Terriers

“Aw, we’ve been in worse situations.
I can’t think of any off the top of my head, but they’re there.”

Todos os anos, por entre as dezenas de estreias que surgem na nossa televisão, há aquelas que passam despercebidas, que nascem, crescem e morrem sem que ninguém dê por isso. E se esse é um percurso inevitável da vida televisiva, há algumas que custa mesmo – mas mesmo muito – perder. “Terriers” foi, em 2010, uma delas.

A vida de um ex-polícia, Hank Dolworth (Donal Logue) e de um ex-ladrão, Britt Polack (Michael Raymond-James), detectives privados em San Diego, vai mudar para sempre no dia em que recebem um pedido de um amigo de Hank: encontrar a filha desaparecida deste, que se meteu com quem não devia na alta roda da cidade e parece estar em apuros. Por entre dinheiro e perseguições, mansões e chantagens, estes dois detectives privados não oficiais, que não primam pela competência ou pela astúcia mas que compensam em determinação, vão ver-se envolvidos numa conspiração que poderá pôr em risco tudo e todos os que os rodeiam, e que irá pôr à prova a sua perseverança.

Com o cenário descontraído de San Diego a dar o tom à série, sucedem-se os típicos casos da semana que já se tornaram cliché neste género de histórias, como a recuperação de itens roubados de “Ring-A-Ding-Ding” ou as provas de infidelidade de “Change Partners“, casos que podem, de início – e mesmo com os diversos twists mais negros -, não cativar, mas que se revelam, devido a uma escrita inteligente e a diálogos contundentes, um bom acompanhamento para o prato principal da série: a história de Robert Lindus (Christopher Cousins) e das falcatruas em que este se envolveu, uma história que nos acompanha desde o primeiro, mais ligeiro episódio, e que parece por diversas vezes encerrada, até ao final da  temporada (e da série).

Se a trama principal da série tem, nestes treze episódios, uma evolução perfeita, desde as primeiras menções, às pistas lançadas nas diversas histórias secundárias, ao crescendo de intensidade em “Quid Pro Quo” e ao desfecho final em “Hail Mary“, proporcionando uma experiência gratificante, são sem dúvida as personagens que nos conquistam desde o primeiro momento e que nos fazem passar por cima de algum momento menos bom que possa existir. A cumplicidade que vemos no ecrã entre os protagonistas e que tão boas recordações nos deixa, é reflexo de uma verdadeira amizade fora do ecrã, e estende-se mesmo a personagens secundárias como a problemática Steph (Karina Logue), irmã de Hank dentro e fora do ecrã, ou a Katie  Nichols (Laura Allen), personagem que em outras séries poderia ser a típica namorada irritante mas que aqui se revela uma mulher complexa, ciente das suas escolhas e da pessoa com quem partilha a sua vida, capaz de nos surpreender tanto pela positiva, com um pedido mais picante, como pela negativa, ao cair em tentação. E mesmo se Gretchen (Kimberly Quinn) nunca tenha conseguido afirmar-se, e o detective Gustafsson (Rockmond Dunbar) pudesse ter tido mais destaque nas poucas (mas excelentes) cenas em que o vimos, a certeza permanece de que uma série que nos traz episódios como “Asunder“, onde os papéis se invertem num piscar de olhos, onde o desespero se transforma em determinação e a felicidade em tristeza, prova que mesmo num género já por demais esgotado ainda é possível fazer algo de bom.

“So what do you say, partner. Which way will it be?” O final pode ter chegado mais depressa do que esperávamos, deixando-nos desde logo cheio de saudades de Hank e Britt. Mas pelo menos fica a certeza de que esta é uma série que vale a pena ver (e rever).

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Sons of Anarchy S1

Durante toda a nossa infância fomos habituados aos valorosos heróis de capa e espada, personagens maiores que a vida, correctos, justos, bastiões dos ideais mais perfeitos; estes eram os heróis que protegiam os indefesos e lutavam contra as injustiças, os modelos que mais tarde deveríamos seguir. Era assim no passado. Mas, de repente, estes heróis da ficção desceram ao mundo real, trocaram as suas capas e espadas por blusões de cabedal e armas, começaram a trabalhar por si e para si. Surgiram assim Tony Soprano, Vic Mackey, Gregory House, os anti-heróis que mudaram a nossa forma de ver o mundo, que se distanciaram do simples bom e mau, preto e branco, para se inserirem num patamar mais cinzento, difícil classificar. E é na sua rasteira que chega “Sons of Anarchy”.

Com a partida da saudosa “The Shield”, que deixou uma marca entre os dramas desta década, tornava-se necessário encontrar algo que a substituísse, e se “Sons of Anarchy” não consegue ainda chegar ao nível da sua antecessora, está já muito bem encaminhada. A premissa é simples: na pequena cidade fictícia de Charming, no norte da Califórnia, a vida gira à volta de um gangue de motas, a divisão fundadora dos Sons of Anarchy Motorcycle Club Redwood Original (SAMCRO). Entre os negócios legítimos da oficina de reparação de automóveis e o tráfico ilícito de armas pela calada, os Sons governam a cidade em silêncio, graças ao punho de ferro de Clay Morrow (Ron Perlman), líder do grupo. Violência, tráfico, tiros e muita acção, esta podia ser a história desta série, mas o que encontramos é mais, muito mais.

Quando Kurt Sutter criou a série, tinha dois objectivos principais: explorar as relações familiares, tomando como exemplo tragédias shakespearianas como “Hamlet”, e revelar ao mundo a cultura dos clubes de motas, mostrar a sua verdadeira realidade, longe dos estereótipos que, ao longo dos anos, lhes foram atribuídos pela ficção. Apoiando-se numa investigação profunda, tentou assim mostrar uma subcultura desconhecida, com códigos de conduta, regras e leis muito próprias, organizações com uma estrutura de comando rígida e complexa onde tudo se faz em defesa do Clube e dos seus membros. Sem defender, aprimorar ou sequer esconder os problemas e a violência causada pelos seus membros, que vemos e confirmamos ao longo da série, como durante o ataque ao armazém no episódio piloto ou na cruel sentença aplicada a um antigo membro que ousou desafiar as regras em “Giving Back”, “Sons of Anarchy” consegue, ao mesmo tempo, mostrar-nos o outro lado da história que, por vezes, nos recusamos a reconhecer. E se todas as personagens se encontram neste patamar cinzento, nenhuma é mais difícil de classificar do que Gemma Teller (Katey Sagal), rainha e senhora dos Sons, viúva do fundador e esposa do actual líder, a mulher que arriscou tudo ao trazer consigo os Sons para a cidade e que governa a vida dos seus membros e famílias.

Ao mesmo tempo que explora os códigos e regras do Clube, a relação difícil que este mantém com as autoridades da cidade – expressas da melhor forma na dicotomia que existe entre Wayne Unser (Dayton Callie) e David Hale (Taylor Sheridan), chefe da polícia e segundo no comando, entre apoiante e opositor aos Sons – e com os inimigos comuns, como os rivais Mayans e os supremacistas brancos “Nords”, “Sons of Anarchy” aprofunda as crises internas que poderão vir a causar a destruição de tudo aquilo porque o clube sempre lutou. Desiludido com a escalada de violência, Jax Teller (Charlie Hunnam), vice-presidente dos Sons e filho do fundador, começa a questionar o caminho seguido pelo Clube, e a descoberta de um manuscrito do seu falecido pai, que salienta os ideais de liberdade que deram origem a este movimento poderá vir a ser a gota de água que irá levar à destruição do clube.

Com uma estrutura lenta, que não cativa desde início, e uma miriade de tramas secundárias que não trazem nada à história, como é o caso da perseguição a Tara (Maggie Siff), ex-namorada de Jax, por parte do assustador agente do ATF Josh Kohn (Jay Karnes), resolvida de forma insatisfatória em  “Hell Followed”, as voltas e reviravoltas na relação de Jax com a ex-mulher Wendy (Drea de Matteo) e com Tara, a doença do pequeno Abel e a complexa ligação dos Sons ao Real IRA, a primeira temporada desta série não é de fácil consumo, mas chegados aos últimos capítulos, é com grande satisfação que damos o tempo por bem gasto. “Capybara” marca, sem sombra de dúvidas, o momento em que a série encontra o seu caminho, em que começa a caminhar numa direcção concreta e que se afirma como uma história a seguir atentamente. Os dilemas de Opie (Ryan Hurst) para escolher entre o Clube e a família, ao ver-se encostado à parede pela agente Stahl (Ally Walker), irão determinar o resto da temporada, culminando com o triste (se bem que previsível) “The Sleep of Babies” que poderá ser a machadada final na família de armas que são os Sons. E se a dramática tomada de posição de Jax em “The Revelator” parece algo exagerada para uma série que pretende, acima de tudo, ser levada a sério, não há dúvida que os minutos finais nos deixam em pulgas para saber o que irá acontecer a todas estas personagens.

“Sons of Anarchy” pode não ter conseguido conquistar desde o primeiro momento todos aqueles que procuravam o sucessor de “The Shield”, mas graças a uma trama interessante e às personagens marcantes que revela, deixa no ar uma grande expectativa para o futuro.

The Shield S7

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There are things I regret . Cause you can’t forgive . You can’t forget . There’s a game that I play . There are rules I had to break . There’s mistakes that I’ve made . But I’ve made them my way

De que são feitas as memórias? De momentos. Momentos calmos ou marcantes, momentos em que tomámos decisões ou em que decidimos nada fazer, momentos em que avançámos ou em que nos deixámos ficar para trás. Momentos que ficam guardados para sempre, e que não se conseguem mais esquecer.

As memórias são feitas de momentos e é por isso natural que, no cair do pano de sete anos de “The Shield“, se tenha escolhido homenagear esta série recordando os seus momentos mais marcantes. Ao som de “Long Time Ago” dos Concrete Blonde relembramos uma esquadra ainda despida que rapidamente se enche com as nossas figuras principais. Recordamos aqueles que deram a vida por esta história e aqueles que injustamente foram esquecidos. Recordamos momentos de felicidade e choques que nos deixaram completamente devastados. Recordamos a granada que destruiu uma amizade e as balas que, em sua homenagem, se cravaram no chão. Recordamos sete anos de brilhantes interpretações e de uma trama que nos conseguiu prender, até ao último segundo, ao ecrã.

Depois de uma sexta temporada mais fraca, que mais pareceu um compasso de espera entre a morte de Lem e o confronto final dos membros da antiga Equipa de Intervenção, o arranque da sétima temporada foi forte, com a primeira retaliação de Vic (Michael Chiklis), mas a verdade é que a trama rapidamente se tornou confusa com a proliferação de histórias paralelas. Para além da vingança pela morte de Lem, que Vic tanto prometeu, meteram-se também à mistura o confronto com os arménios e a conspiração de Pezuella (F.J. Rio), tramas que insistiram em se cruzar e que mostraram um Vic mais ardiloso do que nunca, a enganar tudo e todos de forma exímia. Mas se esta sempre foi a natureza de Vic, a verdade é que o escalar das mentiras começou, em certo ponto, a tornar-se falso demais, inacreditável demais, tirando algum impacto à história principal.

Se a crise com os arménios parecia interessante, pela óbvia ligação às primeiras temporadas, a ingenuidade demonstrada pelos mafiosos começou, a certo ponto, a tornar-se gritante demais, transformando-os em meros fantoches que Vic manipulava a seu belo prazer. Já a trama de Pezuella, que prometia trazer Aceveda (Benito Martinez) de novo à história principal, acabou por também nunca se conseguir destacar, deixando a personagem de Aceveda, que tão importante foi durante os primeiros anos desta história, sem uma direcção concreta. Embora Aceveda nunca tivesse sido o modelo do polícia perfeito, a verdade é que a sua espiral descendente começa na altura em que a personagem cai na tentação de resolver os seus problemas custe o que custar, doa a quem doer, no momento em que Aceveda se começa a transformar em Vic. O confronto entre estes dois homens deveria, por isso mesmo, ter sido interessante, ao fazer de Vic um espelho onde Aceveda se vê reflectido, mas acabou por nunca chegar às suas últimas consequências, deixando a personagem a navegar sem uma direcção concreta, tal como aconteceu a outras personagens secundárias.

Danny (Catherine Dent), Julien (Michael Jace), Tina (Paula Garcés), Billings (David Marciano). Se de Tina e de Billings não esperávamos mais do que continuassem a ser as personagens mais imprestáveis do Departamento, com a salvaguarda que, pelo menos, Billings conseguia dar algum humor aos casos mais desastrosos, a história de Tina nunca conseguiu realmente afirmar-se, fazendo com que os minutos com ela gastos parecessem desperdiçados. Já a completa aniquilação do Julien das primeiras temporadas, o homem que lutava com a sua consciência e os seus sentimentos, e a gradual perda de importância de Danny que, depois de se ver assediada por Vic pela custódia do filho, desaparece de cena durante algum tempo sem que nenhuma das personagens desse pela sua falta, foi uma falha grave que não nos permite apreciar verdadeiramente o desfecho desta história. Ambos mereciam melhor destino.

Maior destaque tiveram, felizmente, Dutch (Jay Karnes) e Claudette (CCH Pounder). O detective maravilha, uma das personagens favoritas desta que vos escreve, teve mais uma vez a oportunidade da sua carreira, ao identificar correctamente um jovem assassino em série. A luta de Dutch contra Lloyd, ao longo da temporada, foi muito interessante, não só por trazer de volta à ribalta o melhor detective da esquadra, mas também pelo impacto que o jovem teve em Dutch, deixando-nos a pensar se não seria este o golpe final, depois de Sun-Lee, de Bob, de Marci e de tantos outros, que o levaria a sucumbir à tentação de usar métodos menos ortodoxos para conseguir uma vitória, tornando-se naquilo que mais odiava. Se a história prometia um desfecho explosivo, a implosão a que assistimos não foi totalmente satisfatória, mas felizmente para Dutch, do lado pessoal, o fechar da série trouxe consigo grandes momentos. A forma como Dutch e Claudette se complementavam – os “Gémeos Maravilha”, como Vic uma vez lhes chamou -, como se apoiavam e se defendiam mutuamente, esteve presente desde o episódio piloto, mas em “Bitches Brew” ganhou uma nova dimensão. Entre Dutch e Claudette existe uma verdadeira amizade, daquelas em que se ajuda sem se pedir nada em troca, onde não há recriminações nem atribuições de culpa, apenas um apoio constante quando mais precisam, e é isso que os separa das restantes personagens desta série. Para duas grandes personagens, apenas dois grandes actores lhes podiam fazer justiça, e Jay Karnes e CCH Pounder conseguiram destacar-se ao longo de todas as temporadas, ofuscados apenas pelas interpretações exímias dos dois actores principais.

Se a primeira metade da derradeira temporada teve os seus problemas de estruturação, com o avançar dos episódios a história regressa ao rumo estabelecido desde “Post Partum”, revelando-se em força o conflito Vic e  Shane (Walton Goggins), que explode no impressionante “Parricide“. De um momento para o outro, assistimos incrédulos àquilo que há muito esperávamos: o desmanchar da fachada de Shane, o entregar do distintivo de  Vic, a queda, sem pompa nem circunstância, da Equipa de Intervenção. Em poucos minutos, tudo muda irremediavelmente, e o caminho que à nossa frente se revela é o da destruição eminente.

Semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes, Shane e Vic são sem dúvida as duas faces deste conflito desde o início. Desde sempre o mais problemático, o culpado de grande parte das situações em que a equipa se viu enfiada, Shane tentou justificar a morte de Lem como um sacrifício para o bem de todos, agindo sempre com total consciência dos seus actos e arrastando consigo a mulher Mara (Michelle Hicks), a sua alma gémea em todos os sentidos. Considerado por muitos como o grande vilão é, no entanto, no amor que sente pela família que a personagem mais se revela. Por muitos crimes que tenha cometido, por muitos mandamentos que tenha destruído, Shane nunca mentiu a Mara, nunca fingiu ser mais do que era, nunca tentou ocultar a sua verdadeira personalidade, ao contrário de Vic, que sempre escondeu de Corrine (Cathy Cahlin Ryan) tudo o que  fez.  É essa frontalidade que explica o contínuo apoio ao marido de Mara, mesmo quando recebe, de mão beijada, a oportunidade de se entregar e sair em liberdade. E é por isso mesmo que o destino final de toda a família em “Family Meeting” deixa qualquer um devastado.

No lado oposto encontra-se Vic, que consegue iludir tudo e todos mas que acaba, no final, por se iludir também a si próprio. Vic recusa-se a reconhecer o seu papel naquilo em que Shane (e Ronnie, e mesmo Lem) se tornou; recusa-se a reconhecer que poderá ser, no fundo, o catalisador de todos estes problemas. Nunca se deixando qualificar, Vic vai saltando entre o bom e o mau, entre o branco e o negro, ficando numa área cinzenta que é impossível de distinguir, e é isso que o torna uma das personagens mais interessantes da televisão americana. A sua viagem, ao longo destas sete temporadas, foi uma viagem cheia de voltas e reviravoltas, de guerras e de mudanças, uma viagem com um final, no mínimo, surpreendente. O momento em que Vic finalmente admite todos os crimes que cometeu, o momento em que relata todos os eventos a que assistimos ao longo destas temporadas a uma perplexa Olivia (Laurie Holden) em “Possible Kill Screen“, é também o momento em que se sela o destino final da equipa. Ao assinar o contrato com o ICE, Vic condena, desta forma Ronnie (David Rees Snell), o seu último amigo e confidente, aquele que sempre o apoiou e que dele nunca duvidou, à cadeia, e contribui para a trágica decisão de Shane. Ao revelar todos os segredos, consegue livrar-se da perseguição de Wyms, mas perde todo o seu futuro. Longe das ruas, com a família no programa de protecção das testemunhas, Vic termina a sua história sentado num cubículo, rodeado de memórias de um passado que perdeu.

Desde o início que sabemos que ninguém sai impune desta história. Que não há personagens totalmente boas, nem totalmente más, apenas personagens que escolheram o seu caminho e que, para o bem e para o mal, o terão de percorrer até ao fim. E porque Shawn Ryan se manteve fiel aos seus princípios, é assim, sem qualquer redenção, que termina uma das mais impressionantes séries policiais de sempre. Uma série que irá ter o seu lugar bem marcado na história de tv americana.

The Riches S2

The minute you get what you think you want, you always want more

O que significam treze milhões de dólares para o comum mortal? O fim de todos os problemas, certamente. A possibilidade de realizar todos os sonhos, de largar tudo e de começar de novo, sem medo das consequências. E para um Irish Traveller, uma espécie de cigano americano, que percorre as estradas dos Estados Unidos da América a enganar os comuns mortais (Buffers)? Uma oportunidade única de começar de novo, de ser livre. Mas, como se prova nos sete episódios da segunda temporada de The Riches, o dinheiro nem sempre nos dá a liberdade que procuramos.

Depois de uma excelente primeira temporada, onde se aliou da melhor forma a comédia ao drama, e que nos tinha deixado o ano passado com um grande cliffhanger, a segunda temporada deste original da FX não conseguiu manter a mesma qualidade. Marcada, como tantas outras, pelas consequências da greve dos argumentistas, a diminuição do número de episódios, aliada à falta de uma direcção concreta e a um esticar da credibilidade ao máximo, tornaram este novo capítulo da história da família Malloy em algo difícil de aceitar. O filão de ouro da série continua lá: as grandes interpretações dos actores principais, Eddie Izzard como Wayne Malloy e Minnie Driver como Dahlia Malloy asseguram a qualidade de um elenco competente, mas as divertidas discussões familiares que dominaram a temporada anterior, as primeiras aventuras no mundo desconhecido de Eden Falls, e as várias intrujices que Wayne inventava para disfarçar a sua óbvia falta de competência para o cargo tornaram-se, com o passar dos episódios, difíceis de aceitar. E se nunca foi possível classificar esta série na categoria de comédia, a direcção mais sombria da história também não parece adequada a personagens que continuam a tentar fazer-nos acreditar que alguém sem nenhum conhecimento da advocacia consegue enganar tudo e todos por tanto tempo como Wayne tem conseguido.

Numa temporada em que a união familiar se começou a desintegrar, foram as histórias individuais das personagens que ganharam destaque. Se Wayne é o catalisador de todos os problemas, ao quebrar a união e decidir regressar com a família a Eden Falls, arriscando tudo e todos na expectativa de uma fortuna graças ao projecto de Hugh Panetta (Gregg Henry), Dahlia vai arriscar a sua liberdade quando os remorsos a levam a tentar corrigir erros do passado, na esperança de, com isso, conseguir salvar a sua família. E se Di Di (Shannon Marie Woodward) parece esquecer facilmente as relações passadas, e Sam (Aidan Mitchell) pouco tenha tido que fazer, é Cael (Noel Fischer) que parece estar do lado da razão desta vez. Não será, provavelmente, a casa que está a roubar a alma à família Malloy, como sugere Cael, mas a verdade é que esta mesma alma se está a desintegrar a olhos vistos, sem que nenhum dos membros da família o tente impedir.

Depois de apenas sete episódios é difícil saber se o rumo desta história conseguirá vingar. A chegada de um novo inimigo, Eamonn Quinn (Jared Harris), aliado ao sempre presente Dale (Todd Stashwick) não augura nada de bom para uma (possível) terceira temporada, e a falta de apoio de amigos como Nina (Margo Martindale) poderá tornar mais difícil a vida dos Malloy. Espera-se apenas que, caso lhes seja dada a oportunidade de regressar, os Malloy recuperem a forma que mostraram na primeira temporada.

Damages S1

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Because I know Patty

Não é fácil inventar num género onde quase tudo foi já explorado até à exaustão, onde as histórias, personagens e dramas se tornam cada vez mais difíceis de distinguir de uma série para a outra. Se as séries de advogados são um dos géneros que mais padece deste abuso, Damages veio provar que, com um pouco de imaginação, se consegue fazer algo diferente.

Sim, Damages é um drama sobre advogados; mas é um drama sobre advogados diferente: não mostra longos interrogatórios, objecções indignadas, apaixonantes discursos feitos aos jurados. A acção de Damages nem sequer passa pelo tribunal. Procura, pelo contrário, mostrar o que se passa nos bastidores deste mundo: as acções, os acordos, as chantagens que irão moldar o que se passa frente à audiência. E procura ao mesmo tempo, como já tem sido habitual nas séries da FX, explorar a verdadeira dimensão do ser humano, que não se divide em bom e mau, que não se pinta de preto nem de branco, mas que se esconde numa área cinzenta, difícil de classificar.

Ellen Parsons (Rose Byrne) é uma jovem advogada prestes a iniciar o que promete ser uma carreira de sucesso. Com várias propostas interessantes, um noivo (Noah Bean) que a apoia em todas as decisões, rodeada de família e amigos, Ellen tem o mundo aos seus pés. Mas quando surge a oportunidade de trabalhar num dos maiores julgamentos civis dos últimos anos para a famosa firma de Patty Hewes (Glenn Close), Ellen vai descobrir que nem todos são o que parecem. O que começa como um simples caso contra o bilionário corrupto Arthur Frobisher (Ted Danson), vai transformar-se numa luta pela verdade e pela sobrevivência, com consequências graves para todos os envolvidos.

Se os nomes de peso do elenco são desde logo um chamariz para a série, o que surpreende desde início é a estrutura da série, alternando entre o passado e o presente, entre o caminho que Rose percorreu e o seu dilema actual, mostrando as boas (e más) escolhas, dando-nos a conhecer as verdadeiras pessoas que se escondem por detrás das máscaras, desvendando lentamente o mistério. Só assim conseguimos compreender quem é Ray Fiske (Zeljko Ivanek), qual a razão da fidelidade cega de Tom Shayes (Tate Donovan), porque foi necessária toda esta tragédia. E é esta estrutura de voltas e reviravoltas que nos deixa em suspense até ao último minuto dos 13 episódios, onde finalmente se descobre que os maus nem sempre são os maus, e que os bons também conseguem ter o seu lado maquiavélico.

The Riches S1

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The american dream. We’re going to steal it.

Hollywood parece ter descoberto o filão das séries passadas nos subúrbios. Depois de Desperate Housewives, de Weeds e de Big Love, chega-nos agora a história de uma família de aldrabões que planeia o seu maior golpe de sempre: roubar o sonho americano.

Criado por Dmitry Lipkin, esta série conta-nos a história de uma família de ciganos (Travelers), que viajam pelo país numa caravana a enganar os comuns americanos (Buffers). Com a saída da prisão da matriarca Dahlia, Wayne Malloy e três filhos do casal Cael (Noel Fisher), Di Di (Shannon Woodward) e Sam (Aidan Mitchel) regressam ao campo para celebrarem com a família. Mas nem tudo corre bem, e são forçados a fugir, provocando um acidente de consequências trágicas. Destroçados pela culpa, e sem saberem o que fazer, resolvem assumir as identidades do casal que morreu, e recomeçar a vida num bairro chique nos subúrbios. Mas nem tudo vai ser fácil para esta família tão especial, que irá agora ter de aprender a conviver com vizinhos, escola, trabalho, saltos altos e gravatas.

Esta podia ser apenas mais uma simples série sobre os subúrbios, mas graças a excelentes interpretações, twists inesperados e histórias que passam da comédia ao drama em questão de segundos, tornou-se numa das grandes apostas da FX.

A escolha de dois reconhecidos actores britânicos para interpretarem os papéis principais foi uma decisão arrojada: Minnie Driver podia já ser conhecida dos americanos através do cinema, mas Eddie Izzard e os seus espectáculos de stand-up travesti não era conhecido do grande público. E, no entanto, os dois tornaram-se na alma da série desde o primeiro minuto. É impossível não rir com as tiradas, diálogos e raciocínios malucos de Wayne, e com as respostas igualmente perfeitas de Dahlia. Destaca-se também Gregg Henry, no papel de Hugh Panetta, o irrascível milionário patrão de Wayne, e o casal de vizinhos Jim (Bruce French) e Nina Burns (Margo Martindale), que têm vários esqueletos no armário, sem esquecer a subtil vénia a Izzard na personagem mais inesperada.

Mas The Riches não vive só da comédia, e os momentos dramáticos dão-lhe uma maior profundidade. É o acidente do primeiro episódio que vai marcar toda a temporada, mas os grandes dilemas da família são mais antigos: a prisão de Dahlia e a sua dependência de drogas, os segredos revelados, o difícil regresso a casa em Virgin Territory e o perigo que correm com a presença de Dale (Todd Stashwick) marcam os 13 episódios da primeira temporada.

Não é então de estranhar que a primeira temporada termine com um tom pesado, tentando fugir do passado. Mas porque este não se deixa apagar tão facilmente quanto o mural que Sam foi desenhando no quarto ao longo dos episódios, a segunda temporada promete trazer mais aventuras à família Malloy.

The Shield S6

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Depois dos eventos do final da última temporada, esperavam-se grandes confrontos nos 10 episódios desta sexta season. Mas, como os próprios autores tinham avisado, havia muitas pontas soltas para unir, e por isso seria necessário mais tempo para resolver todos os conflitos. Talvez por isso os grandes confrontos tenham sido adiados para a próxima temporada. Ou talvez seja para se reiterar, mais uma vez, a essência da série: não podermos culpar os outros por erros que também nós cometemos.

Look, you think you’re looking at me through some window.
And all you’re really doing is looking in a mirror.

Desde o início que somos apresentados a uma equipa corrupta, com polícias que são capazes de tudo para apanharem um criminoso, e para ganharem algo com isso. Mas, por outro lado, tentaram-nos mostrar também sempre personagens com algo de redentor. Lem (Kenny Johnson) e Ronnie (David Rees Snell) são os mais comedidos, as consciências da equipa. Vic (Michael Chicklis), por entre todos os seus problemas, tem uma consciência, uma moral; distorcida, por vezes, mas que lhe permite distinguir o bem do mal. Já Shane (Walton Goggins) é-nos apresentado como a pior personagem da equipa: menos violento mas mais mesquinho, não tem medo de levar a cabo os seus intentos, doa a quem doer. E nem mesmo o seu desespero no início desta temporada, que prontamente parece esquecido com o passar dos episódios, o consegue redimir. É preciso um grande actor para nos fazer odiar completamente uma personagem, e Walton Goggins conseguiu.

Mas porque esta temporada foi focada principalmente nas personagens secundárias, é interessante ver como se começam, lentamente, a fechar as várias histórias que estiveram presentes desde início. De Dutch a Billings, de Danny a Julian, de Wyms a Aceveda, nenhuma personagem foi esquecida e promete ter um final condigno. Espera-se o confronto final entre Dutch (Jay Karnes) e Billings (David Marciano), espera-se ver as vidas de Danny (Catherine Dent) e Julian (Michael Jace) finalmente resolvidas, espera-se que Wyms (CCH Pounder) consiga chegar ao final como a única personagem que não comprometeu os seus ideais, espera-se que Aceveda (Benito Martinez), novamente forçado a aliar-se a Vic quando ressurgem esqueletos do seu armário, consiga desvendar a conspiração.

Mas mais do que isso, em 2008 espera-se o confronto final desta excelente série policial.

I hope they catch you. I hope they do.
I hope everybody knows what you did.
You don’t get to do what you did for free.
You’re gonna pay that bill.