Life Unexpected S2

Era uma vez, uma menina de dezasseis anos, despachada e sem papas na língua que, depois de anos a ser atirada de um lado para o outro pelo departamento de menores, resolve procurar os pais biológicos para conseguir a sua emancipação mas que, afinal, depois de algumas voltas e reviravoltas, de avanços e recuos, lá acabou por encontrar um verdadeiro lar e a família com que sempre sonhou. Era uma vez, uma série que nos alimentou as esperanças, ao trazer de volta aqueles áureos anos da WB, que tão boas recordações deixaram. Era uma vez, uma série que muito prometeu mas que, infelizmente, pouco cumpriu.

Haverá coisa mais assustadora do que ouvir a produtora de uma série afirmar que “casais felizes são chatos”? Que o drama, as discussões e os dilemas amorosos são mais interessantes – mesmo quando repetidos até à exaustão – do que uma história que avança naturalmente? Aposto que não, daí que já estivéssemos todos de sobreaviso quando começou a segunda temporada de “Life Unexpected”. Mas mesmo assim, nada nos podia preparar para o que encontrámos. Nada nos podia preparar para histórias sem sentido, personagens que nada fazem, como Kelly (Amy-Price Francis) , ou que aparecem para criar dilemas e desaparecem sem deixar rasto três segundos depois, para voltas e reviravoltas que parecem copiadas de alguma telenovela da TVI (incluindo bebés indesejados e abortos espontâneos) e para um final tão ridículo, mas tão ridículo, que nos deixa com vontade de arremessar qualquer coisa à TV (ou atirar o computador ao chão, em alternativa).

Verdade seja dita, mesmo depois das declarações de Liz Tigelaar, ainda havia alguma esperança de que a temporada não fosse tão má quanto se adivinhava, mas a verdade é que basta o primeiro episódio “Ocean Uncharted” para percebermos que os nossos piores pesadelos se tornaram realidade. Se o triângulo amoroso de Baze (Kristoffer Polaha), Cate (Shiri Appleby) e Ryan (Kerr Smith) foi perdendo alguma importância com o avançar dos episódios, outras relações foram chegando, com maior ou menor importância, com maior ou menor interesse para a história. Paige (Arielle Kebbel) chegou, dormiu com Baze e, tirando o facto de queimar o bar devido a um cigarro mal apagado (alerta contra o perigos do tabagismo, portanto), nada mais contribuiu para a história. Melhor sorte teve Emma (Emma Caulfield), chefe de Baze no banco para onde este vai trabalhar depois do incêndio, que pelo menos parecia estar fora de todos estas complicações e que até conseguiu o impensável – fazer Baze crescer um pouco – mas que, infelizmente, como se veio a descobrir em “Stand Taken”, tinha uma ligação mais apertada do que o esperado à história. Finalmente, e se Cate se manteve algo a leste de confusões, excepto as frequentes discussões com a filha e um “vai-não-vai” sobre a pílula e uma possível gravidez que vieram a lume de forma já habitual em “Thanks Ungiven”, já Ryan resolveu contribuir com a sua quota parte de dramas, algo tão contrário à personagem que nos deixa a todos sem saber o que pensar. Para uma série que tinha uma premissa interessante, e que até prometia trazer momentos realistas de volta à TV, a confirmação que tivemos foi apenas de que o conceito de “manter as coisas interessantes” para a CW e para a produtora da série significatransformar estas personagens em seres humanos tão auto-destructivos, que sabotam conscientemente toda e qualquer oportunidade que tivessem de ser felizes. E isso, se é compreensível até certo ponto, não se torna aceitável ao ver a quantidade de erros, de mentiras e de dramas que a série apresentou em apenas treze episódios.

Mas porque quem sai aos seus não degenera, foi Lux (Brittany Robertson) a personagem que mais frequentemente nos fez ficar com vontade de abandonar definitivamente esta série. Dramas de adolescentes são normais, e quando bem feitos, podem até contribuir para nos mostrar um pouco de como vive o outro lado. Mas daí a propostas de casamento absurdas, acidentes de carro, problemas de aprendizagem devido a traumas reprimidos e a abusos físicos e sexuais, e um inacreditável romance com Eric (Shaun Sipos), um professor 7 anos mais velho, sem que seja alguma vez mencionada a questão da violação que isto representa, uma vez que a aluna em questão é menor de idade, é demais para uma série inteira, quanto mais para uma temporada tão curta quanto esta. Juntando a isto as frequentes discussões e sessões de gritaria, que só provam que um dos deveres dos pais, seja qual for a idade da criança em questão, é acabar com as birras com um bom par de estalos, e é de dar graças aos deuses a série ter tido aqui o seu final, antes que degenerasse ainda mais. Nesse sentido, e a todos os que tentarem ainda dar à série uma oportunidade, convém tentar ignorar o “epílogo” da história de “Affair Remembered”, com um salto de dois anos onde todas as relações sofrem (mais) uma reviravolta e que nos deixa com a certeza de que qualquer senso comum desapareceu há muito da cabeça dos produtores desta série.

Era uma vez uma história que, na primeira temporada, nos ajudou a relembrar os bons velhos tempos  de canais há muito extintos e que conseguiu gerar atenção suficiente para regressar com mais episódios. Pena é que, desta vez, essa nova oportunidade tenha sido totalmente desperdiçada.