Veronica Mars S1

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O secundário. Aquela época da nossa vida onde as maiores preocupações são saber se o metro está a funcionar, ter boas notas para ir ao Sudoeste no verão e combinar um café com os nossos amigos. Esta é a nossa realidade. Do outro lado do Atlântico, pelo contrário, as coisas são bem diferentes.

Na fictícia cidade de Neptune, o mundo está dividido entre ricos e pobres, entre os que tudo têm, e os que lutam para terem algo. No meio destes, encontra-se Veronica Mars (Kristen Bell), uma despachada adolescente de 17 anos que já esteve no grupo dos populares, mas que viu o seu estatuto desaparecer com a misteriosa morte da sua melhor amiga, Lily Kane (Amanda Seyfried). Renegada por tudo e por todos depois do seu pai Keith (Enrico Colantoni), o xerife, ter acusado os pais de Lily do assassinato e ter sido despedido, Veronica vê-se obrigada a contar com a sua boca afiada e olhar penetrante para ajudar o pai a resolver diversos casos no novo escritório de detectives. Perdida entre dois mundos, Veronica divide o seu tempo a ajudar os seus colegas em casos mais ou menos interessantes e a seguir a investigação do assassinato de Lily, que tanto impacto teve na vida de todos. Mas porque nesta comunidade nem tudo é o que parece, Veronica vai ter de se cuidar para não ser a próxima vítima.

Veronica Mars” é um óptimo exemplo de que algo de novo se consegue ainda fazer num género já mais do que gasto. Sem ser uma série brilhante e inovadora, sem deixar de cair em alguns (muitos) clichés e de abusar de histórias já por demais batidas, consegue mesmo assim trazer algo de novo às séries de adolescentes. A personagem principal é refrescante, uma rapariga que não se deixa vencer pelas classes sociais e que tanto ajuda o novo estudante Wallace (Percy Daggs III) como o líder do gangue local Weevil (Francis Capra) ou mesmo as meninas ricas que tanto a vitimaram. A sua caída em desgraça, depois da morte de Lily, é exacerbada pelo abandono da mãe e pela violação de que é vítima numa festa da escola, eventos que deixam graves marcas e que a acompanham ao longo da temporada. Mais interessante do que a personagem é a sua relação com o pai, talvez uma das mais interessantes mostradas na televisão depois de um certo par de mulheres de Stars Hollow, uma parceria que funciona tanto em casa como no escritório.

Mas quando tiramos estes elementos, o que nos resta? O que tornam estes vinte e dois episódios da primeira temporada diferentes de tantas outras séries juvenis? Pouco ou nada. Os casos dos episódios nunca chegam a ser verdadeiramente intrigantes, servindo quase só para passar tempo e para relembrar aqueles mistérios que líamos em crianças. Veronica pode ter câmaras fotográficas digitais boas, acesso aos sítios web mais poderoso e deixas irónicas, mas no fundo não deixa de ser mais uma Nancy Drew igual a tantas outras. Os personagens secundários, os colegas da escola que lhe fazem a vida negra, não são muito diferentes de outros que há muito conhecemos: Duncan (Teddy Dunn), o rico menino bonito e ex-namorado, e Logan (Jason Dohring), o “bad boy” milionário, são os dois pretendentes entre os quais Veronica alterna, personagens tão unidimensionais como tantas outras da velhinha “Beverly Hills”, que apenas ganham o merecido destaque nos momentos em que relembram a falecida Lily. E quanto ao caso principal, o assassinato de Lily, diluído como é ao longo da temporada, acaba por perder todo e qualquer impacto na revelação final em “Leave it to Beaver”, deixando apenas como marca a acção que o marcou. Mas se esta revelação final teve pouco impacto, é a resolução da história mais negra – a violação de Veronica – que deixa qualquer um boquiaberto. Num claro momento de volta-a-face, a violação deixa de ser violação para passar a ser um momento “de amor” (não obstante as drogas, é claro), que destrói por completo aquilo que vimos no episódio piloto.

Momentos bons, momentos maus – todas as séries por isso passam, e é geralmente o nosso apego a uma história ou a uma personagem que nos faz aceitar os momentos maus e esperar por momentos bons. No caso de “Veronica Mars”, a série que tantos fascina, não me conseguiu convencer.

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