Luther S1

Se há algo que faz uma série superar-se, que a eleva do estatuto de “apenas mais uma” para “série a não perder”, são as personagens. Sem personagens marcantes, que nos cativem a cada segundo em que estão no ecrã, interpretadas por actores experientes que encarnem, na perfeição, aquilo que a história nos propõe, não há premissa – mais ou menos interessante – que sobreviva. E se este é um facto já conhecido, fica mais uma vez claro nesta aposta da BBC por terrenos do drama policial.

Pôr um nome como Idris ‘Stringer Bell’ Elba à frente de um projecto da BBC, a interpretar John Luther, um detective do departamento de homicídios em Londres, atormentado por casos do passado e incapaz de viver no presente, é garantia de receber muita atenção. Juntar a isso Alice Morgan (Ruth Wilson), uma assassina meticulosa, cuja inteligência fora do normal a leva a cometer crimes injustificáveis e que promete não descansar enquanto não destruir Luther, e temos a certeza de que ninguém irá deixar passar ao lado esta produção. Mas será que as personagens são suficientes? Será que conseguem levar às costas uma série inteira?

Independentemente do brilhantismo das interpretações dos dois actores principais, que conseguem dar uma profundidade a personagens que, com outros actores, seriam apenas caricaturas – o polícia atormentado pelo seu passado que recusa o final do casamento com a mulher Zoe (Indira Varma) e a assassina fria e mordaz que não olha a meios para conseguir os seus intentos, inimigos que acabam por estabelecer uma relação de cumplicidade – não há actor, por muita experiência que tenha, que consiga valer por uma trama. E isso fica claro à medida que vamos avançando nesta história. Depois de um primeiro episódio impressionante, onde fica desde logo estabelecida esta estranha relação entre detective e assassina, dois lados da mesma moeda que partilham tanto a genialidade como a loucura, o que se segue são episódios com casos diversos que variam entre o emocionante, como o do soldado que resolve virar-se contra as forças policiais da cidade, o assustador, como o do raptor que escreve com o sangue das suas vítimas e que proporciona, nos minutos iniciais, grandes arrepios, e o absurdo, como o dos diamantes, deixando-nos com a sensação que algo de muito errado se está aqui a passar. Se os casos individuais até conseguem ser, de início, interessantes – embora com algumas resoluções demasiado fáceis – e a relação entre Luther e Alice, sempre em pano de fundo entre ameaças e aproximações, permaneça o elemento mais cativante de toda esta história, a convergência de todas as tramas secundárias a caminho do desfecho final e o papel determinante dado a personagens que pouco desenvolvimento tiveram durante a restante série, parece virar a história de pernas para o ar e deixar-nos sem saber o que esperar da segunda temporada.

Com apenas seis episódios mas uma história que sofreu uma reviravolta de 180 graus, a primeira temporada de “Luther” não convence totalmente, mas proporciona, mesmo assim, alguns bons momentos e irá certamente regressar a este cantinho numa próxima oportunidade, nem que seja para continuar a seguir a evolução da relação entre Luther e Alice, que promete não ficar por aqui.