Boardwalk Empire S1

“You can’t expect to have everything”

HBO. Sinónimo de qualidade garantida e orçamentos milionários, de grandes séries com histórias intrigantes e personagens maiores do que a vida, de actores de renome com interpretações de nota. Casa de “The Sopranos, “Six Feet Under, “The Wire e tantas outras que deixaram o seu cunho na televisão actual. Quando a HBO anuncia um projecto, seja ele de que área for, toda a gente pára, escuta e olha atentamente para ver qual o próximo sucesso. E se nem sempre essa nossa atenção foi recompensada com as melhores histórias, com “Boardwalk Empire não haveria nada que enganar, certo?

Com o cenário fascinante de Atlantic City dos anos 20 em pano de fundo, só a ideia de ver reconstituída esta época de prosperidade entre guerras, de festas e diversão ao som dos ritmos frenéticos do jazz, de Lei Seca e de gangsters que crivaram de balas o seu lugar na história, garantia desde logo uma atenção redobrada na estreia. Juntando a isso o orçamento milionário, a escolha de um protagonista roubado ao cinema e a simples menção de Martin Scorsese para a cadeira de realizador do episódio piloto, estava garantido o sucesso de uma série que não conseguiria nunca desiludir. O problema… o problema foi que a desilusão acabou mesmo por chegar.

Não nos enganemos: a nível estético, “Boardwalk Empire” está ao nível do que de melhor se faz do lado de cá do Atlântico por bandas da BBC. O cuidado com que se fez a reconstituição de uma época, os toques realistas que se encontram um pouco por todo o lado, seja no guarda-roupa, nos adereços, na banda sonora ou nos magníficos efeitos especiais, que nos fazem transportar para a época em questão, são razões mais do que suficiente para ver, com atenção, esta série. Aliando a isso a abordagem – mesmo que leve – a alguns dos temas quentes da época, como foi o rescaldo da grande guerra, o racismo e o ressurgimento do Ku Klux Klan, com a ajuda de um sempre interessante Michael K. Williams ou a luta das mulheres sufragistas pelo direito de poderem ter uma palavra a dizer sobre os destinos do país ao mesmo tempo que continuavam a sofrer toda a espécie de violências dentro de casa, torna a série num intrigante documento sobre uma época. Mas se todo este visual, todo este “flash” deslumbra qualquer espectador, o que fica a faltar – a trama principal, as histórias secundárias, as personagens – sai a perder. Fica-se o “flash”, falta a substância.

Nucky Thompson (Steve Buscemi), tesoureiro de New Jersey, é o elemento à volta de qual gira esta história, um homem determinado que governa, com pulso firme, tudo e todos à sua volta, que não hesita em desfrutar dos maiores prazeres da vida, sejam eles comida, álcool, mulheres – muitas mulheres – ou dinheiro, mas que parece manter, ao mesmo tempo, uma consciência e um sentido de justiça que dele não esperávamos. Se a sua inteligência e astúcia, a forma como consegue manipular o jogo em que muitos se perdem, é aquilo que o distingue de todos os outros, é, no entanto, nos momentos mais calmos, quando expressa os seus sentimentos, cansaço e, talvez, alguma desilusão pelo estado da sociedade actual e da sua vida particular, que nos consegue verdadeiramente cativar. Já Jimmy Darmody (Michael Pitt), parece por vezes o oposto de Nucky, ansioso por fazer algo, dar sentido à vida pós-guerra mas que acaba, invariavelmente, por meter-se em confusões e causar vítimas inocentes. No entanto, é também Jimmy que mais vemos evoluir, especialmente a partir do momento em que parte para Chicago e trabalha com Al Capone (Stephen Graham), onde começa a revelar uma inteligência fora do normal e que é usada tanto para o bem, como para o mal, como vemos na vingança presente em “Anastasia“. Terceiro pilar da história, Margaret Schroeder (Kelly Mcdonnald) é talvez a personagem mais cativante, aquela que nos faz regressar, mesmo quando tudo parece em vão, a esta história, não só graças a uma excelente interpretação da actriz, apenas superada pela de Michael Pitt, mas igualmente devido à sua evolução ao longo da temporada, à forma como  se deixa, por vezes, enganar para rapidamente dar a volta por cima, à forma como consegue encontrar o seu caminho, mesmo quando este vai contra tudo aquilo em que sempre acreditou, como acontece em “Paris Green“.

Três protagonistas, três pontos de vista tão diferentes sobre uma mesma cidade, seriam já suficientes para criar uma história interessante. O problema é quando a estas história principais juntamos todas as outras histórias paralelas, que vão desde as tentativas do Agente Van Halen (Michael Shannon) de deitar abaixo a ordem instituída de Atlantic City e do seu líder, mas que acabam por o corromper da pior maneira em “The Emerald City“, à história sórdida da família de Jimmy, da mãe Gillian (Gretchen Mol) à esposa Angela (Aleksa Palladino), aos confrontos com Eli (Shea Whigham) ou até mesmo às lutas pelo controlo da cidade e da distribuição do álcool com os gangsters vizinhos, que tanto prometeram mas que, no final, deram em nada.

Como ouvimos dizer a certo ponto da história, não podemos esperar ter tudo. Não devemos esperar ter uma história irrepreensível aliada a grandes interpretações, juntar a isso uma grande produção e uma reconstituição fiel da história. Mas a verdade é que, tal como Nucky afirma veementemente, deste lado espera-se encontrar exactamente isso tudo. Espera-se que uma série deste calibre consiga mais, muito mais do que um simples atar de pontas soltas que nos deixa, ao chegar a “A Return To Normalcy“, com a sensação de que pouco ou nada aconteceu ao longo destes doze episódios que constituem a primeira temporada. E é por isso que esperamos que, no próximo ano, “Boardwalk Empire” consiga dar o salto que lhe permita alcançar as expectativas que nela depositávamos.

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Entourage S7

“Look, you got what you wanted, I’m officially out of control.”

Como é que sabemos que o Verão, finalmente, chegou? Não é quando viramos a folha do calendário, nem quando começamos a ver Alfama decorada, muito menos quando o calor marca presença. Não, o verão chega quando os nossos guilty-pleasures televisivos se anunciam na TV. E entre esses, nenhum bate “Entourage”. O problema… o problema é quando o inverno se abate sobre os mesmos.

Depois de uma sexta temporada com altos e baixos, com boas histórias e desenvolvimentos interessantes de personagens pouco trabalhadas até então mas, também, com histórias que prometeram, prometeram e nunca deram em nada, esperava-se que a sétima (e penúltima) temporada desta série conseguisse pegar no que de melhor para trás tinha ficado e encaminhasse, definitivamente, a história no bom sentido. Infelizmente, provando que as nossas expectativas, quanto maiores são, mais furadas saem, o que tivemos foi uma temporada exasperante e que conseguiu mesmo destruir muito do que de bom para trás tinha ficado. No cerne da questão… Vince (Adrian Grenier).

Logo a abrir em “Stunted“, e porque, em Hollywood, tudo chega mais cedo, a crise da meia-idade instala-se em Vince depois de um acidente no set de filmagens. Tema aberto para a temporada, o que se seguiram foram nove episódios em que assistimos à lenta caída de Vince numa espiral de auto-destruição. Que Hollywood é uma Meca para histórias de actores que passaram pelo mesmo, já nós sabíamos. Mas que, com tantos exemplos onde ir buscar histórias para complementar esta “fase” de Vince, tenham escolhido “Vince resolve regressar aos tempos de criança a fazer birras e a bater com o pé no chão” é desanimador. Dar protagonisto à “estrela” da série que, na verdade, sempre esteve em segundo plano podia ter sido uma boa oportunidade de desenvolver uma personagem que sempre nos pareceu muito supérflua nesta história. O problema surge, no entanto, quando se aliam situações pouco interessantes a interpretações sofríveis, não só do actor principal mas também de Sasha Grey, uma estrela de filmes pornográficos contratada para fazer de sua namorada mas que, infelizmente, de actriz nada tem, e a uma dificuldade em fazer com que as acções e as tomadas de posição tenham consequências futuras. Explorar o lado mais “sério” e “real” da vida das grandes estrelas de Hollywood teria sido uma uma forma muito interessante de revitalizar esta série, mas ao fazerem as acções de Vince, fossem elas nas entrevistas de emprego, nas reuniões com os estúdios ou simplesmente na vida por entre a sociedade de Hollywood, não terem consequência alguma até ao desfecho final em “Lose Yourself“, retirou credibilidade à história. E isso, infelizmente, não é o que se quer… seja em que tipo de série for.

Mas porque o mal não se ficou apenas por uma aldeia, a sétima temporada de “Entourage” conseguiu, também, destruir tudo o que de bom se tinha feito por Turtle (Jerry Ferrara) na temporada anterior, fazendo-o regredir à personagem sem rumo do passado e, pior ainda, oferecendo-nos uma desinteressante história sobre tequilla que apenas bocejos consegue arrancar do espectador. Já Eric (Kevin Connolly), longe dos dilemas amorosos do passado, vai planeando o seu casamento e acaba remetido quase a personagem secundária, apenas ganhando algum interesse quando, numa reviravolta interessante, um fantasma do passado surge: Billy Walsh (Rhys Coiros).

Se todos estes pontos negativos fazem qualquer fã da série desesperar houve, mesmo assim, algo para alegrar e dar alento de um final condigno para a mesma no próximo verão. Os nomes, esses, são sempre os mesmo: Ari (Jeremy Piven) e Drama (Kevin Dillon), duas personagens tão diferentes, em pontos tão opostos da sua vida mas que acabam, ao longo da temporada, por inverter papéis. Sempre sem trabalho, Drama desespera de início, mas com a chegada de Billy Walsh poderá ter encontrado o seu verdadeiro caminho na animação. Já Ari, esse, começa em alta, dono do mundo, mas devido a jogos de poder com uma velha inimiga e à determinação de uma (ex-)funcionária, poderá ter posto tudo a perder, tanto na vida profissional como na pessoal. Elementos de destaque em todas as temporadas, especialmente na parte da comédia, como por exemplo em “Tequilla Sunrise“, onde Drama tenta convencer um velho rival a ser o co-protagonista de uma série, ou a explosão mais do que anunciada de Ari em “Sniff Sniff Gang Bang“, continua a ser nas cenas mais dramáticas, mais pessoais, mais sinceras, como a sentida declaração de Drama à secretária de Eric, ou o pedido sincero de uma nova oportunidade de Ari à mulher, que os dois se destacam.

Com boas ideias, boas histórias e sempre com aquele pezinho de crítica à sociedade que desde início marcou a série, esta poderia ter sido uma temporada de destaque de “Entourage”. Infelizmente, o que nos ofereceram foi, apenas, mais do mesmo. E isso, infelizmente, já não chega para nos satisfazer.

Hung S2

Don’t call me T-Brain! I’m a mother fucking pimp!

Admitir derrota é difícil. Admitir derrota quando acreditamos em algo – mesmo com todos os problemas que desde início identificamos – é pior ainda. Mas por vezes, torna-se necessário engolir as nossas próprias palavras e constatar que algo não consegue mesmo atingir o nível que esperávamos. E se, nos últimos tempos, várias foram as séries que desiludiram, “Hung” é capaz de ter sido a que o fez da pior maneira.

A história de Ray Drecker (Thomas Jane), um homem que tudo perdeu e que apenas reteve um bem com que ganhar a vida – o seu pénis -, resolvendo assim transformar-se num prostituto masculino, pode até ter conquistado algumas pessoas na primeira temporada, devido não só ao humor negro da história mas especialmente devido à grande interpretação do protagonista, que conseguia fazer transparecer, nos momentos mais sérios, toda a tristeza e desespero pela situação em que se encontrava. Infelizmente, quem teve ainda determinação de dar, à segunda temporada, uma nova oportunidade, acaba por sair desiludido.

As qualidades que a série teve, de início, mantiveram-se: as boas interpretações da personagem principal e as mordazes tiradas da “vilã” Lenore (Rebecca Creskoff), a segunda proxeneta de Ray que procura dominar o mercado com a sua inteligência e que tantos dramas causa a Tanya (Jane Adams). Melhorou também a sua prestação Jessica (Anne Heche) que, mesmo não sendo a personagem mais interessante, conseguiu ter alguns bons momentos nos primeiros episódios mas que, infelizmente, com o avançar da temporada, foi caindo cada vez mais fundo numa crise conjugal que a levou a trair o marido actual com o ex-marido e que acabou por sugar todo e qualquer interesse que a história pudesse ter tido. Por último, Hank (Gregg Henry), o colega professor de Ray que conhecemos na primeira temporada e que pouco destaque tinha tido, acabou por proporcionar a melhor história secundária da temporada ao inadvertidamente, cair no jogo de Lenore e Tanya e transformando-se, sem saber, num prostituto a soldo, com todos os dramas que isso implica quando a verdade, finalmente, vem ao de cima.

Mas se todos estes foram pontos positivos, seguindo um pouco o que no ano anterior nos tinha sido apresentado, nada consegue compensar o desespero de ver a série, episódio atrás de episódio, a não avançar, a bater nas mesmas teclas (Ray com dificuldades em satisfazer as clientes, Lenore vs. Tanya, rewind, be kind), a cair num círculo vicioso onde nada acontece, nada se modifica, nada se transforma. Dez episódios depois, e tirando algumas mudanças a nível amoroso na vida de Ray, o que aconteceu verdadeiramente? Para que serviu a ligação à vizinha ricaça, para que serviu todo o dinheiro que ganhou, para que serviram os conselhos do proxeneta amigo de Tanya, para que serviram os maquiavélicos planos de Lenore? Para nada… Ray continua sem dinheiro, Tanya continua a ser uma das – perdão, A – personagem mais exasperante actualmente na televisão, os gémeos continuam a ser um mistério e a série – que tanto prometia – hesita em dar o salto, em escolher um caminho e segui-lo, a evoluir.

De uma série com alguns defeitos mas com grande potencial, “Hung” transformou-se numa série que nem sequer dá prazer ver. E isso, deste lado, é o último prego no caixão. Sem glória, as aventuras de Ray Drecker e companhia ficam-se por aqui.

The Wire S1

“The King stay the King”

Baltimore, Maryland. Uma cidade como tantas outras na costa leste dos Estados Unidos, Baltimore luta há anos contra o flagelo da violência, dos homicídios, da droga e da corrupção. Nesta cidade onde o crime compensa, o que começa como uma simples investigação sobre os barões da droga locais irá tornar-se numa viagem pelo submundo das grandes metrópoles, um verdadeiro documentário sobre os problemas que a sociedade moderna tenta esconder.

Contar uma boa história nem sempre é fácil: criar uma trama interessante, recheá-la de personagens marcantes, incluir reviravoltas surpreendentes que prendam o leitor até ao final coerente. Contar uma boa história implica uma grande imaginação, muita deliberação e um sentido crítico apurado para saber o que resulta ou não. Talvez por isso, e por muitas dezenas de livros que se leiam por ano, raras são aquelas histórias que sobressaem e que nos conseguem cativar. O mesmo acontece com a televisão, um meio onde se trabalha de forma mais rápida, onde a estética se sobrepõe, geralmente, à história que se pretende contar, onde se tem de lidar com um potencial público que não tem paciência para tramas intrincadas e que não quer ser obrigado a regressar, semana após semana, aos mesmos eventos. Mas por vezes, quando os astros se alinham e se deixa o autor à solta com a sua obra, conseguem-se criar algumas das melhores histórias de sempre. E foi isso que David Simon e Ed Burns tentaram fazer com “The Wire”.

Determinado a acabar com o clã Barksdale, rei e senhor do tráfico de droga em West Baltimore, o detective do Departamento de Homicídios Jimmy McNulty (Dominic West) consegue que seja criada uma pequena equipa de investigação dedicada a perseguir os traficantes da cidade. Liderada pelo tenente Cedric Daniels (Lance Reddick) do Departamento de Narcóticos, um homem com um passado obscuro e firme defensor da cadeia de comando, e contando com a ajuda dos detectives Greggs (Sonja Sohn), Herc (Domenick Lombardozzi) e Carver (Seth Gillian), a equipa irá lançar uma investigação profunda ao bando de Barksdale, mas vê-se limitada por interesses escondidos da parte dos dirigentes políticos e policiais da cidade.

Ao contrário de muitas outras séries policiais, “The Wire” não apresenta casos soltos, investigados em 40 e poucos minutos, nem grandes cenas de acção, que nos deixam prontos a saltar da cadeira, e muito menos maravilhas tecnológicas que ajudam a deslindar um caso em poucos segundos. O que descobrimos aqui é uma história continua, uma única investigação que irá ser a trama principal durante os treze episódios da primeira temporada e cujas repercussões se farão sentir até ao final; cenas de acção pura são raras, trocadas por momentos de reflexão, e quando as novas tecnologias marcam presença, ficam-se pelo substituir das máquinas de escrever pelos simples computadores. Tudo isto poderia ser prejudicial à série, mas acaba por ser aquilo que a permite distinguir-se das outras, destacar-se num terreno desbravado por grandes séries como “Homicide: Life On The Street” e “The Shield”.

Com uma estrutura muito própria, não é fácil entrar na história desta série, sendo necessários vários episódios para conseguir distinguir as (muitas) personagens, saber a que campo pertencem e quais os seus objectivos. O foco vai alternando entre as várias personagens, deixando-nos descobri-las lentamente: é assim que vemos um apagado Lester Freamon (Clarke Peters) revelar-se um dos mais inteligentes e impressionantes detectives do grupo, e que Roland “Prez” Pryzbzlewsky (Jim True-Frost) consegue deixar para trás os erros do passado. Por outro lado, ao apresentar a história também do ponto de vista dos traficantes, acrescenta-se uma intensidade diferente à história, provando mais uma vez que a antiga distinção entre bons e maus, heróis e vilões, está completamente ultrapassada. Se McNulty e Daniels são os líderes da investigação, o calculista Russel “Stringer” Bell (Idris Elba) e o chefe máximo Avon Barksdale (Wood Harris) são os grandes destaques do lado dos traficantes, dois homens que irão guiar grande parte desta história e que, graças à sua inteligência, irão provar ser inimigos à altura de qualquer equipa mais empenhada. E, no meio destes “heróis” e “vilões”, o que dizer de Omar Little (Michael K. Williams), provavelmente a melhor personagem de toda a série, o Robin Hood que rouba aos traficantes para dividir entre si e os mais pobres da comunidade, o ladrão que aterroriza as ruas ao som de músicas de embalar mas que segue um código de conduta muito próprio?

O facto de muitos eventos ocorrerem fora de cena torna-se outro obstáculo à recepção inicial desta história, obrigando a prestar muita atenção a tudo o que se passa, a guardar na memória conversas, eventos e nomes que, mais tarde (muito mais tarde), poderão vir a ser determinantes para a história. Mas se estas características muito próprias da série tornam a entrada neste universo mais complicada, acabam por revelar-se uma mais valia e surpreender aqueles que não desistem após os primeiros episódios. “The Buys” é, provavelmente, o episódio que marca essa diferença e que nos permite entrar verdadeiramente na história, identificar os “inimigos” graças a uma muito interessante alegoria naquela que é, provavelmente, a melhor cena de sempre desta série.

Porque “The Wire” se posiciona entre o documentário e a alegoria, entre o mostrar da realidade e o explorar daquilo que por detrás desta se esconde, a investigação policial revela-se apenas uma peça deste xadrez, mais uma trama entre outras que ganham tanto ou mais destaque. Esta é uma série sobre o tráfico, sobre os gangues e a sua violência que não poupa ninguém, nem mesmo os mais inocentes, que se vêem obrigados a entrar no jogo e que dele não conseguem sair como é o caso de  Bodie (J.D. Williams) e Wallace (Michael B. Jordan), representante máximo deste drama e figura essencial do momento mais marcante da primeira temporada em “Cleaning Up”. É também uma série sobre o questionar da autoridade, da importância que cada um tem no Jogo, seja ele o da criminalidade ou o da vida, tal como o faz D’Angelo (Larry Gillard Jr.), figura trágica que se encontra dividida entre a família e a consciência. Esta é uma série sobre a droga e as suas consequências devastadoras, personificadas magistralmente na personagem de Bubbles (Andre Royo), o toxicodependente e informador da polícia que representa o lado mais real da luta contra as drogas. Esta é uma reflexão sobre a fé que depositamos nas instituições que, no fundo, são altamente corruptíveis e que se defendem a si próprias, em vez de defender o indivíduo, como vemos em personagens como Rawls (John Doman), Burrell (Frankie Faison) e Clay Davis (Isiah Whitlock Jr.). Esta série é, afinal, um espelho da realidade que muitos se recusam a aceitar.

“The Game is out there, and it’s either play or get played.” Uma história complexa e interessante que nos obriga a reflectir, com uma imagem soberba, recheada de brilhantes interpretações, diálogos irrepreensíveis e cenas memoráveis, vale a pena dedicar várias horas da nossa vida a ver “The Wire”, mesmo que, por vezes, nos custe a aceitar a realidade nesta expressa. Mas quando a história é boa, vale tudo… nem que seja para descobrir Omar, Bubbles e “the Bunk” (Wendell Pierce).

Entourage S6

Entourage

“Life changes. Friends don’t”

Se há série que, ao longo dos anos, se tem revelado cada vez mais como um guilty pleasure, é “Entourage”. Esta não é a melhor série de sempre, nem de longe nem de perto. Nem sequer é uma série imperdível, daquelas que, pelas suas personagens, pela sua história ou pelos seus diálogos, traz algo de novo ao panorama televisivo. Não. “Entourage” tem sido, ao longo dos anos, aquela série leve de verão que nos permite, por momentos, escapar da nossa realidade, deixar o cérebro descansar e ver a vida (fictícia) dos ricos e famosos de Hollywood. Sem nunca tentar ser demasiado fiel à realidade, sem nunca se preocupar muito com o que é credível ou não, a verdade é que, ao longo das temporadas, “Entourage” se tem afirmado como uma das favoritas deste cantinho. Talvez por isso, depois de uma quinta temporada que desiludiu em certos pontos, as expectativas não fossem muitas. Mas se, ao longo deste sexto ano, houve alguns altos e baixos, não há dúvida que a série regressou aos bons velhos tempos.

Não sendo totalmente inédito, o salto temporal inicial de “Drive” deixa-nos de certa forma frustrados pela forma como se menospreza toda a história à volta da tábua de salvação de Vince (Adrian Grenier), o filme com Martin Scorcese. Mas rapidamente se percebe que esta acaba por ser a melhor escolha. Como a personagem mais fraca desta história, nunca nos preocupamos muito com o destino de Vince a não ser quando afecta o dos seus amigos, e por isso o facto de pouco ou nada ter feito durante todos os episódios passa-nos completamente ao lado. Entre mulheres, mulheres e mais mulheres, o dia-a-dia de Vince é apenas pano de fundo para o que se vai passando com os outros habitantes da mansão.

Se para Vince as mulheres foram o grande passatempo da temporada, para Eric (Kevin Connolly) as mulheres continuam a ser a sua perdição. As relações sucedem-se sem que nunca consiga esquecer a sua grande paixão, Sloan (Emanuelle Chriqui), deixando-nos com cada vez menos vontade de assistir ao drama da semana. Mas felizmente no final tudo parece bem encaminhado, tanto a nível do coração como do trabalho na nova agência. Já para Drama (Kevin Dillon), esta foi também uma temporada de mudanças a nível profissional, provocadas por um pequeno incidente com um dos seus chefes que poderia ter ditado o fim da carreira mas que acaba por se revelar uma grande surpresa. “Berried Alive” e “Scared Straight” são sem dúvida os pontos altos para este actor desesperado que encontra, no final, aquilo que tanto procurou. Mas porque nem tudo pode ser um mar de rosas, e ao contrário dos amigos, para Turtle (Jerry Ferrara) esta temporada termina em baixo. Sem dúvida a personagem menos explorada até aqui, foi interessante descobrir mais sobre um Turtle que, com a ajuda da nova namorada (dentro e fora do ecrã) Jamie-Lynn Sigler, evoluiu e a tentou encontrar um novo rumo. Não é de estranhar, por isso, que os episódios onde teve um papel preponderante, como “One Car, Two Car, Red Car, Blue Car” e “Give a Little Bit” fossem os melhores da temporada, e que o fim da relação nos deixasse tão tristes como Turtle. Mas porque as reviravoltas inesperadas são marca desta série, quem sabe a próxima temporada não traz consigo boas surpresas.

Entre altos e baixos, assim se fez a temporada para os quatro amigos. E porque, do outro lado, não se pode deixar de acompanhar o que se passa na mansão, pelos escritórios de Ari (Jeremy Piven) muitas foram também as reviravoltas. Farto de ser capacho, as tentativas de subir na carreira de Lloyd (Rex Lee) não correm muito bem, acabando por deixar a firma para ir trabalhar para o maior rival. Mas porque, no fim, tudo tem de correr bem nesta fantasia dos tempos modernos, o regresso do filho pródigo à casa que o viu partir traz consigo não apenas uma das melhores cenas de sempre da série – a marcha da vitória (e da vingança) de Ari pelos corredores da sua antiga empresa – mas também a reconciliação com aquele que, quer queira quer não, se tornou já um amigo indispensável.

Com histórias hilariantes, evolução das personagens, grandes risadas e algumas lágrimas, assim se fez esta sexta temporada que, não sendo a melhor, deixa a fasquia bem alta para o próximo verão.

Hung S1

hung03
Sonhos de infância. Todos tivemos os nossos. Ser bailarina ou escritor, professora ou jogador de futebol, astronauta ou polícia. Uns mais extravagantes, outros mais simples, os sonhos de infância são momentos preciosos para o nosso crescimento, quando julgávamos ainda ser capazes de tudo. Mas, infelizmente, os sonhos de criança raramente se concretizam. A bailarina descobre que não consegue dançar, o jogador de futebol que não consegue rematar, o escritor que não é virado para as artes e o astronauta que, afinal, o espaço está mais longe do que pensava. À medida que os anos passam e que a realidade se sobrepõe aos sonhos, é preciso parar para pensar e escolher um novo caminho.

Para Ray Drecker (Thomas Jane), este é o momento para pensar. O que começou como uma carreira promissora como jogador de basebol transformou-se, graças a uma lesão que o afastou definitivamente dos campos, num emprego como professor de ginástica e de história num liceu local, posto em risco com a recessão e os cortes orçamentais. A mulher, antiga namorada do liceu, deixa-o por um homem mais rico. Os filhos adolescentes não são motivo de grande orgulho. E, a gota de água… a sua casa é completamente destruída num incêndio, deixando-o sem nada e obrigando-o a viver numa tenda no meio do pátio.

Sem dinheiro, sem família e sem saber para onde se virar, Ray encontra-se num ponto de viragem. E um reencontro fortuito numa sessão de auto-ajuda é aquilo que precisa para dar um novo rumo à sua vida, servindo-se, para isso, da sua única mais valia – o seu pénis. Daí à decisão de se transformar num prostituto masculino é um saltinho… isto é, se tanto ele como a sua proxeneta Tanya (Jane Adams) tivessem alguma queda para o negócio.

Uma história como esta, sobre um homem bem apetrechado que decide transformar-se num prostituto masculino, só poderia mesmo encontrar casa na HBO, poiso habitual das séries mais peculiares. E, como tudo o que desta estação sai, “Hung” é uma série interessante. A premissa intrigante é complementada pelas grandes interpretações dos actores que compõem o elenco, destacando-se naturalmente Thomas Jane, que consegue surpreender-nos não só pelo seu físico invejável, mas também pelas múltiplas dimensões que consegue dar a uma personagem que poderia, facilmente, cair no estereótipo. Ray é um homem desiludido, que se dedica a esta profissão por puro desespero de causa e que, por isso mesmo, nunca se sente bem no seu papel. É um homem que nunca conseguiu encontrar o seu lugar e que ainda sofre as consequências desse facto. Ray é o homem que nos faz rir com as situações mais ridículas mas que, por vezes, com as suas sinceras admissões, nos consegue comover. Já Tanya, com todas as suas peculiaridades, pode nunca nos consegue conquistar da mesma maneira, mas a forma como nunca deixa de tentar, com todas as suas forças, vingar, ajuda-nos a melhor a compreender.

Se a premissa e as boas interpretações são, sem dúvida, o ponto alto desta série, já o desenrolar da história torna-se o seu ponto mais fraco. Dez episódios podem não ser muito para contar uma história, mas a forma como esta temporada anda devagar, devagarinho, quase a passo de caracol, revela-se fatigante. Dez episódios depois de começar, pouco se avançou na história: Ray continua relutante, Tanya continua a ter problemas em afirmar-se, e as relações contratuais entre os dois poderão vir a mudar irremediavelmente graças à pressão de Lenore (Rebecca Creskoff). Aliando a isso a aborrecida presença de Jessica Haxon (Anne Heche), ex-mulher de Ray, cuja vida parece também ser tudo menos perfeita, pouco mais podemos dizer sobre esta primeira temporada. Mas porque, por vezes, a primeira temporada serve para criar os alicerces de algo mais que poderá ainda vir, dá-se um desconto. Esta história e estas personagens podem, nem sempre, nos ter convencido. Mas por estas bandas, continua a ser uma boa aposta, e marcará certamente presença entre as eleitas do próximo verão.

True Blood S1

true-bloo2

“There’s vampire in your cleavage. Here, let me get that for you”

Bon Temps, Louisiana. Numa pequena cidade sulista recheada de campónios, uma série de assassinatos agita toda a comunidade. Jovens mulheres, belas e de reputação duvidosa, são encontradas brutalmente assassinadas, causando o pânico e a desconfiança entre os habitantes. Poderá o assassino ser um dos membros da comunidade, um qualquer familiar ou amigo de longa data? Ou poderá tudo isto estar relacionado com as surpreendentes revelações que trouxeram à luz do dia um segredo há muito escondido?

Assim começa “True Blood”, a última obra prima de Alan Ball que, depois do brilhante “Six Feet Under”, resolveu dedicar-se novamente a explorar o ser humano na sua condição mais básica, servindo-se para isso do sobrenatural. Baseada na obra de Charlaine Harris “The Southern Vampire Mysteries”, “True Blood” é uma fusão de policial, mistério, drama, comédia, humor negro e sobrenatural que consegue superar as barreiras dos géneros e conquistar todos aqueles que lhe dão uma hipótese.

Sookie Stackhouse (Anna Paquin) podia ser uma rapariga como outra qualquer. Empregada de balcão no bar da cidade, vive com a avó que a criou e passa os dias a tentar pôr algum senso na cabeça do irmão Jason (Ryan Kwanten). Mas tudo muda no dia em que um misterioso homem chega à cidade, pondo a comunidade no centro de um problema racial. Com a descoberta de um substituto para o sangue humano, os vampiros revelam-se ao mundo inteiro e procuram encontrar o seu lugar. Para Bill Compton (Stephen Moyer) isso significa regressar à sua cidade natal, onde vai despertar todos os ânimos, especialmente os de Sookie e de Sam Merlotte (Sam Trammell), dono do bar com uma paixão não correspondida por Sookie e um segredo surpreendente na sua manga.

Sexo, romance e sangue, muito sangue, é o que nos prometem de início, e não enganam… mas “True Blood” é muito mais do que apenas isso. Se o obrigatório romance entre Sookie e Bill parece, de certa forma, estranho, enfadonho e apressado demais, como reclama (e muito bem) Tara (Rutina Wesley), a melhor amiga de Sookie, revela-se no entanto indispensável para ver como a pequena comunidade lida com aquilo que é diferente.

Numa época em que os vampiros estão na moda, para o bem e para o mal, o universo aqui criado consegue surpreender-nos pela forma como se aproxima do nosso, como tenta, no meio da fantasia, fazer-nos confrontar os nossos próprios preconceitos e aceitar uma realidade menos desejada. Para isso, o local escolhido não podia ter sido outro: a cidade de Bons Temps está recheada de personagens curiosas que nos deixam a rir a bandeiras despregadas com as suas posições caricatas mas que, ao mesmo tempo, se revelam um reflexo (exagerado) do que podemos encontrar dentro de todos nós. Terry (Todd Lowe), o veterano que guarda ainda os pesadelos da guerra do Iraque, Arlene (Carrie Preston), a empregada do bar que tenta arranjar um novo pai para os filhos, Hoyt (Jim Parrack), o menino da mamã, Andy (Chris Bauer), o detective pouco competente, todas estas personagens secundárias dão um colorido diferente à série e revelam-se peças essenciais para o sucesso da mesma, especialmente Lafayette (Nelsan Ellis), que nos conquista em cada cena em que aparece. Mas porque esta é uma série de vampiros, do outro lado do espectro encontramos também personagens marcantes. Bill é o vampiro amigo, que se apaixona por uma humana e que tenta ajudar todos os que pode, para o bem e para o mal, enquanto que para Eric (Alexander Skarsgard), xerife responsável pelo condado, e os seus comparsas do bar Fangtasia, os humanos são apenas alimento muito necessário. Mas porque em “True Blood”, tal como na vida, nem tudo é o que parece, as suas aliaças poderão vir a mudar com o tempo, e as verdadeiras intenções por detrás de cada gesto prometem trazer grandes surpresas.

Imperdível para fãs de boas histórias, grandes interpretações, humor negro e um pouco de gore, a primeira temporada de “True Blood” pode não nos conquistar à primeira, mas chegados ao grito final, é difícil deixar de se sentir enfeitiçado.