Boardwalk Empire S1

“You can’t expect to have everything”

HBO. Sinónimo de qualidade garantida e orçamentos milionários, de grandes séries com histórias intrigantes e personagens maiores do que a vida, de actores de renome com interpretações de nota. Casa de “The Sopranos, “Six Feet Under, “The Wire e tantas outras que deixaram o seu cunho na televisão actual. Quando a HBO anuncia um projecto, seja ele de que área for, toda a gente pára, escuta e olha atentamente para ver qual o próximo sucesso. E se nem sempre essa nossa atenção foi recompensada com as melhores histórias, com “Boardwalk Empire não haveria nada que enganar, certo?

Com o cenário fascinante de Atlantic City dos anos 20 em pano de fundo, só a ideia de ver reconstituída esta época de prosperidade entre guerras, de festas e diversão ao som dos ritmos frenéticos do jazz, de Lei Seca e de gangsters que crivaram de balas o seu lugar na história, garantia desde logo uma atenção redobrada na estreia. Juntando a isso o orçamento milionário, a escolha de um protagonista roubado ao cinema e a simples menção de Martin Scorsese para a cadeira de realizador do episódio piloto, estava garantido o sucesso de uma série que não conseguiria nunca desiludir. O problema… o problema foi que a desilusão acabou mesmo por chegar.

Não nos enganemos: a nível estético, “Boardwalk Empire” está ao nível do que de melhor se faz do lado de cá do Atlântico por bandas da BBC. O cuidado com que se fez a reconstituição de uma época, os toques realistas que se encontram um pouco por todo o lado, seja no guarda-roupa, nos adereços, na banda sonora ou nos magníficos efeitos especiais, que nos fazem transportar para a época em questão, são razões mais do que suficiente para ver, com atenção, esta série. Aliando a isso a abordagem – mesmo que leve – a alguns dos temas quentes da época, como foi o rescaldo da grande guerra, o racismo e o ressurgimento do Ku Klux Klan, com a ajuda de um sempre interessante Michael K. Williams ou a luta das mulheres sufragistas pelo direito de poderem ter uma palavra a dizer sobre os destinos do país ao mesmo tempo que continuavam a sofrer toda a espécie de violências dentro de casa, torna a série num intrigante documento sobre uma época. Mas se todo este visual, todo este “flash” deslumbra qualquer espectador, o que fica a faltar – a trama principal, as histórias secundárias, as personagens – sai a perder. Fica-se o “flash”, falta a substância.

Nucky Thompson (Steve Buscemi), tesoureiro de New Jersey, é o elemento à volta de qual gira esta história, um homem determinado que governa, com pulso firme, tudo e todos à sua volta, que não hesita em desfrutar dos maiores prazeres da vida, sejam eles comida, álcool, mulheres – muitas mulheres – ou dinheiro, mas que parece manter, ao mesmo tempo, uma consciência e um sentido de justiça que dele não esperávamos. Se a sua inteligência e astúcia, a forma como consegue manipular o jogo em que muitos se perdem, é aquilo que o distingue de todos os outros, é, no entanto, nos momentos mais calmos, quando expressa os seus sentimentos, cansaço e, talvez, alguma desilusão pelo estado da sociedade actual e da sua vida particular, que nos consegue verdadeiramente cativar. Já Jimmy Darmody (Michael Pitt), parece por vezes o oposto de Nucky, ansioso por fazer algo, dar sentido à vida pós-guerra mas que acaba, invariavelmente, por meter-se em confusões e causar vítimas inocentes. No entanto, é também Jimmy que mais vemos evoluir, especialmente a partir do momento em que parte para Chicago e trabalha com Al Capone (Stephen Graham), onde começa a revelar uma inteligência fora do normal e que é usada tanto para o bem, como para o mal, como vemos na vingança presente em “Anastasia“. Terceiro pilar da história, Margaret Schroeder (Kelly Mcdonnald) é talvez a personagem mais cativante, aquela que nos faz regressar, mesmo quando tudo parece em vão, a esta história, não só graças a uma excelente interpretação da actriz, apenas superada pela de Michael Pitt, mas igualmente devido à sua evolução ao longo da temporada, à forma como  se deixa, por vezes, enganar para rapidamente dar a volta por cima, à forma como consegue encontrar o seu caminho, mesmo quando este vai contra tudo aquilo em que sempre acreditou, como acontece em “Paris Green“.

Três protagonistas, três pontos de vista tão diferentes sobre uma mesma cidade, seriam já suficientes para criar uma história interessante. O problema é quando a estas história principais juntamos todas as outras histórias paralelas, que vão desde as tentativas do Agente Van Halen (Michael Shannon) de deitar abaixo a ordem instituída de Atlantic City e do seu líder, mas que acabam por o corromper da pior maneira em “The Emerald City“, à história sórdida da família de Jimmy, da mãe Gillian (Gretchen Mol) à esposa Angela (Aleksa Palladino), aos confrontos com Eli (Shea Whigham) ou até mesmo às lutas pelo controlo da cidade e da distribuição do álcool com os gangsters vizinhos, que tanto prometeram mas que, no final, deram em nada.

Como ouvimos dizer a certo ponto da história, não podemos esperar ter tudo. Não devemos esperar ter uma história irrepreensível aliada a grandes interpretações, juntar a isso uma grande produção e uma reconstituição fiel da história. Mas a verdade é que, tal como Nucky afirma veementemente, deste lado espera-se encontrar exactamente isso tudo. Espera-se que uma série deste calibre consiga mais, muito mais do que um simples atar de pontas soltas que nos deixa, ao chegar a “A Return To Normalcy“, com a sensação de que pouco ou nada aconteceu ao longo destes doze episódios que constituem a primeira temporada. E é por isso que esperamos que, no próximo ano, “Boardwalk Empire” consiga dar o salto que lhe permita alcançar as expectativas que nela depositávamos.

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