Human Target S2


Em todas as relações há aquela fase a que em inglês se chama “the honeymoon period”, um estado de graça, quando tudo parece bem, a cara-metade é a pessoa mais perfeita à face da terra e tudo o que faz é motivo de regozijo. O problema, no entanto, é quando essa fase passa, a realidade se sobrepõe à ilusão e os problemas do dia-a-dia começam a pesar.

Na ficção, tal como na realidade, não é difícil encontrar exemplos de séries onde, passado a fase de enamoramento, a realidade provou ser outra, mas há muito tempo que não o via acontecer de maneira tão brutal como na segunda temporada “Human Target“. Nunca tendo sido a melhor série à face da terra, era no mínimo competente naquilo a que se propunha: apresentar as aventuras de Christopher Chase (Mark Valley), um camaleão guarda-costas e especialista em segurança, que procura ajudar os seus clientes a saírem de situações perigosas com a ajuda de Winston (Chi McBride), o polícia que o pôs ao  serviço do bem, e de Guerrero (Jackie Earle Haley), um antigo inimigo que usa agora o sarcasmo a serviço do bem. Divertida, recheada de grandes momentos de acção, complementada por uma banda sonora magnífica e trazendo uma certa nostalgia das séries de acção dos anos 80, conseguiu conquistar o seu lugar entre as estreias de 2010. E quando se despediu na primavera, com um excelente “Christopher Chance“, teve ainda a oportunidade de abrir caminho a uma trama maior que poderia elevar a série de mero divertimento descomprometido a algo que valesse a pena manter debaixo de olho. O problema, no entanto, foi quando a realidade se imiscuiu na ficção, e retirou à série tudo o que tinha de bom.

O criador é afastado, arranjam-se duas gajas jeitosas metidas à pressão na história para “cativar a audiência feminina” (provando que os executivos da FOX, de mulheres, não percebem absolutamente nada), altera-se a banda sonora para a “popalhada” do costume e transforma-se, desta maneira, uma série que tinha um espírito muito próprio, num clone de tantas outras, com a agravante de se revelar, simplesmente, uma série fraca. Se a rapidez com que o clímax da primeira temporada foi resolvido em “Ilsa Pucci” pareceu estranha, e mais estranha ainda é a forma como, quase sem se dar por isso, se dá início à nova fase da série, onde Ilsa, interpretada pela britânica Indira Varma, passa de cliente a chefe deste grupo, a verdade é que nada nos faria adivinhar que a série pudesse vir a bater tão fundo como aconteceu, por exemplo na ridícula viagem aos subúrbios de “The Other Side of the Mall“, ou o ainda mais absurdo casamento de Ames (Janet Montgomery), ex-ladra e gaja boa número dois ao serviço do grupo, em “Kill Bob“. Pior, deixa-se de lado a trama que tinha vindo a ser desenvolvida na recta final da primeira temporada, sobre o passado de Chase e o que fez mudar para o lado do bem, para arranjar uma historiazeca qualquer sobre o marido de Ilsa, um ricaço que era infiel mas que, afinal, depois já não era infiel e tinha sacrificado a sua vida em prol da mulher, que entretanto se começa a apaixonar por Chase e… bom, qualquer coisa deste estilo, que nem vale a pena referir novamente de tão desinteressante que é. Basta dizer simplesmente que toda a magia, toda a alma desta série, constituída pelas trocas entre o trio principal, e que apenas em “The Return of Baptiste” deu algum sinal de vida, se perdeu irremediavelmente, sobrando em vez disso apenas uma série má, com um Winston conselheiro matrimonial, um Guerrero praticamente ausente e um fecho de temporada com uma tentativa de remake dos minutos finais de “The Bodyguard” que só dá vómitos.

“Human Target” está morta e enterrada. Pelo menos deste lado.

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Human Target S1

There’s a woman who cares enough about your life to hire me.
I made her a promise and I intend to keep it.

Para todos os que viveram os gloriosos anos 80, não há como não ficar com um sorriso nos lábios ao ouvir os primeiros acordes das clássicas séries de acção dessa época: das engenhocas de “MacGyver” aos descapotáveis deslumbrantes de “Miami Vice”, das dezenas de explosões de “The A-Team” às luzes intermitentes de “Knight Rider”, muitas foram as horas que passámos em frente à televisão, a seguir atentamente as aventuras dos nossos heróis favoritos. Mas, como em tudo na vida, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e os clássicos heróis, embora nunca tenham chegado a desaparecer totalmente, foram perdendo o seu lugar nas nossas televisões. Felizmente, no meio desta onda de remakes, reimaginações e sequelas que parece ter dominado os últimos anos, conseguem ainda encontrar-se algumas surpresas. E “Human Target” foi sem dúvida uma das melhores surpresas da temporada.

“If you have a problem, if no-one else can help you, and if you can find him, you can hire… the Human Target.” Liberdades televisivas à parte, Christopher Chance (Mark Valley) é um misterioso guarda-costas e especialista em segurança, pau para toda a obra, cuja principal tarefa é resgatar os seus clientes de dilemas que parecem impossíveis de resolver. Sejam ataques directos ou perseguições pela calada, em terra, no ar ou no mar, Christopher Chance é o homem que nunca recusa uma missão. A seu lado, a apoiá-lo em todos os momentos, o ex-detective Winston (Chi McBride) procura ser a voz da razão, mas é frequentemente ignorado ou, pior ainda, desautorizado por Guerrero (Jackie Earle Haley), um perigoso e misterioso técnico de computadores que poderá (ou não) ter ligações ao passado que Chance tenta esconder.

Conjugando, todas as semanas, uma forte dose de adrenalina que pode, por vezes, ser um pouco ridícula, como durante um peculiar voo de pernas para o ar em “Rewind“, mas que nunca deixa de nos chamar a atenção, cenas de luta impecáveis, graças em grande parte à experiência pessoal de Mark Valley, personagens interessantes, diálogos espectaculares, especialmente nos momentos em que Winston e Guerrero se digladiam verbalmente, e uma banda sonora irrepreensível da parte do grande favorito desta casa, Bear McCreary, que se evidencia em cenas tão singelas como uma luta/tango em “Embassy Row“, “Human Target” pode não ser a série mais complexa da temporada, pode brincar com os estereótipos do género de acção e aventura, com as suas explosões, adrenalida constante e (muitas) mulheres fantásticas ao virar de cada esquina, mas garante, a todos os que lhe dão uma hipótese, quarenta minutos muito bem passados. E se os doze episódios que constituem a primeira temporada não chegaram ainda para cansar da fórmula típica dos episódios, a promessa de revelar mais sobre o passado de todas estas personagens, como visto em “Baptiste” e “Christopher Chance” é razão mais do que suficiente para aguardar, com expectativa, as novas aventuras deste trio.

Flashforward


As expectativas são uma coisa lixada. Seja no cinema, nos livros, na banda desenhada ou na televisão, é quase impossível não ter expectativas relativamente a uma estreia, devido em grande parte à forma como a internet dissemina a informação mais depressa do que conseguimos (ou gostaríamos) de assimilar. Quando se trata da televisão, então, torna-se tudo ainda mais complicado, uma vez que a dependência da aceitação junto do público como forma de garantir a estabilidade de uma história continua a ser a regra, especialmente do lado de lá do oceano. Assim, não é de estranhar que ao aliar uma premissa interessante baseada numa obra conceituada, um elenco bem conhecido do público, produtores famosos e uma grande vontade de equiparar esta nova série a outros sucessos prestes a desaparecer, se tivesse formado um mega-hype à volta de “Flashforward“.

No dia 24 de Setembro de 2009, estreia a série “Flashfoward” na ABC, que conta a história de evento misterioso que faz toda a gente ter uma visão do seu próprio futuro, causando o pânico e a morte um pouco por todo o mundo. O que é esse evento misterioso, quem foi o misterioso responsável por ele, qual o mistério por detrás das visões que alguns tiveram e que outros, misteriosamente, não tiveram, quem é a figura misteriosa que, misteriosamente, ficou acordada durante o evento, e de onde surgiu o misterioso canguru são algumas das perguntas a que Mark Benford (Joseph Fiennes), extraordinário agente do FBI, vai ter de responder. Com a ajuda do seu parceiro Demetri Noh (John Cho) e da colega Janis (Christine Woods), vai então tentar desvendar este grande mistério e, quem sabe, tentar impedir que o futuro menos do que perfeito que viu se concretize.

Com tantos mistérios para resolver, e uma premissa por demais intrigante – afinal, será ou não possível alterar o futuro? Será que as nossas acções irão ter algum impacto e mudar aquilo que vimos ou, como defendem alguns, apenas criar uma espécie de futuro alternativo? – havia aqui muito pano com que trabalhar. Juntando a isso uns cliffhangers interessantes que a série fez questão de nos apresentar no final dos primeiros episódios, e era quase impossível não aderir ao burburinho.

No dia 27 de Maio de 2010, trezentos dias depois da grande estreia, o que resultou então de todo este hype, de todas estas especulações? Um segundo evento, em tudo igual ao primeiro (se bem que, desta vez, já não inesperado), mais visões de um possível futuro e… the end. Sim, é certo, a série foi cancelada quando o final da primeira temporada já tinha sido filmado, não havendo qualquer hipótese de dar uma explicação sobre os mistérios levantados ao longo da temporada. Sim, é certo que os produtores tinham pensado em cinco temporadas e que, por isso, é natural que a primeira fosse a temporada de apresentar personagens e de expor os mistérios que, num mundo ideal, iriam ser desenvolvidos ao longo dos anos. Sim, nós sabemos tudo isto. Mas isso não significa, no entanto, que aceitemos de qualquer maneira as grandes asneiras que a série foi fazendo ao longo da temporada e que culminaram neste cancelamento.

O que correu mal? Tudo! Personagens fracas que apenas se destacavam pela total incompetência que exibiam (o supra mencionado Mark) ou pela total inutilidade, como no caso da Penny de Lost Olivia Benford (Sonya Walger), que passou meia temporada a fazer olhinhos de carneiro mal morto e a tentar não trair o marido para, no final, se atirar a Jack de Coupling Lloyd Simcoe (Jack Davenport), o homem acusado de causar o evento, juntamente com o seu misterioso parceiro hobbit de Lord of the Rings Simon Campos (Dominic Monaghan), mas que afinal não foram os causadores do evento porque foi uma outra qualquer pessoa misteriosa que afinal morre antes de revelar que não era ele o lobo mau mas sim um outro que quando é capturado revela que ainda não era ele o lobo mau chefe mas sim outro e… Bom, foi qualquer coisa assim parecida, ninguém percebeu muito bem a história cheia de voltas e de reviravoltas e de tramas secundárias completamente indescritíveis, como a do médico que se ia suicidar mas que afinal já não o vai fazer porque teve uma visão da sua julieta e tem de ir até ao Japão à procura dela; isso e, é claro, a história do amigo do Mark, o homem das barbas que está sempre a chorar pela filha que morreu mas que afinal já não está morta, mas que é raptada e o pai vai para o Afeganistão à procura dela mas chega tarde porque ela morre mas depois, mesmo antes da série acabar – ou, se quiserem, trinta segundos depois de nos terem dito que está morta – descobre que afinal ela ainda estava a respirar e, por isso mesmo, ainda estava viva e… Confusos? Também eu… e acabei de descrever basicamente apenas o início e o final da série. Resta saber o que andaram a fazer nos restantes episódios!

Como dizia ali atrás, as personagens eram fracas, os diálogos piores ainda, e as tramas tão embrulhadas, mas tão embrulhadas, que nem mesmo um chinês teria paciência para tentar encontrar o fio à meada. As grandes questões – Poderá o futuro ser alterado? Quem criou o evento? O que é o evento? – essas, ficaram por explicar. Pois se nem sequer nos disseram o que significa o raio do canguru…

Trezentos dias depois do evento que deu origem a este “Flashforward”, o que sobrou para os espectadores foi uma mega-desilusão e a certeza de que se as expectativas elevadas tiveram alguma influência no nosso desagrado, foi sem sombra de dúvidas a direcção (ou falta dela) da história e das suas personagens que selou o destino a esta experiência. Lição aprendida, mais vale tentarmos, para a próxima, ignorar as expectativas que se estão a formar porque, como já deu para ver, a coisa vai, muito provavelmente, dar para o torto.

Heroes S4

Nada custa mais do que ver a morte inglória de algo que nos agrada, que nos deixa intrigados. Nada custa mais do que ver o desperdício desnecessário de algo que tinha potencialidades. Nada custa mais do que ver o poço fundo onde uma história consegue cair. Mas por muito que nos custe, chega o momento em que é preciso dizer “Basta!”. E esse momento chegou com o final da quarta temporada de “Heroes”.

Palavras para quê? Não há alegoria com a banda desenhada que consiga explicar aquilo em que esta série se tornou. Uma lufada de ar fresco no seu ano de estreia, trazendo finalmente da melhor forma para o pequeno ecrã a nona arte, contando com actores competentes, um orçamento decente e histórias intrigantes, quatro anos depois é impossível arranjar mais desculpas para o descalabro que se vê, semana após semana, na televisão.

Sem qualquer tipo de redenção, como nos prometia o título do quinto volume, o que encontramos ao longo dos longos, muito longos dezanove episódios que constituem esta quarta temporada, é mais do mesmo. Mais histórias embrulhadas, mais personagens adicionadas à pressão que não acrescentam nada à história, mais mortes efémeras, mais mudanças inexplicáveis de lado a cada dois ou três episódios, mais mistérios e promessas que, no final, não resultam em nada. Todo o ambiente do Carnival tinha potencialidades, e personagens como o misterioso Samuel (Robert Knepper) e a mulher das tatuagens Lydia (Dawn Olivieri) poderiam ter-nos conquistado, não fosse o facto de as suas histórias se perderem no meio de uma trama que nunca se conseguiu afirmar.

Do lado dos “heróis”, a confusão deixada pelo final do volume quatro não augurava nada de bom, mas certamente ninguém esperava que o caso Nathan/Sylar conseguisse bater tão fundo, deixando não só os actores Adrian Pasdar e Zachary Quinto à deriva, mas destruindo de tal forma o nosso interesse pela história, que nem uma morte mais do que anunciada conseguiu ter qualquer tipo de impacto. Juntando a isso o deambular do resto dos Petrelli pela história, especialmente de Peter (Milo Ventimiglia), que parece ter perdido a temporada inteira atrás de Emma (Deanne Bray) não se sabe bem porquê, a curiosa passagem de Claire (Hayden Pannetiere) pela Universidade, que se resumiu a praxes estranhas, uma suposta relação semi-lésbica com a colega de quarto Gretchen (Madeline Zima) e demasiadas conversas melosas com o papá Bennet (Jack Coleman), e a absolutamente inacreditável trama da doença fatal de Hiro (Masi Oka), que não tem qualquer tipo de justificação, temos a receita para o desastre.

Nada pior existe do que uma morte inglória. Nada pior é do que admitir derrota. Mas há que admitir que “Heroes” já não tem redenção possível.
 

Stargate SG-1 S4

stargate4
Lose it. It means, go crazy… nuts… insane… bonzo… no longer in possessions of one’s faculties… three fries short of a Happy Meal… WACKO!!

Trama principal intrigante. Histórias secundárias interessantes. Atenção à continuidade. Evolução das personagens. Acção e aventura. Humor. Ficção científica. Separadas, encontramos estas características em muitas séries, mas quando as conjugamos, é a quarta temporada de “Stargate SG-1” que descobrimos.

Continuando a curva ascendente que trazia da temporada anterior, os vinte e dois episódios que constituem o quarto ano de “Stargate SG-1” revelam uma série que encontrou o seu caminho e que o soube explorar da melhor maneira. Com a guerra contra os Goa’uld sempre presente, é no entanto o aparecimento de um novo e formidável inimigo que irá lançar a temporada. Os Replicators, máquinas que se auto-copiam e que nem mesmo os poderosos Asgard conseguem derrotar, continuam a espalhar-se pela galáxia, ameaçando não só os aliados dos Tau’ri, mas também o próprio planeta Terra. Se os primeiros confrontos em “Nemesis” e “Small Victories” provam ser difíceis, é com a batalha contra Apophis em “Exodus” que os Replicators se assumem como o próximo inimigo a abater.

Entre dois grandes inimigos, e com alguma dificuldade em manter relações cordiais com os mais próximos aliados, os Tok’ra, o Comando de Stargate vê-se confrontado com muitos dilemas por essa galáxia fora, mas é também dentro da sua própria casa que o perigo se encontra à espreita. Com os russos a pressionar em “Watergate” e o NID sempre à espreita em “Chain Reaction” não há descanso para a equipa, mas pelo menos o bom humor fica garantido graças à sempre hilariante presença do Coronel Maybourne (Tom McBeath).

Numa temporada que se apoia cada vez em histórias passadas e personagens recorrentes e que consegue criar episódios memoráveis como “2010” e “Window of Opportunity”, é também aqui que se confirma a evolução das personagens e dos actores que os interpretam. Para o Coronel O’Neill (Richard Dean Anderson) e a Major Carter (Amanda Tapping), esta é a temporada da linha ténue entre os sentimentos pessoais e as regras militares, com admissões sentidas que deixam marcas profundas e que têm o seu expoente máximo em “Divide and Conquer”, “Beneath the Surface” e “Entity”. Depois dos desgostos que sofreu, Daniel Jackson (Michael Shanks) encontra-se mais seguro de si e do seu papel na equipa, pondo à frente de tudo o seu trabalho – de linguista, arqueólogo, mas também de compasso moral da equipa- , mas os Goa’uld parecem querer roubar-lhe todos os entes queridos, como se verifica em “The Curse”. Quanto a Teal’c (Christopher Judge), a vitória só chegará quando o seu povo estiver livre da escravidão, e as razões para lutar aumentam exponencialmente com a resolução de “Crossroads”, despoletando uma crise que poderá prolongar-se por muito tempo. Mas porque esta é e será sempre uma história dedicada a uma equipa, os problemas individuais e os ocasionais atritos serão sempre ser superados graças à amizade que os une, e que se estende também ao General Hammond (Don S. Davis), à Dra. Frasier ( Teryl Rothery) e a Jacob (Carmen Argenciano)

Vinte e dois episódios recheados de histórias intrigantes, personagens principais e secundárias marcantes, e muito humor fazem desta a melhor temporada de “Stargate SG-1”, e deixam a promessa de muitas outras aventuras para os anos que seguirão. Deste lado, já teve direito a uma prateleira especial dedicada às suas aventuras.

Terminator: The Sarah Connor Chronicles S2

terminator

If I had my way I would burn this building down

O que fazer quando se escreve uma série de ficção científica comjuma produção cara, que passa a um dia inconveniente numa estação de televisão famosa pela sua pouca paciência? Certamente não o que Josh Friedman fez nesta segunda temporada de “Terminator: the Sarah Connor Chronicles”.

Depois de uma primeira temporada pequena mas bem conseguida, onde se estabeleceu o universo derivado dos filmes e se defrontaram os principais opositores, a segunda temporada desta série tinha agora a oportunidade de desenvolver ainda mais as tramas apresentadas, resolvendo alguns mistérios e lançando novas histórias outros que permitissem à série conquistar mais espectadores. E foi exactamente isso que a primeira metade da temporada nos apresentou. Ao som da magnífico “Samson & Delilah”, resolvem-se os conflitos deixados em aberto em “What He Beheld”, e ganha-se uma nova inimiga na pele de Cameron (Summer Glau), que parece disposta a trair tudo aquilo para que foi programada para destruir John Connor (Thomas Dekker). Ao mesmo tempo, descobre-se uma potencial inimiga na pele da misteriosa Catherine Weaver (Shirley Manson, que se estreia assim na televisão), uma T-1001 com um plano secreto que irá arrastar James Ellison (Richard T. Jones) ainda mais para esta história.

Com a ameaça de Cromartie (Garret Dillahunt) sempre presente, o mistério de Weaver e da ZeiraCorp e a constante tensão entre a família improvisada de Sarah (Lena Headey), John, Cameron e Derek (Brian Austin Green), a segunda temporada desta série tinha tudo para vingar. Infelizmente, o que se viu foi uma incapacidade para aproveitar o tempo que restava para criar uma história consistente com um rumo definido que fizesse os telespectadores regressarem semana após semana. Se a conclusão da história de Cromartie resultou num dos melhores episódios da temporada em “Mr. Fergunson Is Ill Today”, oferecendo-nos uma brilhante cena na igreja, complementada pela sempre presente banda sonora de Bear McCreary, a aposta em episódios soltos, sem grande consequência para a trama principal, em personagens secundárias sem interesse de maior, como Riley (Leven Rambin) e Jesse (Stephanie Jacobsen), que apenas nos intrigavam pela aparente facilidade com que se viaja no tempo nesta série, e a aparente falta de ligação de Weaver e Ellison a Sarah e John, tornaram a segunda temporada, especialmente a segunda metade, numa séria desilusão. Mais do que descobrir os três símbolos, ou acompanhar a vizinha do lado nas idas ao médico ou mesmo ver as brincadeiras da pequena Weaver com John Henry, o que gostaríamos era de saber qual o papel de Weaver nesta história, qual o destino dos Terminators, e qual o papel reservado a todas as personagens num futuro que poderá, ou não, ter sido alterado.

Ressentindo-se deste desfasamento da acção, não é de estranhar que a série tenha sido uma das vítimas da temporada, provando mais uma vez a pouca paciência da FOX. Infelizmente, ao fazê-lo fica em aberto aquele que poderia ter sido o momento da série, quando em “Born To Run”, John salta para o futuro para salvar Cameron, e descobre que chegou a um mundo alternativo, onde tanto o pai como o tio estão vivos e onde ele nunca existiu.

Sem uma resolução concreta, para a posteridade ficam as boas interpretações de Summer Glau, Lena Headey e Brian Austin Green, e a certeza que este universo continua a fascinar.

Heroes S3

Heroes 3

Fénix. Uma criatura mitológica que renasce das suas próprias cinzas. Uma das mais queridas figuras da banda desenhada norte-americana, a Fénix representa também o poder de superar os obstáculos e conseguir reinventar-se. Nada menos do que isso era o que esperávamos da terceira temporada de “Heroes”, depois da desilusão que foi o segundo volume, “Generations”. Esperava-se que a trama passasse a ter um rumo definido, que as personagens escolhessem um lado e o mantivessem por mais do que um episódio, que os mistérios que desde o início nos intrigavam fossem explicados, e que a série recuperasse o encanto inicial. Mal sabíamos nós em que nos estávamos a meter.

Ominosamente intitulado “Villains”, o terceiro volume desta série pretendia explorar o lado mais negro das personagens, dar-nos uma visão do que seria o mundo controlado por eles. É assim que descobrimos a verdade sobre a tentativa de assassinato a Nathan (Adrian Pasdar), que vemos mais um futuro alternativo que terá de ser evitado, e que assistimos à reunião dos elementos deste xadrez. De um lado, Mohinder (Sendhil Ramamurthy), Nathan, Nikki/Jessica/Tracy (Ali Larter), Elle (Kristen Bell) e Sylar (Zachary Quinto), guiados pelo renascido Arthur Petrelli (Robert Forster), o misterioso patriarca da família que parece ter vindo a puxar todos os cordelinhos desta história. Do outro lado, guiados pelas visões de Angela Petrelli (Cristine Rose), Peter (Milo Ventimiglia), Claire (Hayden Panettiere), Daphne (Brea Grant), Parkman (Greg Grunberg), Hiro (Masi Oka) e Bennet (Jack Coleman). Os dois campos encontram-se no momento mais aguardado destas três longas temporadas, o eclipse que tanto deu que falar, para no final… não acontecer nada. Toda a trama da fórmula milagrosa que daria poderes a todos os humanos termina sem nenhuma resolução, e todo o impacto que “The Eclipse” poderia trazer foi, mais uma vez, desperdiçado, assistindo-se ao regresso ao status quo inicial.

Num capítulo onde tudo aconteceu a velocidades que fazem inveja a Daphne, em que as personagens mudaram de alianças e de lado tantas vezes quantas mudaram de roupa, passando de bons para maus para bons em questão de meros episódios, e em que a história se revelou ainda mais embrulhada do que antes, houve, mesmo assim, alguns momentos interessantes, como o destino da mãe biológica de Claire em “Dual”, a roleta russa do Puppet Master em “Dying of the Light”, ou a sentida despedida de Hiro da sua mãe em “Our Father”, mas o peso das múltiplas linhas de argumento que não levam a lado nenhum e que destroem o trabalho para trás já realizado fez-se sentir, ilustrando a falta de direcção que a série tem desde o início da segunda temporada.

Despedidos alguns escritores, e prevendo-se já o regresso de um dos antigos responsáveis pelo sucesso da série, o início do quarto volume, “Fugitives” almeja fazer esquecer todos os problemas e dar um novo propósito à série, e a verdade é que a “A Clear and Present Danger” consegue dar-nos um pouco daquilo que a série tanto precisava: uma direcção mais concreta, mais acção e novas personagens interessantes, como The Hunter (Željko Ivanek). Nesta homenagem à X-Tinction Agenda, Nathan (novamente do lado do mal) alia-se ao governo americano para livrar a América dos mutantes heróis, obrigando-os a sofrer (e, em alguns casos, mesmo a morrer) para conseguirem escapar das garras dos seus captores. Quanto a Sylar, este prefere deambular livremente pelos Estados Unidos fora, à procura das suas verdadeiras raízes e de uma vingança há muito sonhada do pai biológico que o abandonou.

Se a história começa bem, e o destino de algumas personagens, como Micah (Noah Gray-Cabey) em “Cold Snap” nos deixa bem impressionados, o problema de sempre mantém-se: reviravoltas confusas, mudanças de aliança inexplicáveis, reaparecimentos inacreditáveis e ret-cons que deixam qualquer fã de continuidade de cabelos em pé. Por muito interessante que “1961” seja, mostrando-nos um pouco do passado da Companhia e dos seus principais elementos, torna-se dispensável no meio de uma história que não se sabe bem para onde caminha, e apresenta tantos erros de continuidade que nem mesmo a pequena atenção ao roubos de Angela Petrelli na primeira temporada nos deixa descansar sabendo que a série está em boas mãos. Entre histórias desperdiçadas (como a supra-mencionada X-Tinction Agenda), desperdiçáveis (dois japoneses e um bebé) e completamente inacreditáveis, como a resolução de “An Invisible Thread”, o volume quatro, melhor do que o terceiro, continua a cair nos mesmos erros.

Ao contrário da Fénix, que renasceu das cinzas, “Heroes” mostra-se cada vez mais incapaz de sair da sua espiral descendente, deixando-nos com receio do que poderá chegar na quarta temporada.