Human Target S2


Em todas as relações há aquela fase a que em inglês se chama “the honeymoon period”, um estado de graça, quando tudo parece bem, a cara-metade é a pessoa mais perfeita à face da terra e tudo o que faz é motivo de regozijo. O problema, no entanto, é quando essa fase passa, a realidade se sobrepõe à ilusão e os problemas do dia-a-dia começam a pesar.

Na ficção, tal como na realidade, não é difícil encontrar exemplos de séries onde, passado a fase de enamoramento, a realidade provou ser outra, mas há muito tempo que não o via acontecer de maneira tão brutal como na segunda temporada “Human Target“. Nunca tendo sido a melhor série à face da terra, era no mínimo competente naquilo a que se propunha: apresentar as aventuras de Christopher Chase (Mark Valley), um camaleão guarda-costas e especialista em segurança, que procura ajudar os seus clientes a saírem de situações perigosas com a ajuda de Winston (Chi McBride), o polícia que o pôs ao  serviço do bem, e de Guerrero (Jackie Earle Haley), um antigo inimigo que usa agora o sarcasmo a serviço do bem. Divertida, recheada de grandes momentos de acção, complementada por uma banda sonora magnífica e trazendo uma certa nostalgia das séries de acção dos anos 80, conseguiu conquistar o seu lugar entre as estreias de 2010. E quando se despediu na primavera, com um excelente “Christopher Chance“, teve ainda a oportunidade de abrir caminho a uma trama maior que poderia elevar a série de mero divertimento descomprometido a algo que valesse a pena manter debaixo de olho. O problema, no entanto, foi quando a realidade se imiscuiu na ficção, e retirou à série tudo o que tinha de bom.

O criador é afastado, arranjam-se duas gajas jeitosas metidas à pressão na história para “cativar a audiência feminina” (provando que os executivos da FOX, de mulheres, não percebem absolutamente nada), altera-se a banda sonora para a “popalhada” do costume e transforma-se, desta maneira, uma série que tinha um espírito muito próprio, num clone de tantas outras, com a agravante de se revelar, simplesmente, uma série fraca. Se a rapidez com que o clímax da primeira temporada foi resolvido em “Ilsa Pucci” pareceu estranha, e mais estranha ainda é a forma como, quase sem se dar por isso, se dá início à nova fase da série, onde Ilsa, interpretada pela britânica Indira Varma, passa de cliente a chefe deste grupo, a verdade é que nada nos faria adivinhar que a série pudesse vir a bater tão fundo como aconteceu, por exemplo na ridícula viagem aos subúrbios de “The Other Side of the Mall“, ou o ainda mais absurdo casamento de Ames (Janet Montgomery), ex-ladra e gaja boa número dois ao serviço do grupo, em “Kill Bob“. Pior, deixa-se de lado a trama que tinha vindo a ser desenvolvida na recta final da primeira temporada, sobre o passado de Chase e o que fez mudar para o lado do bem, para arranjar uma historiazeca qualquer sobre o marido de Ilsa, um ricaço que era infiel mas que, afinal, depois já não era infiel e tinha sacrificado a sua vida em prol da mulher, que entretanto se começa a apaixonar por Chase e… bom, qualquer coisa deste estilo, que nem vale a pena referir novamente de tão desinteressante que é. Basta dizer simplesmente que toda a magia, toda a alma desta série, constituída pelas trocas entre o trio principal, e que apenas em “The Return of Baptiste” deu algum sinal de vida, se perdeu irremediavelmente, sobrando em vez disso apenas uma série má, com um Winston conselheiro matrimonial, um Guerrero praticamente ausente e um fecho de temporada com uma tentativa de remake dos minutos finais de “The Bodyguard” que só dá vómitos.

“Human Target” está morta e enterrada. Pelo menos deste lado.

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Human Target S1

There’s a woman who cares enough about your life to hire me.
I made her a promise and I intend to keep it.

Para todos os que viveram os gloriosos anos 80, não há como não ficar com um sorriso nos lábios ao ouvir os primeiros acordes das clássicas séries de acção dessa época: das engenhocas de “MacGyver” aos descapotáveis deslumbrantes de “Miami Vice”, das dezenas de explosões de “The A-Team” às luzes intermitentes de “Knight Rider”, muitas foram as horas que passámos em frente à televisão, a seguir atentamente as aventuras dos nossos heróis favoritos. Mas, como em tudo na vida, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e os clássicos heróis, embora nunca tenham chegado a desaparecer totalmente, foram perdendo o seu lugar nas nossas televisões. Felizmente, no meio desta onda de remakes, reimaginações e sequelas que parece ter dominado os últimos anos, conseguem ainda encontrar-se algumas surpresas. E “Human Target” foi sem dúvida uma das melhores surpresas da temporada.

“If you have a problem, if no-one else can help you, and if you can find him, you can hire… the Human Target.” Liberdades televisivas à parte, Christopher Chance (Mark Valley) é um misterioso guarda-costas e especialista em segurança, pau para toda a obra, cuja principal tarefa é resgatar os seus clientes de dilemas que parecem impossíveis de resolver. Sejam ataques directos ou perseguições pela calada, em terra, no ar ou no mar, Christopher Chance é o homem que nunca recusa uma missão. A seu lado, a apoiá-lo em todos os momentos, o ex-detective Winston (Chi McBride) procura ser a voz da razão, mas é frequentemente ignorado ou, pior ainda, desautorizado por Guerrero (Jackie Earle Haley), um perigoso e misterioso técnico de computadores que poderá (ou não) ter ligações ao passado que Chance tenta esconder.

Conjugando, todas as semanas, uma forte dose de adrenalina que pode, por vezes, ser um pouco ridícula, como durante um peculiar voo de pernas para o ar em “Rewind“, mas que nunca deixa de nos chamar a atenção, cenas de luta impecáveis, graças em grande parte à experiência pessoal de Mark Valley, personagens interessantes, diálogos espectaculares, especialmente nos momentos em que Winston e Guerrero se digladiam verbalmente, e uma banda sonora irrepreensível da parte do grande favorito desta casa, Bear McCreary, que se evidencia em cenas tão singelas como uma luta/tango em “Embassy Row“, “Human Target” pode não ser a série mais complexa da temporada, pode brincar com os estereótipos do género de acção e aventura, com as suas explosões, adrenalida constante e (muitas) mulheres fantásticas ao virar de cada esquina, mas garante, a todos os que lhe dão uma hipótese, quarenta minutos muito bem passados. E se os doze episódios que constituem a primeira temporada não chegaram ainda para cansar da fórmula típica dos episódios, a promessa de revelar mais sobre o passado de todas estas personagens, como visto em “Baptiste” e “Christopher Chance” é razão mais do que suficiente para aguardar, com expectativa, as novas aventuras deste trio.