que despoletou o transtorno dissociativo de identidade de Tara, e que há tantos anos marca esta família, começa lentamente a revelar-se, com a ajuda de pequenas pistas que nos levam, de forma inesperada, a revelações surpreendentes. A relevância da casa do vizinho pode permanecer por esclarecer, mas com a chegada da terapeuta Shoshanna em “You Becoming You“, um novo alter de Tara que, ao contrário dos restantes, parece estar ali para ajudar toda a família, o mistério principal ganha novo fôlego e as revelações não se fazem esperar. Primeiro no espectacular “Torando!“, onde à música se sucedem as lágrimas, à dança o terror, e o papel de Charmaine (Rosemarie DeWitt) em toda esta história começa a ser cada vez mais evidente, depois na visita inesperada a uma velha conhecida que desperta rancores antigos em “To Have And To Hold“, e terminando com o confronto final  em “From This Day Forward“, no que deveria ter sido um dos dias mais felizes para a família mas que acaba envolto em lágrimas, a mistério de Tara e da sua doença fica assim, se não totalmente esclarecido, pelo menos algo resolvido, e promete trazer mais emoções na próxima temporada.

Se a trama principal da temporada conseguiu mostrar o que de melhor esta série tem – uma história cativante com personagens fascinantes e interpretações de nota – , conseguindo mesmo dar a Charmaine, personagem por vezes irritante mas que tem, no fundo, algo mais para contar, uma maior dimensão, já as histórias secundárias acabaram por prejudicar a evolução da temporada. A facada no matrimónio por parte de Max (John Corbett), devido a um crescente desespero e desejo de vingança, é de certa forma compreensível, tais como as tentativas de Marshall (Keir Gilchrist) de encontrar o seu lugar no mundo e de se sentir bem na sua pele, que o levam a primeiro experimentar o lado oposto, antes de finalmente decidir assumir as suas preferências e encontrar – esperamos nós – alguém que partilha dos seus sentimentos. No entanto, e tal como na primeira temporada, é a história de Kate (Brie Larson), primeiro no gabinete de colectas, depois com a estranha amizade com Lynda (Viola Davis) e a criação da do alter-ego princesa Valhalla e terminando com o novo (e, mais uma vez, muito estranho) namorado, que acaba por sugar grande parte do interesse aos episódios, e deixar-nos com a vontade de ver terminado o suplício. Mas porque é à volta de Tara que tudo gira, porque a série continua a apresentar grandes interpretações e porque consegue, mesmo com alguns pontos mais fracos, surpreender-nos a cada episódio, é possível afirmar que “United States of Tara” continua a ser uma das séries favoritas da mid-season americana e que se aguarda, com expectativa, mais aventura da família Greggson.

Boardwalk Empire S1

“You can’t expect to have everything”

HBO. Sinónimo de qualidade garantida e orçamentos milionários, de grandes séries com histórias intrigantes e personagens maiores do que a vida, de actores de renome com interpretações de nota. Casa de “The Sopranos, “Six Feet Under, “The Wire e tantas outras que deixaram o seu cunho na televisão actual. Quando a HBO anuncia um projecto, seja ele de que área for, toda a gente pára, escuta e olha atentamente para ver qual o próximo sucesso. E se nem sempre essa nossa atenção foi recompensada com as melhores histórias, com “Boardwalk Empire não haveria nada que enganar, certo?

Com o cenário fascinante de Atlantic City dos anos 20 em pano de fundo, só a ideia de ver reconstituída esta época de prosperidade entre guerras, de festas e diversão ao som dos ritmos frenéticos do jazz, de Lei Seca e de gangsters que crivaram de balas o seu lugar na história, garantia desde logo uma atenção redobrada na estreia. Juntando a isso o orçamento milionário, a escolha de um protagonista roubado ao cinema e a simples menção de Martin Scorsese para a cadeira de realizador do episódio piloto, estava garantido o sucesso de uma série que não conseguiria nunca desiludir. O problema… o problema foi que a desilusão acabou mesmo por chegar.

Não nos enganemos: a nível estético, “Boardwalk Empire” está ao nível do que de melhor se faz do lado de cá do Atlântico por bandas da BBC. O cuidado com que se fez a reconstituição de uma época, os toques realistas que se encontram um pouco por todo o lado, seja no guarda-roupa, nos adereços, na banda sonora ou nos magníficos efeitos especiais, que nos fazem transportar para a época em questão, são razões mais do que suficiente para ver, com atenção, esta série. Aliando a isso a abordagem – mesmo que leve – a alguns dos temas quentes da época, como foi o rescaldo da grande guerra, o racismo e o ressurgimento do Ku Klux Klan, com a ajuda de um sempre interessante Michael K. Williams ou a luta das mulheres sufragistas pelo direito de poderem ter uma palavra a dizer sobre os destinos do país ao mesmo tempo que continuavam a sofrer toda a espécie de violências dentro de casa, torna a série num intrigante documento sobre uma época. Mas se todo este visual, todo este “flash” deslumbra qualquer espectador, o que fica a faltar – a trama principal, as histórias secundárias, as personagens – sai a perder. Fica-se o “flash”, falta a substância.

Nucky Thompson (Steve Buscemi), tesoureiro de New Jersey, é o elemento à volta de qual gira esta história, um homem determinado que governa, com pulso firme, tudo e todos à sua volta, que não hesita em desfrutar dos maiores prazeres da vida, sejam eles comida, álcool, mulheres – muitas mulheres – ou dinheiro, mas que parece manter, ao mesmo tempo, uma consciência e um sentido de justiça que dele não esperávamos. Se a sua inteligência e astúcia, a forma como consegue manipular o jogo em que muitos se perdem, é aquilo que o distingue de todos os outros, é, no entanto, nos momentos mais calmos, quando expressa os seus sentimentos, cansaço e, talvez, alguma desilusão pelo estado da sociedade actual e da sua vida particular, que nos consegue verdadeiramente cativar. Já Jimmy Darmody (Michael Pitt), parece por vezes o oposto de Nucky, ansioso por fazer algo, dar sentido à vida pós-guerra mas que acaba, invariavelmente, por meter-se em confusões e causar vítimas inocentes. No entanto, é também Jimmy que mais vemos evoluir, especialmente a partir do momento em que parte para Chicago e trabalha com Al Capone (Stephen Graham), onde começa a revelar uma inteligência fora do normal e que é usada tanto para o bem, como para o mal, como vemos na vingança presente em “Anastasia“. Terceiro pilar da história, Margaret Schroeder (Kelly Mcdonnald) é talvez a personagem mais cativante, aquela que nos faz regressar, mesmo quando tudo parece em vão, a esta história, não só graças a uma excelente interpretação da actriz, apenas superada pela de Michael Pitt, mas igualmente devido à sua evolução ao longo da temporada, à forma como  se deixa, por vezes, enganar para rapidamente dar a volta por cima, à forma como consegue encontrar o seu caminho, mesmo quando este vai contra tudo aquilo em que sempre acreditou, como acontece em “Paris Green“.

Três protagonistas, três pontos de vista tão diferentes sobre uma mesma cidade, seriam já suficientes para criar uma história interessante. O problema é quando a estas história principais juntamos todas as outras histórias paralelas, que vão desde as tentativas do Agente Van Halen (Michael Shannon) de deitar abaixo a ordem instituída de Atlantic City e do seu líder, mas que acabam por o corromper da pior maneira em “The Emerald City“, à história sórdida da família de Jimmy, da mãe Gillian (Gretchen Mol) à esposa Angela (Aleksa Palladino), aos confrontos com Eli (Shea Whigham) ou até mesmo às lutas pelo controlo da cidade e da distribuição do álcool com os gangsters vizinhos, que tanto prometeram mas que, no final, deram em nada.

Como ouvimos dizer a certo ponto da história, não podemos esperar ter tudo. Não devemos esperar ter uma história irrepreensível aliada a grandes interpretações, juntar a isso uma grande produção e uma reconstituição fiel da história. Mas a verdade é que, tal como Nucky afirma veementemente, deste lado espera-se encontrar exactamente isso tudo. Espera-se que uma série deste calibre consiga mais, muito mais do que um simples atar de pontas soltas que nos deixa, ao chegar a “A Return To Normalcy“, com a sensação de que pouco ou nada aconteceu ao longo destes doze episódios que constituem a primeira temporada. E é por isso que esperamos que, no próximo ano, “Boardwalk Empire” consiga dar o salto que lhe permita alcançar as expectativas que nela depositávamos.

Skins S1-2

“Look around, Sidney. This is a shitty little town. You’ve got to improvise”

Adolescência: a fase do desenvolvimento da vida humana que faz a transição entre a infância e a vida adulta é também uma das mais complicadas. Quando a razão parece desaparecer, os dramas se exacerbam e a rebelião é presença contínua, nada mais há a fazer do que esperar que a neura passe. Todos nós passámos por ela, todos os outros a irão viver. Talvez aí se encontre então a explicação para a proliferação, desde sempre, de séries “teen”. Mas provando que nem todas as séries “teen” são iguais, “Skins” é mais uma bela surpresa que chega de terras da sua majestade.

Na cidade inglesa de Bristol, um grupo de amigos vê a vida passar entre as aulas, os trabalhos de casa, as festas, a música, as drogas, o álcool e muito, muito sexo. Adolescentes como muitos outros, mas também especiais, individuais: Tony (Nicholas Hoult), belo, sempre em forma, arrogante, o líder a quem a vida corre sempre de feição, Michelle (April Pearson), a namorada sempre disponível para ajudar, que apenas quer ver retribuída a sua afeição e Sid (Mike Bailey), o melhor amigo de Tony que quer perder a virgindade, seja com quem for, mas de preferência com Michelle. A eles juntam-se Jal (Larissa Wilson), música em formação e a mais comedida do grupo e Chris (Joe Dempsie), o mais extrovertido, sempre metido em apuros com uma passa em cada mão, Maxxie (Mitch Hewer), que sonha em dançar e não tem medo de gritar aos quatro ventos a sua homossexualidade e o melhor amigo Anwar (Dev Patel), dividido entre as festas e os deveres impostos pela cultura a que pertence, a enigmática Effy (Kaya Scodelario), irmã mais nova de Tony e a inesquecível Cassie (Hannah Murray), com uma personalidade tão exuberante quanto a gaveta de comida que esconde debaixo da cama. Adolescentes que representam, cada um deles, um estereótipo mas que, com o passar dos episódios, se vão transformando em algo mais.

Alternando entre a comédia negra e o drama, entre os exageros e os momentos mais introspectivos, “Skins” não é uma série de fácil consumo, mesmo para públicos mais abertos como o europeu. A comédia de situação nem sempre funciona, as ideias mais rebuscadas, presentes em histórias tão sem graça como a viagem à Rússia de “Maxxie and Anwar” ou a obsessão de “Sketch” tornam-se, por vezes, cansativas, e o sentimento de catástrofe que impera, a partir de certo ponto, na segunda temporada, de que tudo o que de pior poderia acontecer, acontece, torna-se fatigante e, também, pouco credível. Mas quando pomos de lado estes defeitos, quando deixamos passar algumas situações mais ridículas ou alguns dramas amorosos mais repetidos, encontramos verdadeiras pérolas que nos fazem acreditar que sim, mesmo dentro das histórias de adolescentes, é possível fazer algo de muito bom. Se “Tony“, na primeira temporada, nos deixa algo de pé atrás ao apresentar o mau caminho que esta série poderia ter escolhido, já “Cassie“, o episódio que o segue, prova que as primeiras impressões estão erradas e dá-nos a conhecer a personagem mais cativante de toda a série, aquela cujo destino mais acaba por nos marcar. Da mesma forma, se “Tony“, na segunda temporada, nos deixa de boca aberta pelos piores motivos, já “Jal” e a sua continuação “Cassie” são um verdadeiro murro no estômago, deixando quem seguiu a vida deste grupo de amigos sem saber como reagir.

Com uma primeira temporada mais auto-contida, e uma segunda menos conseguida mas que nos traz, ainda assim, alguns dos melhores momentos desta primeira geração, como é o caso de “Maxxie and Tony” e os episódios referidos em cima, “Skins” é, sem dúvida uma série a que vale a pena dar uma oportunidade, sem preconceitos ou recriminações.