Brothers & Sisters S1

Há coisas estranhas na televisão americana. Brothers & Sisters não é uma série brilhante. Longe disso: tem uma história banal e cheia de clichés, interpretações medianas por parte de um elenco de luxo, situações que chegam a ser ridículas de tão exageradas. E, no entanto, foi uma das séries de maior sucesso da época passada nos EUA, reconhecida com uma nomeação para os Emmys e vencendo numa das principais categorias. Tudo isto para uma série que é, em essência, uma telenovela. Estranho.

O regresso da filha pródiga é marcado pela consternação com a morte inesperada do patriarca da família Walker, William (Tom Skerrit), mas a montanha russa de emoções e dilemas começa verdadeiramente quando segredos são revelados, obrigando a família a unir-se para os conseguir superar.

Enquanto fã de histórias sobre famílias disfuncionais, há qualquer coisa no clã Walker que não me convence. Os meses retratados na primeira temporada são bastante duros: a família tem de lidar com a morte, a traição, os segredos escondidos, os problemas financeiros, as personalidades incompatíveis, os ciúmes, o desabar de antigas relações e o despertar de outras, a guerra, os problemas de saúde, o álcool, a droga, a reabilitação… sem esquecer, é claro, os malditos Jones que lhes continuam a ganhar aos pontos em Game Night. E, no entanto, continua irritantemente unida. Talvez seja a minha costela cínica, mas a forma como a família lida com os problemas, como aceita tudo o que lhe acontece (e acontece-lhes de tudo!), não me parece credível. Afinal, em que realidade, a não ser esta da ficção, se acolheria uma amante (Patricia Wettig) e a sua filha ilegítima (Emily VanCamp)?

Brothers & Sisters é um daqueles casos em que o elenco se torna mais interessante do que a história apresentada. Infelizmente, quando há um elenco tão grande quanto este, torna-se difícil dar a todos a oportunidade de brilharem como deveriam. Ao longo dos episódios as várias personagens tiveram os seus momentos, mas no final fica-se com a sensação de que não passou de um conjunto de histórias algo desconexas, sem direcção óbvia.

Quem viu Rachel Griffiths em Six Feet Under sabe que consegue muito mais do que aqui fez, e se na primeira metade da temporada mostrou algum do seu potencial, lidando com os problemas financeiros da empresa e com a traição do próprio pai, na segunda metade apagou-se em dilemas amorosos, já batidos em tantas outras séries, e que acabam por não ter grande impacto para a história comum. Os irmãos Kevin (Matthew Rhys), Tommy (Balthazar Getty) e Justin (Dave Annable) não têm melhor sorte, com os dois primeiros a serem frequentemente ignorados e/ou estereotipados, enquanto o terceiro não sai da cepa torta. Já a mãe, interpretada por Sally Field, teve imensas oportunidades para brilhar, e até mostrou, em alguns momentos, merecer o emmy que lhe foi (injustamente) galardoado, mas acaba por ter uma prestação inconsistente e, frequentemente, irritante demais. A verdadeira Nora Walker deveria ser aquela que se revelou no jantar de aniversário, não a que entra em guerras de comida patéticas, e o seu momento de glória deveria ter sido Affairs of State, ao contrário de um muito fraco Mistakes Were Made.

Mas mais surpreendente do que o desperdício de bons actores e do recurso a histórias banais, é ter de admitir que a personagem favorita é aquela menos provável. Nunca tendo acompanhado o sucesso de Ally McBeal, não dava grande importância a Calista Flockhart mas, graças ao grande destaque que tem na série, é natural que se comece a simpatizar com a sua personagem, Kitty, especialmente quando entra em cena o senador McCallister, num surpreendente retorno de Rob Lowe à vida política fictícia. A sua personagem não é a mais interessante, ou mesmo a mais agradável, mas pelo menos a diversão está garantida com as reviravoltas da sua vida amorosa.

Brothers & Sisters não é uma grande série, não tem grandes histórias, não tem grandes actuações. Mas tem, pelo menos, momentos divertidos, como as discussões familiares entre os irmãos e a rápida propagação de notícias via telemóvel, que ajudam a passar o tempo, e nos fazem continuar a ver. Tal como uma telenovela.

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