Parks and Recreation S1

Numa época onde poucas são as séries que, independentemente da sua qualidade, sobrevivem aos impiedosos números das audiências, e que conseguem terminar a sua primeira temporada sem sobressaltos, “Parks and Recreation” é um modelo exemplar de que a primeira opinião nem sempre é a melhor, e de que por vezes insistir numa série vale a pena.

Sem sombra de dúvidas, a primeira temporada de apenas seis episódios de “Parks and Recreation” é fraca. A história até está lá: a vida de funcionários do governo local da pequena cidade ficcional de Pawnee, Indiana é explorada num “mockumentary”, um documentário fictício, onde se misturam cenas do dia-a-dia e do trabalho dos funcionários com entrevistas pessoais aos diversos intervenientes. No centro das atenções está Leslie Knope (Amy Poehler), vice-directora do departamento de Parques, uma mulher decidida, que acredita na importância do governo e que não irá desistir de melhorar a sua cidade por nada. À sua volta, o chefe Ron Swanson (Nick Offerman), que, ao contrário de Leslie, está-se pouco lixando para o governo e quer é que o deixem descansar em paz, os colegas Tom Haverford (Aziz Ansari), Jerry (Jim O’Heir) e Donna (Retta) e a estagiária April (Aubrey Plaza), uma adolescente que, como muitas outras, pouca paciência tem para fazer seja o que for.

Quando Leslie descobre que um gigantesco buraco por trás da casa de Anne Perkins, (Rashida Jones) uma enfermeira no hospital local, provocou um acidente ao namorado desta, Andy Dwyre (Chris Pratt), promete não parar enquanto não conseguir transformar o buraco num lindo parque. Para isso, irá contar com a ajuda relutante dos seus colegas, de Anne e de Mark Brendanawicz (Paul Schneider), um dos arquitectos do governo local, por quem Leslie ainda tem uma paixoneta.

Definido o objectivo, os episódios sucedem-se, procurando encontras formas de lidar com o problema. Se esta ideia de ter, desde início, um plano para a temporada foi interessante, a forma como a série se desenvolveu à sua volta e, especialmente, a forma como as personagens foram criadas, não foi a melhor. Leslie parece, muitas vezes, uma tontinha que não sabe o que faz, enquanto que Ron é mais competente do que parece. Anne é a mulher de circunstância, que apenas ali está para despoletar a acção, e a química entre Leslie e Mark é quase inexistente. Um começo pouco auspicioso, portanto. Felizmente, quem pega nesta série mais tarde tem, de certeza, já a indicação de que vale a pena perder duas horas a ver estes episódios mais fracos, para perceber como uma série pode ter umas fundações tão instáveis e, no entanto, transformar-se numa das melhores comédias actualmente em exibição. Só por isso, vale a pena dar-lhe uma segunda oportunidade.

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Episodes S1

“Rir é o melhor remédio.” Não haverá, certamente, ninguém que discorde desta expressão. Quando o stress do dia-a-dia se impõe, quando tudo parece correr mal, uma boa gargalhada é sem dúvida aquilo que mais nos consegue animar. Mas se rir é a melhor opção, a capacidade de rirmos de nós próprios não é para todos. Afinal, rir dos outros é mais simples do que identificar as nossas próprias falhas. Felizmente há quem não tenha este problema e aposte mesmo a sua carreira em divertir os outros gozando de si próprio. E é por isso que a nova estreia da Showtime, “Episodes”, foi uma boa surpresa na mid-season americana.

As aventuras (e desventuras) de Sean (Stephen Mangan) e Bev (Tamsin Greig), um casal de produtores britânicos que é contratado para adaptar a sua série de sucesso ao mercado americano, podem ter sido curtas para os padrões normais americanos, com uma temporada de apenas sete episódios, mas conseguiram trazer uma lufada de ar fresco às típicas comédias que do outro lado do oceano chegam graças não só a boas interpretações, argumentos sólidos, muitas situações inusitadas e cenas divertidas, mas também a uma ligação bem forte ao mundo real do desenvolvimento de séries actual nos Estados Unidos.

Recheada de personagens que parecem, de início, não ser mais do que estereótipos mas que, lentamente, se vão revelando, como é o caso de Carol (Kathleen Rose Perkins), que mostra uma profundidade muito inesperada a meio da temporada, e de outras que nos deixam sem saber o que pensar e como os classificar, como é o caso do protagonista Matt LeBlanc, que mostra aqui estar disposto a usar a sua própria vida e experiências pessoais para nos dar uma visão do que é o “verdadeiro” mundo de Holywood e que consegue quase fazer esquecer a personagem idiota de “Friends”, é sem dúvida a forma como a temporada parodia o mundo da televisão americano que mais cativa. A cada episódio, a cada cena, a cada concessão que os dois produtores tinham de fazer à sua história original devido a pressões do estúdio, desde alterar o título e a trama e mesmo a contratar um actor pouco ou nada indicado para o papel principal, identificamos todas as dúvidas, incertezas e desilusões que temos quando vemos a nossa série favorita percorrer o doloroso caminho das adaptações americanas, especialmente numa época em que os remakes insistem em não desaparecer. E se a comédia está garantida com a ajuda de personagens como Marc Lapidus (John Pankow) que, embora não saia do registo de caricatura, consegue mesmo assim ter deixas memoráveis, é também nos momentos mais sérios, como numa interessante conversa/batalha entre Bev e Matt e, mais tarde, entre Matt e Sean, que a série prova que mesmo dentro das comédias mais ou menos inusitadas, é ainda possível inserir cenas que nos fazem pensar.

Com a renovação já garantida, é com grande prazer que se espera por mais aventuras de Bev, Sean e Matt, nesta britcom tão americana.

Californication S3

“Happiness. I’ll be happy. Finally.”

Se há série que mais discórdia causa, que mais divide os espectadores e que tanto vai parar à lista de favoritas como de odiadas, é “Californication”. E a explicação é simples: esta não é uma série obrigatória, das que se recomenda a todas as pessoas e que figura inevitavelmente nas listas de melhores do ano. Muito pelo contrário: é uma série que requer uma mente mais aberta, algum à vontade com o deboche gratuito e muita paciência para aguentar as situações mais inusitadas, em busca dos momentos mais calmos, mais sérios, mais reais. “Californication” não é uma série que ofereça um retrato muito fiel da sociedade, preocupando-se mais em divertir o espectador com as situações inusitadas em que se metem as suas personagens do primeiro ao último episódio. E isto é, por vezes, o grande problema que apresenta.

Depois de um regresso algo desapontante mas não inesperado ao ponto de partida, “Wish You Were Here” deixa desde logo antever que pouco irá mudar por estas bandas, mesmo com desafios algo diferentes. Depois de diversas tentativas falhadas de escrever, que muitas dores de cabeça dão ao seu agente, Hank (David Duchovny) acaba por arranjar emprego como professor de escrita criativa num colégio privado, prometendo ajudar a formar (para o bem e para o mal), as mentes dos jovens californianos. Se no trabalho os desafios são muitos, e a sua atenção promete ser desviada por três belas mulheres que o perseguem incessantemente – Jill (Diane Farr), a assistente, Felicia (Embeth Davidtz), a directora, e Jackie (Eva Amurri), a aluna -, já em casa é Becca (Madeleine Martin) que começa, curiosamente, a causar alguns distúrbios próprios da adolescência. E, no meio de tudo isto, por entre as conquistas e os engates, não se esquecem as saudades pela mulher ausente, a única que verdadeiramente ama e com quem quer viver feliz: Karen (Natascha McElhone).

Quem se predispõe a ver “Californication” está desde logo preparado para hilariantes histórias, grandes diálogos, monólogos bem escritos e muita, muita diversão. Não estranha, por isso, a chegada e partida de personagens curiosas, algumas mais marcantes do que outras, como é o caso de Sue Collini, numa prestação profundamente assustadora de Kathleen Turner, e que tantas situações absurdas cria ao longo da temporada, para grande desespero de Charlie (Evan Handler). Não se assusta, também, com as cenas mais estranhas de “Sozo“, ou mais absurdas como o ridículo duelo que opõe Hank ao reitor Stacy Koontz (Peter Gallagher) por uma honra há muito perdida em “Comings & Goings“. E até consegue tolerar, de certa forma, a irritante história que continua a marcar presença em todas as temporadas, de Charlie e os seus dilemas amorosos com Marcy (Pamela Adlon). Mas é quem dá uma maior oportunidade à série, quem passa por cima destas suas características que acabam, por vezes, por constituir também alguns dos seus defeitos, que se surpreende com uma história diferente, mais profunda, que nos consegue fazer pensar. Se é nos momentos mais hilariantes que a série se destaca, como no brilhante “The Apartment“, que respira loucura em todos os segundos, ou nas cenas onde a retórica e a escrita inteligente se tornam mais proeminentes, como acontece em “So Here’s The Thing…“, em que Hank se tenta livrar de todas as mulheres que o perseguem para ficar só com a que ama, é nos momentos mais calmos, onde se renova uma amizade entre velhos amigos num simples sofá ou numa noitada pela rua fora, como acontece em “Dogtown” e, especialmente, num surpreendente “Mia Culpa“, em que fantasmas do passado regressam para tudo destruir uma família que tanto lutou para ficar junta mas que irá, muito provavelmente, ficar perdida agora, que a série se supera.

“I’m not the man they think I am at home.” Com uma temporada mais inconstante que as anteriores, mas um final perfeito do início ao fim, graças à alegoria tão bem criada que não consegue deixar ninguém indiferente, onde se destacam as ninfas na água, a inépcia do Hank, a conversa entre Hank e Becca e, especialmente, o confronto final entre Hank e Karen ao som de uma das músicas preferidas deste cantinho, não há dúvida de que “Californication” continua a ser uma das séries mais aguardadas todos os anos, e que merece o seu lugar entre as favoritas desta casa.

United States of Tara S2

“Do you know what today is? Today is my bullet train to a new life.
They’re normal people. And they’re making room in their normal-people group photos… For me.”

Estreias auspiciosas há muitas: aquelas que nos cativam, que prometem trazer algo de novo e marcante à televisão e que nos deixam na expectativa de algo infinitamente melhor no ano seguinte. Infelizmente, poucas são as vezes que o regresso consegue alcançar o feito do original. Mas porque, mesmo assim, ainda há excepções à regra, a segunda temporada de “United States of Tara” provou que não só é possível manter o nível de qualidade da história, dos diálogos e das interpretações de todo o elenco, como por vezes consegue-se mesmo superá-lo.

Tendo por tema da temporada as memórias, aquelas que se tentam esconder e as que se tentam criar, sentimos desde logo que a tranquilidade aparente de “Yes” não poderia durar muito. Desde o primeiro momento, desde a primeira visão que temos de toda a família reunida a deitar fora as memórias de vidas passadas que fica claro que a nova tranquilidade, conseguida à custa de uma combinação de medicamentos, não poderia durar, que as desordens de Tara (Toni Collette) podiam estar adormecidas, mas não desaparecidas para sempre. Talvez por isso, o regresso dos alters fosse algo esperado. Já a forma como isso acontece, como a relativa paz da família é quebrada com o regresso de Buck não por eventos internos, mas devido a um suicídio estranho na casa ao lado, levanta mais questões que permanecem por esclarecer.

Por entre avanços e recuos, alegrias e tristezas, confusões e reencontros, o evento que despoletou o transtorno dissociativo de identidade de Tara, e que há tantos anos marca esta família, começa lentamente a revelar-se, com a ajuda de pequenas pistas que nos levam, de forma inesperada, a revelações surpreendentes. A relevância da casa do vizinho pode permanecer por esclarecer, mas com a chegada da terapeuta Shoshanna em “You Becoming You“, um novo alter de Tara que, ao contrário dos restantes, parece estar ali para ajudar toda a família, o mistério principal ganha novo fôlego e as revelações não se fazem esperar. Primeiro no espectacular “Torando!“, onde à música se sucedem as lágrimas, à dança o terror, e o papel de Charmaine (Rosemarie DeWitt) em toda esta história começa a ser cada vez mais evidente, depois na visita inesperada a uma velha conhecida que desperta rancores antigos em “To Have And To Hold“, e terminando com o confronto final  em “From This Day Forward“, no que deveria ter sido um dos dias mais felizes para a família mas que acaba envolto em lágrimas, a mistério de Tara e da sua doença fica assim, se não totalmente esclarecido, pelo menos algo resolvido, e promete trazer mais emoções na próxima temporada.

Se a trama principal da temporada conseguiu mostrar o que de melhor esta série tem – uma história cativante com personagens fascinantes e interpretações de nota – , conseguindo mesmo dar a Charmaine, personagem por vezes irritante mas que tem, no fundo, algo mais para contar, uma maior dimensão, já as histórias secundárias acabaram por prejudicar a evolução da temporada. A facada no matrimónio por parte de Max (John Corbett), devido a um crescente desespero e desejo de vingança, é de certa forma compreensível, tais como as tentativas de Marshall (Keir Gilchrist) de encontrar o seu lugar no mundo e de se sentir bem na sua pele, que o levam a primeiro experimentar o lado oposto, antes de finalmente decidir assumir as suas preferências e encontrar – esperamos nós – alguém que partilha dos seus sentimentos. No entanto, e tal como na primeira temporada, é a história de Kate (Brie Larson), primeiro no gabinete de colectas, depois com a estranha amizade com Lynda (Viola Davis) e a criação da do alter-ego princesa Valhalla e terminando com o novo (e, mais uma vez, muito estranho) namorado, que acaba por sugar grande parte do interesse aos episódios, e deixar-nos com a vontade de ver terminado o suplício. Mas porque é à volta de Tara que tudo gira, porque a série continua a apresentar grandes interpretações e porque consegue, mesmo com alguns pontos mais fracos, surpreender-nos a cada episódio, é possível afirmar que “United States of Tara” continua a ser uma das séries favoritas da mid-season americana e que se aguarda, com expectativa, mais aventura da família Greggson.

Skins S1-2

“Look around, Sidney. This is a shitty little town. You’ve got to improvise”

Adolescência: a fase do desenvolvimento da vida humana que faz a transição entre a infância e a vida adulta é também uma das mais complicadas. Quando a razão parece desaparecer, os dramas se exacerbam e a rebelião é presença contínua, nada mais há a fazer do que esperar que a neura passe. Todos nós passámos por ela, todos os outros a irão viver. Talvez aí se encontre então a explicação para a proliferação, desde sempre, de séries “teen”. Mas provando que nem todas as séries “teen” são iguais, “Skins” é mais uma bela surpresa que chega de terras da sua majestade.

Na cidade inglesa de Bristol, um grupo de amigos vê a vida passar entre as aulas, os trabalhos de casa, as festas, a música, as drogas, o álcool e muito, muito sexo. Adolescentes como muitos outros, mas também especiais, individuais: Tony (Nicholas Hoult), belo, sempre em forma, arrogante, o líder a quem a vida corre sempre de feição, Michelle (April Pearson), a namorada sempre disponível para ajudar, que apenas quer ver retribuída a sua afeição e Sid (Mike Bailey), o melhor amigo de Tony que quer perder a virgindade, seja com quem for, mas de preferência com Michelle. A eles juntam-se Jal (Larissa Wilson), música em formação e a mais comedida do grupo e Chris (Joe Dempsie), o mais extrovertido, sempre metido em apuros com uma passa em cada mão, Maxxie (Mitch Hewer), que sonha em dançar e não tem medo de gritar aos quatro ventos a sua homossexualidade e o melhor amigo Anwar (Dev Patel), dividido entre as festas e os deveres impostos pela cultura a que pertence, a enigmática Effy (Kaya Scodelario), irmã mais nova de Tony e a inesquecível Cassie (Hannah Murray), com uma personalidade tão exuberante quanto a gaveta de comida que esconde debaixo da cama. Adolescentes que representam, cada um deles, um estereótipo mas que, com o passar dos episódios, se vão transformando em algo mais.

Alternando entre a comédia negra e o drama, entre os exageros e os momentos mais introspectivos, “Skins” não é uma série de fácil consumo, mesmo para públicos mais abertos como o europeu. A comédia de situação nem sempre funciona, as ideias mais rebuscadas, presentes em histórias tão sem graça como a viagem à Rússia de “Maxxie and Anwar” ou a obsessão de “Sketch” tornam-se, por vezes, cansativas, e o sentimento de catástrofe que impera, a partir de certo ponto, na segunda temporada, de que tudo o que de pior poderia acontecer, acontece, torna-se fatigante e, também, pouco credível. Mas quando pomos de lado estes defeitos, quando deixamos passar algumas situações mais ridículas ou alguns dramas amorosos mais repetidos, encontramos verdadeiras pérolas que nos fazem acreditar que sim, mesmo dentro das histórias de adolescentes, é possível fazer algo de muito bom. Se “Tony“, na primeira temporada, nos deixa algo de pé atrás ao apresentar o mau caminho que esta série poderia ter escolhido, já “Cassie“, o episódio que o segue, prova que as primeiras impressões estão erradas e dá-nos a conhecer a personagem mais cativante de toda a série, aquela cujo destino mais acaba por nos marcar. Da mesma forma, se “Tony“, na segunda temporada, nos deixa de boca aberta pelos piores motivos, já “Jal” e a sua continuação “Cassie” são um verdadeiro murro no estômago, deixando quem seguiu a vida deste grupo de amigos sem saber como reagir.

Com uma primeira temporada mais auto-contida, e uma segunda menos conseguida mas que nos traz, ainda assim, alguns dos melhores momentos desta primeira geração, como é o caso de “Maxxie and Tony” e os episódios referidos em cima, “Skins” é, sem dúvida uma série a que vale a pena dar uma oportunidade, sem preconceitos ou recriminações.

Entourage S7

“Look, you got what you wanted, I’m officially out of control.”

Como é que sabemos que o Verão, finalmente, chegou? Não é quando viramos a folha do calendário, nem quando começamos a ver Alfama decorada, muito menos quando o calor marca presença. Não, o verão chega quando os nossos guilty-pleasures televisivos se anunciam na TV. E entre esses, nenhum bate “Entourage”. O problema… o problema é quando o inverno se abate sobre os mesmos.

Depois de uma sexta temporada com altos e baixos, com boas histórias e desenvolvimentos interessantes de personagens pouco trabalhadas até então mas, também, com histórias que prometeram, prometeram e nunca deram em nada, esperava-se que a sétima (e penúltima) temporada desta série conseguisse pegar no que de melhor para trás tinha ficado e encaminhasse, definitivamente, a história no bom sentido. Infelizmente, provando que as nossas expectativas, quanto maiores são, mais furadas saem, o que tivemos foi uma temporada exasperante e que conseguiu mesmo destruir muito do que de bom para trás tinha ficado. No cerne da questão… Vince (Adrian Grenier).

Logo a abrir em “Stunted“, e porque, em Hollywood, tudo chega mais cedo, a crise da meia-idade instala-se em Vince depois de um acidente no set de filmagens. Tema aberto para a temporada, o que se seguiram foram nove episódios em que assistimos à lenta caída de Vince numa espiral de auto-destruição. Que Hollywood é uma Meca para histórias de actores que passaram pelo mesmo, já nós sabíamos. Mas que, com tantos exemplos onde ir buscar histórias para complementar esta “fase” de Vince, tenham escolhido “Vince resolve regressar aos tempos de criança a fazer birras e a bater com o pé no chão” é desanimador. Dar protagonisto à “estrela” da série que, na verdade, sempre esteve em segundo plano podia ter sido uma boa oportunidade de desenvolver uma personagem que sempre nos pareceu muito supérflua nesta história. O problema surge, no entanto, quando se aliam situações pouco interessantes a interpretações sofríveis, não só do actor principal mas também de Sasha Grey, uma estrela de filmes pornográficos contratada para fazer de sua namorada mas que, infelizmente, de actriz nada tem, e a uma dificuldade em fazer com que as acções e as tomadas de posição tenham consequências futuras. Explorar o lado mais “sério” e “real” da vida das grandes estrelas de Hollywood teria sido uma uma forma muito interessante de revitalizar esta série, mas ao fazerem as acções de Vince, fossem elas nas entrevistas de emprego, nas reuniões com os estúdios ou simplesmente na vida por entre a sociedade de Hollywood, não terem consequência alguma até ao desfecho final em “Lose Yourself“, retirou credibilidade à história. E isso, infelizmente, não é o que se quer… seja em que tipo de série for.

Mas porque o mal não se ficou apenas por uma aldeia, a sétima temporada de “Entourage” conseguiu, também, destruir tudo o que de bom se tinha feito por Turtle (Jerry Ferrara) na temporada anterior, fazendo-o regredir à personagem sem rumo do passado e, pior ainda, oferecendo-nos uma desinteressante história sobre tequilla que apenas bocejos consegue arrancar do espectador. Já Eric (Kevin Connolly), longe dos dilemas amorosos do passado, vai planeando o seu casamento e acaba remetido quase a personagem secundária, apenas ganhando algum interesse quando, numa reviravolta interessante, um fantasma do passado surge: Billy Walsh (Rhys Coiros).

Se todos estes pontos negativos fazem qualquer fã da série desesperar houve, mesmo assim, algo para alegrar e dar alento de um final condigno para a mesma no próximo verão. Os nomes, esses, são sempre os mesmo: Ari (Jeremy Piven) e Drama (Kevin Dillon), duas personagens tão diferentes, em pontos tão opostos da sua vida mas que acabam, ao longo da temporada, por inverter papéis. Sempre sem trabalho, Drama desespera de início, mas com a chegada de Billy Walsh poderá ter encontrado o seu verdadeiro caminho na animação. Já Ari, esse, começa em alta, dono do mundo, mas devido a jogos de poder com uma velha inimiga e à determinação de uma (ex-)funcionária, poderá ter posto tudo a perder, tanto na vida profissional como na pessoal. Elementos de destaque em todas as temporadas, especialmente na parte da comédia, como por exemplo em “Tequilla Sunrise“, onde Drama tenta convencer um velho rival a ser o co-protagonista de uma série, ou a explosão mais do que anunciada de Ari em “Sniff Sniff Gang Bang“, continua a ser nas cenas mais dramáticas, mais pessoais, mais sinceras, como a sentida declaração de Drama à secretária de Eric, ou o pedido sincero de uma nova oportunidade de Ari à mulher, que os dois se destacam.

Com boas ideias, boas histórias e sempre com aquele pezinho de crítica à sociedade que desde início marcou a série, esta poderia ter sido uma temporada de destaque de “Entourage”. Infelizmente, o que nos ofereceram foi, apenas, mais do mesmo. E isso, infelizmente, já não chega para nos satisfazer.

Terriers

“Aw, we’ve been in worse situations.
I can’t think of any off the top of my head, but they’re there.”

Todos os anos, por entre as dezenas de estreias que surgem na nossa televisão, há aquelas que passam despercebidas, que nascem, crescem e morrem sem que ninguém dê por isso. E se esse é um percurso inevitável da vida televisiva, há algumas que custa mesmo – mas mesmo muito – perder. “Terriers” foi, em 2010, uma delas.

A vida de um ex-polícia, Hank Dolworth (Donal Logue) e de um ex-ladrão, Britt Polack (Michael Raymond-James), detectives privados em San Diego, vai mudar para sempre no dia em que recebem um pedido de um amigo de Hank: encontrar a filha desaparecida deste, que se meteu com quem não devia na alta roda da cidade e parece estar em apuros. Por entre dinheiro e perseguições, mansões e chantagens, estes dois detectives privados não oficiais, que não primam pela competência ou pela astúcia mas que compensam em determinação, vão ver-se envolvidos numa conspiração que poderá pôr em risco tudo e todos os que os rodeiam, e que irá pôr à prova a sua perseverança.

Com o cenário descontraído de San Diego a dar o tom à série, sucedem-se os típicos casos da semana que já se tornaram cliché neste género de histórias, como a recuperação de itens roubados de “Ring-A-Ding-Ding” ou as provas de infidelidade de “Change Partners“, casos que podem, de início – e mesmo com os diversos twists mais negros -, não cativar, mas que se revelam, devido a uma escrita inteligente e a diálogos contundentes, um bom acompanhamento para o prato principal da série: a história de Robert Lindus (Christopher Cousins) e das falcatruas em que este se envolveu, uma história que nos acompanha desde o primeiro, mais ligeiro episódio, e que parece por diversas vezes encerrada, até ao final da  temporada (e da série).

Se a trama principal da série tem, nestes treze episódios, uma evolução perfeita, desde as primeiras menções, às pistas lançadas nas diversas histórias secundárias, ao crescendo de intensidade em “Quid Pro Quo” e ao desfecho final em “Hail Mary“, proporcionando uma experiência gratificante, são sem dúvida as personagens que nos conquistam desde o primeiro momento e que nos fazem passar por cima de algum momento menos bom que possa existir. A cumplicidade que vemos no ecrã entre os protagonistas e que tão boas recordações nos deixa, é reflexo de uma verdadeira amizade fora do ecrã, e estende-se mesmo a personagens secundárias como a problemática Steph (Karina Logue), irmã de Hank dentro e fora do ecrã, ou a Katie  Nichols (Laura Allen), personagem que em outras séries poderia ser a típica namorada irritante mas que aqui se revela uma mulher complexa, ciente das suas escolhas e da pessoa com quem partilha a sua vida, capaz de nos surpreender tanto pela positiva, com um pedido mais picante, como pela negativa, ao cair em tentação. E mesmo se Gretchen (Kimberly Quinn) nunca tenha conseguido afirmar-se, e o detective Gustafsson (Rockmond Dunbar) pudesse ter tido mais destaque nas poucas (mas excelentes) cenas em que o vimos, a certeza permanece de que uma série que nos traz episódios como “Asunder“, onde os papéis se invertem num piscar de olhos, onde o desespero se transforma em determinação e a felicidade em tristeza, prova que mesmo num género já por demais esgotado ainda é possível fazer algo de bom.

“So what do you say, partner. Which way will it be?” O final pode ter chegado mais depressa do que esperávamos, deixando-nos desde logo cheio de saudades de Hank e Britt. Mas pelo menos fica a certeza de que esta é uma série que vale a pena ver (e rever).