Downton Abbey S1

“Are we to be friends then?”
“We are allies, which can be a good deal more effective.”

Séries históricas, séries de época, “period drama”, “costume drama”… chamem-lhes o que quiserem, nada melhor que uma série deste género para suportar aquelas tardes frias e chuvosas de Inverno, quando a rua parece o local mais agreste do mundo e a manta no sofá se assemelha ao paraíso na terra. Seja pelas histórias envolventes, pelas interpretações de nota, pela maravilhosa fotografia, ou, simplesmente, pela ânsia de dar um salto a uma época totalmente desconhecida, não há dúvida que, por este cantinho, as séries de época são um dos passatempos preferidos dos dias chuvosos. E como a época a isso é propícia, os sete episódios da primeira temporada do mais recente sucesso britânico, “Downton Abbey“, foram devorados em menos de um dia, devidamente acompanhados de um Earl Grey a escaldar.

Em 1912, no rescaldo do desastre do Titanic, a aristocrática família Grantham vê todos os planos de futuro desintegrarem-se com mortes inesperadas a bordo do portentoso navio. A honra, a casa e a fortuna da família, inevitavelmente transferidas pela linha masculina, irão agora, devido à falta de um filho varão do conde Grantham (Hugh Bonneville), ser transferidas para um primo distante, Matthew Crawley (Dan Stevens) que não só tem o desplante de ser filho de um médico, mas também de exercer advocacia numa cidade tão pouco digna como Manchester. Sem saída, o conde Grantham vê-se então obrigado a tudo fazer para acomodar o primo e, quem sabe, aproximá-lo mais do seio da família com a ajuda da sua filha mais velha, a bela mas algo rebelde Mary (Michelle Dockery). Entre jantares desconfortáveis recheados de cenas memoráveis, belas paisagens de exterior e um guarda-roupa de deixar qualquer mulher que se preze a roer de inveja, a história da família Grantham é interessante mas acaba, por vezes, por cair em alguns exageros, como no caso da história do convidado turco, e em reviravoltas e contratempos algo forçados e por demais já abordados, como no caso do vai-não-vai entre Mary e Matthew ou da rivalidade que se desenvolve entre Mary e a irmã do meio Edith (Laura Carmichael), retirando algum interesse à história. No entanto, para compensar estes momentos menos bons, há sempre uma cena ou outra com a irrepreensível Maggie Smith no papel da velha condessa Grantham, que consegue alegrar qualquer episódio graças às suas tiradas mordazes e a uma rivalidade com a Mrs. Crawley (Penelope Wilton), a mãe de Matthew e o oposto da velha condessa.

Fosse esta apenas a história de “Downton Abbey” e a série não teria tido o sucesso que granjeou um pouco por todo o lado. Afinal, a história da família Grantham, muito embora nos permita descobrir o final da época dourada da Inglaterra e o amanhecer de uma época de incertezas com a chegada da guerra, não seria melhor do que muitas outras que, ao longo dos anos, saíram dos cofres da BBC e da ITV. Felizmente “Downton Abbey” não se ficou por aqui e resolveu apresentar-nos o “outro lado da história”, aquele que normalmente, passa despercebido neste tipo de séries – os criados.

De manhã bem cedo até ao cair da noite, por detrás das portas, nas cozinhas, nos estábulos ou nas garagens, existe toda uma classe de pessoas que dá vida às mansões senhoriais, que reza pelo seu bom funcionamento e que permite uma vida descontraída aos seus senhores. São camareiras, mordomos, governantas, criados, ajudantes de cozinha, pessoas sem as quais não seria possível existir nesta época. E são estas mesmas pessoas que têm aqui uma voz nos eventos. Se a história da família Grantham governa a temporada, a mesma repercute-se também no andar de baixo, junto daqueles com quem a família partilha o seu dia-a-dia. Por cada O’Brien (Siobhan Finneran) ou Thomas (Rob James-Collier) que não passam de vilões algo unidimensionais, temos um interessante e misterioso Bates (Brendan Coyle), criado pessoal do conde e seu ex-companheiro na guerra, que deixa transparecer de forma exímia todo o desespero de viver aleijado numa época imperdoável para pessoas deficientes, uma sensível Anna (Joanne Froggart), uma dedicada Mrs. Hughes (Phyllis Logan), um sempre correcto Mr. Carson (Jim Carter), que não obstante ter um passado algo colorido, defende com todas as suas forças a honra da família que serve. São pessoas que longe de passar despercebidas, reflectem a trama principal da série, que longe de serem apenas os confidentes dos seus senhores, guardam segredos próprios que poderão vir a afectar o desenvolvimento da mansão. São pessoas como muitas outras na época, que nos trazem um colorido diferente à história e a tornam, por isso mesmo, muito mais interessante.

Provando que, mesmo com os cortes anunciados por algumas estações, as séries de época não morreram, “Downton Abbey” é sem dúvida um exemplo de que ainda se pode inovar e apresentar algo fresco numa área já tão bem explorada. E que, como o prova a renovação para mais uma temporada, muitas boas histórias restam ainda por contar.

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