Outcasts

Se há coisa que deixa qualquer um frustrado, é a capacidade que existe para esgotar histórias até à exaustão, para estragar uma série com inúmeros episódios desnecessários e tramas que nunca chegam a fazer sentido. Pão nosso de cada dia nas séries americanas, quando falamos em séries britânicas temos normalmente o prazer de ver séries curtas, com poucos episódios por temporada, mas que nos deixam, no final, com um sentimento de que todo o tempo investido valeu, realmente, a pena. E depois, é claro, temos “Outcasts“.

Com o lento, mas inevitável desaparecimento da ficção científica das nossas televisões, este novo projecto da BBC prometia animar um pouco quem é fã deste género televisivo. Contando com uma história há vários anos em desenvolvimento nos escritórios da BBC, com as paisagens maravilhosas da África do Sul a fazerem as vezes do planeta Carpathia, com alguns efeitos especiais interessantes e actores com qualidades reconhecidas no elenco, era de esperar que saísse daqui algo de bom. Infelizmente, o tiro saiu pela culatra e o que temos é uma série aborrecida, que nunca apresentou um rumo concreto para as suas trama, que deixa as personagens principais vaguearem de um lado para o outro sem grandes desenvolvimentos e que nunca se consegue afirmar.

Forthaven é uma colónia estabelecida no planeta Carpathia por humanos que fugiram da destruição nuclear do seu planeta. Situado a cinco anos de distância do planeta Terra, Carpathia tem uma população bastante variada, onde se incluem os “Expedicionários”, liderados por Mitchell (Jamie Bamber) e que parecem ser a antiga facção militar da expedição, os representantes civis, onde se encontram não só o presidente Richard Tate (Liam Cunnigham) mas também a chefe do Departamento de Segurança Stella Isen (Hermione Norris) e os (aparentemente) dois únicos polícias da zona Cass Cromwell (Daniel Mays) e Fleur Morgan (Amy Manson), bem como famílias em geral, com crianças pequenas a brincar descontraidamente por entre a areia da colónia. Há dez anos que a expedição se instalou neste planeta, e nesses dez anos nem tudo parece ter corrido de feição, especialmente no que a uma misteriosa doença diz respeito, doença essa que afectou várias crianças da expedição e que levou à tomada de medidas extremas.

Com uma premissa interessante, e vários mistérios lançados desde o primeiro minuto – estarão os colonos sozinhos neste planeta? Quem são os ACs, qual a sua relação com os Whiteouts, fenómenos meteorológicos estranhos que causam muitos danos, e com os Outros, os habitantes originais deste planeta? O que se passou na Terra e porque está Julius Berger (Eric Mabius) tão ansioso para tomar o controle da colónia? – “Outcasts” tinha tudo para vingar. Infelizmente o pior aconteceu. As tramas sem sentido sucedem-se; as personagens têm misteriosos diálogos sobre assuntos pouco concretos e que nunca chegam a ser esclarecidos, enquanto deambulam de um lado para o outro da colónia; a ameaça dos ACs e dos Outros, e mesmo a sua história passada nunca se concretiza, e o que sobra, ao fim dois oito longos – mas mesmo muito longos – episódios é a sensação de que se esteve a perder tempo e que não se chegou a lado nenhum.

Se as expectativas eram elevadas, especialmente para quem queria a ficção científica de volta ao ecrã, não foi, infelizmente, com “Outcasts”, que isso se concretizou. O cancelamento não foi, por isso, de estranhar, restando apenas a esperança de que melhores tempos venham para este género televisivo tão discriminado…

Dollhouse S2

“Com um universo já estabelecido e personagens mais ou menos desenvolvidas, a segunda temporada de “Dollhouse” tem tudo para melhorar. Esperemos apenas que o consiga fazer.”

Haverá algo pior do que sermos obrigados a engolir as nossas próprias palavras? A ver as nossas apostas e expectativas saírem furadas? A ver bons actores e tramas interessantes, diferentes de tudo o que por aí anda e, por isso mesmo, promissoras, serem completamente desperdiçadas? Certamente que não. E é por isso que mesmo volvido algum (muito) tempo sobre o final de “Dollhouse“, não há como deixar de ficar irritado com a constatação de que a aposta feita no final da primeira temporada estava completamente errada.

Não há margem para dúvidas: “Dollhouse” é o pior trabalho de Joss Whedon até agora. Conhecido pelas suas tramas interessantes, por uma escrita inteligente e mordaz e pelas personagens cativantes que representam, mesmo se dentro do género fantasia e ficção científica, um pouco de todos nós, é quase inacreditável ver a trapalhada que nos apresentou nesta série, episódio atrás de episódio, temporada atrás de temporada. Miraculosamente renovada depois dos fracos resultados junto das audiências americanas, e depois de um final de temporada muito excitante, que abria as portas a um ano mais regular, o que assistimos foi, desde logo, a um regresso ao que de pior tinha sido feito, aos casos da semana desinteressantes, que nem mesmo uma panóplia de convidados especiais conseguiam tornar melhores, como se viu em “Vows“, “Instinct” e “Belle Chose“. Quem começa mal dificilmente se endireita mas, surpreendentemente, a partir de “Belonging” tudo muda. Com uma história cativante de início ao fim, com grandes ligações ao que tínhamos visto na primeira temporada em “Needs” e interpretações irrepreensíveis de Sierra (Dichen Lachmann), Victor (Enver Gjokaj) e, surpreendentemente, de Topher (Fran Kranz), que teve na segunda temporada uma volta de 180º, tornando-se numa das mais fascinantes personagens, abria-se assim caminho a uma trama mais madura, mais concreta, mais em linha com aquilo que desta série esperávamos.

Se as inúmeras tramas secundárias provaram, na primeira temporada, ser o ponto fraco da série, foi quando se apostou no mistério principal, em desenvolver a mitologia que desde o primeiro momento nos tinha sido prometida, que “Dollhouse” se revelou. E o mesmo aconteceu nesta segunda temporada. A existência de outras casas espalhadas um pouco por todo o mundo e os jogos de poder que Adelle (Olivia Williams) tão bem dominava, a tentativa de revelação ao mundo da organização com a cumplicidade de November (Miracle Laurie) e, claro, a prometida viagem até ao sótão e aos seus mundos paralelos em “The Attic” e “Getting Closer“, expondo o plano de domínio do mundo que resultou no excelente “Epitaph One” da primeira temporada, deixaram alguma expectativa para o desfecho desta série. Infelizmente, a melhoria foi sol de pouca dura, pois toda esta história acabou por ter uma resolução sem pés nem cabeça que nem mesmo os regressos de Alpha (Alan Tudyk) e Whisky (Amy Acker) conseguiram salvar. A aposta em destacar sempre as mais fracas personagens, Echo (Eliza Dushku) e Ballard (Tahmoh Penikett), num desmascarar ridículo do vilão principal que deixa qualquer um com vontade de atirar com algo à cabeça de Whedon e num destruir de tudo o que o final da primeira temporada tinha conseguido com a sequela “Epitaph Two” transforma “Dollhouse” numa das séries mais frustrantes dos últimos anos, e confirma que quem tem telhados de vidro – mesmo aquele que, para muitos, não consegue fazer nada mau – não devia andar a atirar pedras. Afinal, para estragar uma série, nem sequer é preciso ir para o Japão feudal…

Fringe S1

“We think we understand reality, but our universe is only one of many.”

Fã que é fã de banda desenhada e ficção científica, não estranha nada que lhes ponham à frente. Saltos no tempo e no espaço, universos alternativos e realidades paralelas ou mesmo dias de futuros passados que nunca mais o serão, são ocorrências do dia-a-dia, umas mais bem exploradas do que outras, mas que nunca deixam de ser intrigantes. Assim sendo, e numa época em que a ficção científica tem cada vez mais dificuldade em se afirmar no ecrã, é bom saber que ainda há quem aposte nestes temas. Infelizmente, a coisa nem sempre corre bem… pelo menos de início.

Comparações inevitáveis feitas a “The X-Files“, aquela série mítica que permanece até hoje na memória de todos, “Fringe” sai claramente a perder: a premissa até pode ser interessante mas pouco original, especialmente quando se dedica, episódio atrás de episódio, a explorar o paranormal em histórias que começam, geralmente, de forma espectacular mas que terminam, invariavelmente, com um grande bocejo de desapontamento. A fórmula escolhida para os casos, com uma resolução que se prende quase sempre com qualquer coisa criada há anos atrás pelo cientista principal, o louco Walter Bishop (John Noble), é tão cansativa quanto a falta de expressividade da actriz principal, Anna Torv, com a sua Olivia Dunham, uma agente do FBI que, depois da morte do homem que ama, se vê envolvida numa rede de mistérios e experiências peculiares com consequências potencialmente perigosas. Se, a tudo isto, juntarmos uma corporação misteriosa que poderá, talvez, estar envolvida numa conspiração de alcance mundial e que não se importa de brincar com a vida humana, é caso para começar a pensar de que sombra irá sair o Cancer Man. Mas, de repente, tudo muda.

Se, dos vinte episódios que constituem a primeira temporada, apenas cerca de meia dúzia é realmente interessante, a partir do momento em que a história ganha uma direcção mais concreta, em que os casos da semana deixam de ser apenas aberrações para passarem a ter um potencial papel no “incidente” que se adivinha, a série consegue finalmente dar o tão necessário salto de qualidade.  “The Arrival“, com o primeiro destaque dado ao misterioso “The Observer” (uma brilhante piscadela de olhos aos acérrimos fãs de banda desenhada), deixa ver que há aqui material para construir uma mitologia interessante, e a mid-season finale consegue animar os ânimos durante breves segundos, mas apenas na recta final da temporada, quando segredos antigos são revelados, o papel de Olivia na guerra que se adivinha entre os universos se estabelece e se lançam as fundações para uma trama mais abrangente, a série consegue finalmente distanciar-se daquelas que desbravaram o caminho do paranormal no passado e deixar a sua marca.

Com uma primeira temporada penosa de seguir, personagens que alternam entre o muito bom, como é o caso de Walter, numa relação muito interessante com o filho Peter (Joshua Jackson), o sub-aproveitado, como o caso de Charley (Kirk Acevedo), Broyles (Lance Reddick) e Nina Sharp (Blair Brown) e o “o que é que estes ainda andam aqui a fazer?”, como Astrid (Jasika Nikole) e John (Mark Valley), quem tiver a paciência de aguentar até ao fim encontra em “Fringe” uma história interessante. A estrada até “There’s More Than One of Everything” é longa e cheia de curvas… mas no final a vista proporcionada é deveras interessante.

Flashforward


As expectativas são uma coisa lixada. Seja no cinema, nos livros, na banda desenhada ou na televisão, é quase impossível não ter expectativas relativamente a uma estreia, devido em grande parte à forma como a internet dissemina a informação mais depressa do que conseguimos (ou gostaríamos) de assimilar. Quando se trata da televisão, então, torna-se tudo ainda mais complicado, uma vez que a dependência da aceitação junto do público como forma de garantir a estabilidade de uma história continua a ser a regra, especialmente do lado de lá do oceano. Assim, não é de estranhar que ao aliar uma premissa interessante baseada numa obra conceituada, um elenco bem conhecido do público, produtores famosos e uma grande vontade de equiparar esta nova série a outros sucessos prestes a desaparecer, se tivesse formado um mega-hype à volta de “Flashforward“.

No dia 24 de Setembro de 2009, estreia a série “Flashfoward” na ABC, que conta a história de evento misterioso que faz toda a gente ter uma visão do seu próprio futuro, causando o pânico e a morte um pouco por todo o mundo. O que é esse evento misterioso, quem foi o misterioso responsável por ele, qual o mistério por detrás das visões que alguns tiveram e que outros, misteriosamente, não tiveram, quem é a figura misteriosa que, misteriosamente, ficou acordada durante o evento, e de onde surgiu o misterioso canguru são algumas das perguntas a que Mark Benford (Joseph Fiennes), extraordinário agente do FBI, vai ter de responder. Com a ajuda do seu parceiro Demetri Noh (John Cho) e da colega Janis (Christine Woods), vai então tentar desvendar este grande mistério e, quem sabe, tentar impedir que o futuro menos do que perfeito que viu se concretize.

Com tantos mistérios para resolver, e uma premissa por demais intrigante – afinal, será ou não possível alterar o futuro? Será que as nossas acções irão ter algum impacto e mudar aquilo que vimos ou, como defendem alguns, apenas criar uma espécie de futuro alternativo? – havia aqui muito pano com que trabalhar. Juntando a isso uns cliffhangers interessantes que a série fez questão de nos apresentar no final dos primeiros episódios, e era quase impossível não aderir ao burburinho.

No dia 27 de Maio de 2010, trezentos dias depois da grande estreia, o que resultou então de todo este hype, de todas estas especulações? Um segundo evento, em tudo igual ao primeiro (se bem que, desta vez, já não inesperado), mais visões de um possível futuro e… the end. Sim, é certo, a série foi cancelada quando o final da primeira temporada já tinha sido filmado, não havendo qualquer hipótese de dar uma explicação sobre os mistérios levantados ao longo da temporada. Sim, é certo que os produtores tinham pensado em cinco temporadas e que, por isso, é natural que a primeira fosse a temporada de apresentar personagens e de expor os mistérios que, num mundo ideal, iriam ser desenvolvidos ao longo dos anos. Sim, nós sabemos tudo isto. Mas isso não significa, no entanto, que aceitemos de qualquer maneira as grandes asneiras que a série foi fazendo ao longo da temporada e que culminaram neste cancelamento.

O que correu mal? Tudo! Personagens fracas que apenas se destacavam pela total incompetência que exibiam (o supra mencionado Mark) ou pela total inutilidade, como no caso da Penny de Lost Olivia Benford (Sonya Walger), que passou meia temporada a fazer olhinhos de carneiro mal morto e a tentar não trair o marido para, no final, se atirar a Jack de Coupling Lloyd Simcoe (Jack Davenport), o homem acusado de causar o evento, juntamente com o seu misterioso parceiro hobbit de Lord of the Rings Simon Campos (Dominic Monaghan), mas que afinal não foram os causadores do evento porque foi uma outra qualquer pessoa misteriosa que afinal morre antes de revelar que não era ele o lobo mau mas sim um outro que quando é capturado revela que ainda não era ele o lobo mau chefe mas sim outro e… Bom, foi qualquer coisa assim parecida, ninguém percebeu muito bem a história cheia de voltas e de reviravoltas e de tramas secundárias completamente indescritíveis, como a do médico que se ia suicidar mas que afinal já não o vai fazer porque teve uma visão da sua julieta e tem de ir até ao Japão à procura dela; isso e, é claro, a história do amigo do Mark, o homem das barbas que está sempre a chorar pela filha que morreu mas que afinal já não está morta, mas que é raptada e o pai vai para o Afeganistão à procura dela mas chega tarde porque ela morre mas depois, mesmo antes da série acabar – ou, se quiserem, trinta segundos depois de nos terem dito que está morta – descobre que afinal ela ainda estava a respirar e, por isso mesmo, ainda estava viva e… Confusos? Também eu… e acabei de descrever basicamente apenas o início e o final da série. Resta saber o que andaram a fazer nos restantes episódios!

Como dizia ali atrás, as personagens eram fracas, os diálogos piores ainda, e as tramas tão embrulhadas, mas tão embrulhadas, que nem mesmo um chinês teria paciência para tentar encontrar o fio à meada. As grandes questões – Poderá o futuro ser alterado? Quem criou o evento? O que é o evento? – essas, ficaram por explicar. Pois se nem sequer nos disseram o que significa o raio do canguru…

Trezentos dias depois do evento que deu origem a este “Flashforward”, o que sobrou para os espectadores foi uma mega-desilusão e a certeza de que se as expectativas elevadas tiveram alguma influência no nosso desagrado, foi sem sombra de dúvidas a direcção (ou falta dela) da história e das suas personagens que selou o destino a esta experiência. Lição aprendida, mais vale tentarmos, para a próxima, ignorar as expectativas que se estão a formar porque, como já deu para ver, a coisa vai, muito provavelmente, dar para o torto.

Heroes S4

Nada custa mais do que ver a morte inglória de algo que nos agrada, que nos deixa intrigados. Nada custa mais do que ver o desperdício desnecessário de algo que tinha potencialidades. Nada custa mais do que ver o poço fundo onde uma história consegue cair. Mas por muito que nos custe, chega o momento em que é preciso dizer “Basta!”. E esse momento chegou com o final da quarta temporada de “Heroes”.

Palavras para quê? Não há alegoria com a banda desenhada que consiga explicar aquilo em que esta série se tornou. Uma lufada de ar fresco no seu ano de estreia, trazendo finalmente da melhor forma para o pequeno ecrã a nona arte, contando com actores competentes, um orçamento decente e histórias intrigantes, quatro anos depois é impossível arranjar mais desculpas para o descalabro que se vê, semana após semana, na televisão.

Sem qualquer tipo de redenção, como nos prometia o título do quinto volume, o que encontramos ao longo dos longos, muito longos dezanove episódios que constituem esta quarta temporada, é mais do mesmo. Mais histórias embrulhadas, mais personagens adicionadas à pressão que não acrescentam nada à história, mais mortes efémeras, mais mudanças inexplicáveis de lado a cada dois ou três episódios, mais mistérios e promessas que, no final, não resultam em nada. Todo o ambiente do Carnival tinha potencialidades, e personagens como o misterioso Samuel (Robert Knepper) e a mulher das tatuagens Lydia (Dawn Olivieri) poderiam ter-nos conquistado, não fosse o facto de as suas histórias se perderem no meio de uma trama que nunca se conseguiu afirmar.

Do lado dos “heróis”, a confusão deixada pelo final do volume quatro não augurava nada de bom, mas certamente ninguém esperava que o caso Nathan/Sylar conseguisse bater tão fundo, deixando não só os actores Adrian Pasdar e Zachary Quinto à deriva, mas destruindo de tal forma o nosso interesse pela história, que nem uma morte mais do que anunciada conseguiu ter qualquer tipo de impacto. Juntando a isso o deambular do resto dos Petrelli pela história, especialmente de Peter (Milo Ventimiglia), que parece ter perdido a temporada inteira atrás de Emma (Deanne Bray) não se sabe bem porquê, a curiosa passagem de Claire (Hayden Pannetiere) pela Universidade, que se resumiu a praxes estranhas, uma suposta relação semi-lésbica com a colega de quarto Gretchen (Madeline Zima) e demasiadas conversas melosas com o papá Bennet (Jack Coleman), e a absolutamente inacreditável trama da doença fatal de Hiro (Masi Oka), que não tem qualquer tipo de justificação, temos a receita para o desastre.

Nada pior existe do que uma morte inglória. Nada pior é do que admitir derrota. Mas há que admitir que “Heroes” já não tem redenção possível.
 

Pushing Daisies S2

No panorama televisivo actual, onde se aposta em produtos certos, em sequelas, spin-offs, reimaginações e actualizações, as histórias diferentes perdem cada vez mais o seu lugar, relegadas para horários pouco atractivos ou canceladas sem dó, deixando em aberto tramas principais e secundárias. Talvez por isso soubéssemos desde o início que “Pushing Daisies” não iria ter vida fácil, mesmo com a crítica e o público a apoiá-la. Talvez por isso os meros nove episódios da primeira temporada e a interrupção a meio da segunda não nos surpreendessem verdadeiramente. Mesmo assim, e mesmo se “Pushing Daisies” nunca tenha deslumbrado, por estas bandas, tanto como deslumbrou por outras, a verdade é que o cancelamento desta pequena fantasia não deixa de ser injusto.

Com treze sólidos episódios que não só nos deram casos divertidos como o da morte misteriosa de uma freira em “Bad Habits” ou o de um assassinato num farol em dia de chuva em “The Legend of Merle McQuoddy”, mas também exploraram personagens que permaneciam misteriosas, como o regresso da família de Emerson Cod (Chi McBride) em “Water and Power”, e  trouxeram uma nova parceria entre este e Olive (Kistin Chenoweth), arrancando as maiores gargalhadas ao longo da temporada, e confirmando o estatuto destes dois grandes actores, foi sem dúvida quando se regressou ao mistério principal, ao poder de Ned (Lee Pace) e as suas consequências para todos, que a série se superou. E mesmo se o final abrupto de “Kerplunk” tenha interrompido a história principal, deixando um pouco em aberto as histórias dos pais tanto de Ned como de Chuck (Anna Friel), o facto de termos tido a oportunidade de regressar, por breves momentos, a Coeur d’Coeur já é uma bela prenda.

Diálogos brilhantes, personagens divertidas, situações inusitadas, cenários fantasiosos e um romance que não deixa ninguém indiferente, é assim que “Pushing Daisies” se despede de todos. A sua vida pode não ter sido longa, mas só pelo facto de trazer à vida personagens como as tias Vivian (Ellen Greene) e Lily (Swoosie Kurz), merece um lugar de destaque.

V + V: The Final Battle


Se há imagens que ficam guardadas na memória, são as da infância, aquela época em que tudo nos fascinava, em que tudo nos deixava de boca aberta a olhar para um ecrã onde não havia ainda muita escolha. E se há várias imagens que, deste lado, ficaram para sempre guardadas, nenhuma delas se compara ao revelar dos Visitantes na mini-série “V”.

Em plenos anos oitenta, um dia como tantos outros promete tornar-se no despertar de uma nova era. Gigantescas naves espaciais aproximam-se da Terra, colocando-se sobre as principais cidades do mundo. Dentro delas viaja uma raça extraterrestre, em tudo semelhante à humana, que procura amizade e ajuda para salvar o seu planeta da destruição. Belos, com os seus uniformes laranja e óculos de sol estilosos, e afáveis, estes visitantes prometem mudar a forma como vemos o universo e ajudar-nos a superar barreiras na medicina. Mas por detrás das suas máscaras sorridentes esconde-se um terrível segredo que poderá pôr em risco toda a humanidade. Das perseguições aos cientistas ao estabelecimento de um regime autoritário, das mortes e desaparecimentos misteriosos ao genocídio, este é um desafio que vai pôr todos à prova e mostrar que, apenas unidos, conseguiremos vingar.

Vinte e seis anos depois da sua estreia, é indiscutível que “V” e a sua sequela “V: The Final Battle” estejam datadas. As roupas e os penteados exagerados, os efeitos especiais e os diálogos forçados, os estereótipos e as caricaturas, muitos são os problemas que encontramos hoje nesta série e que, durante a nossa infância, passavam despercebidos. Mas se a idade não perdoa e muito do que aqui vemos se encontra datado, por vezes basta uma premissa interessante para conseguir manter uma história actual. Os anos passam, os regimes mudam, mas esta alegoria continua hoje tão actual como há duas décadas atrás.

Com uma história coerente e um crescendo de intensidade que nos conquista, a mini-série original é claramente o ponto alto da história, ilustrando a forma como é possível fechar os olhos aos perigos e aceitar tudo de mão beijada, traindo a sua própria raça, como no caso dos humanos Eleanor (Neva Patterson) e Daniel Berstein (David Packer). É o palco do maior desenvolvimento de personagens como Juliet (Faye Grant) e Donovan (Marc Singer), líderes da resistência que promete combater os Visitantes, do desvendar dos maiores mistérios, surpresas e reviravoltas. E, é claro, é o palco de uma das cenas mais marcantes de sempre da ficção científica, com a revelação da verdadeira identidade dos visitantes durante uma pequena pausa para o lanche da maléfica Diana (Jane Badler). Em apenas dois episódios, “V” consegue assim criar um mito que nem mesmo as sequelas conseguiram derrubar. Já “V: The Final Battle”, mesmo trazendo consigo alguns pontos interessantes, dando maior importância à resistência extraterrestre Fifth Column e ao seu líder, John (Richard Herd) e apresentando outra das cenas mais memoráveis de sempre, com o nascimento dos bebés de Robin (Blair Telfkin), nunca consegue alcançar o nível da sua antecessora e acaba por ter um final algo previsível e estranho, que mais tarde se veio a desvirtuar com a primeira temporada da série. Mas mesmo com estes problemas, mesmo com todos os defeitos que a idade trouxe à história, não há dúvida que esta continua a ser uma das mais interessantes séries de ficção cientifica que já passaram pelos nossos ecrãs e que vale a pena ver (ou rever).