North and South

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“I believe I have seen hell and it’s white, it’s snow-white.”

Na Inglaterra vitoriana, o sul campestre e aristocrático vai entrar em confronto com o norte industrial quando os Hales se vêm obrigados a mudar para a dura, fria e escura Milton. Daniela Denby-Ashe é Margaret Hale, uma jovem da classe alta que procura, com alguma relutância, deixar o idílico e pastoral mundo de Helstone e adaptar-se à nova vida numa cidade industrial do norte. Estranha aos costumes, regras e dramas sociais próprios de uma nova realidade, Margaret tem alguma dificuldade em compreender este mundo e aceitar os seus habitantes, especialmente os severos industriais, que governam as fábricas locais com mão de ferro. Mas o que começa como um mútuo desdém entre estas duas Inglaterras, norte e sul, vai transformar-se numa clássica história de amor entre Margaret e John Thornton (Richard Armitage), que irá superar todos os obstáculos e preconceitos.

Conhecendo uma obra original, é difícil apreciar verdadeiramente adaptações à mesma. Raras são as histórias que permanecem fiéis à obra escrita, que conseguem alcançar a sua beleza, que transmitem verdadeiramente as suas emoções. Felizmente a BBC é sinónimo de qualidade, e mais uma vez consegue criar uma bela série de época com este “North and South.

Se, ao bom estilo da sua contemporânea Jane Austen, Elizabeth Gaskell conseguiu com Margaret e Thornton criar dois ícones da literatura inglesa, é através da adaptação da BBC que as personagens ganham uma nova vida, provando que os dois meios de difusão não são mutuamente exclusivos mas que podem mesmo acabar por se completar. Muito embora a Margaret da série seja mais forte, mais determinada, menos preconceituosa, e a actuação de Armitage tenha marcado para sempre Thortnon, a história original permite compreender melhor a motivação de algumas personagens, esclarecendo as razões das escolhas de Richard Hale (Tim Pigott-Smith) e a paixão de Thornton, desenvolvendo mais profundamente o contexto histórico em que se insere.

Pelos olhos de Margaret do livro descobrimos a paisagem industrial de inícios do século XIX, uma época de mudanças e de desigualdades, de lutas sociais e laborais entre mestres e sindicatos – ficamos a conhecer a exasperante Fannie (Jo Joyner), o determinado Higgins (Brendan Coyle), a pobre Bessy (Anna Maxwell Martin), a impressionante Hannah Thorton (Sinéad Cusack); mas é através da série, com a sua magnífica fotografia, cores, cenários e banda sonora, que Milton se reimagina, que uma simples fábrica de algodão se transforma num encantador globo de neve.

Muito mais do que uma simples história de amor, North and South é uma adaptação imperdível da BBC, recheada de momentos arrebatadores, capazes de derreter até os corações mais cínicos. Em suma: mais uma grande sugestão das meninas das luzes.

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Bleak House

O interesse pelas séries históricas está a despontar um pouco por todo o mundo, recebendo algumas delas valores de produção que não ficam atrás de qualquer blockbuster de Hollywood. Mas para conseguir oferecer um bom produto é preciso mais do que dinheiro: é preciso respeitar uma época, construindo histórias e personagens credíveis que consigam transportar-nos para uma realidade diferente até ao momento dos créditos finais. E nisso a BBC é especialista.

Nesta adaptação do clássico de Charles Dickens, uma batalha legal interminável por causa de um testamento irá mudar para sempre a vida de três jovens que procuram o seu lugar no mundo. Com um elenco extenso, que inclui pequenas aparições especiais de vários conhecidos actores britânicos, personagens excêntricas e surreais e um mistério que se desvenda ao longo dos episódios, “Bleak House” consegue cativar-nos do primeiro ao último minuto, mesmo quando nos deixa adivinhar a imagem final do puzzle.

O longo processo de Jarndyce vs. Jarndyce, que está no centro da história, é apenas um recurso para explorar a decadência da sociedade vitoriana, onde a corrupção, a violência e a morte andam de braços dados com a escalada social e o abuso do poder. De um lado Smallweed (Phil Davis), Tulkinghorn (Charles Dance), Krook (Johnny Vegas); de outro Allan Woodcourt (Richard Harrington), John Jarndyce (Denis Lawson) e os seus protegidos Ada (Carey Mulligan) e Richard (Patrick Kennedy). Esta divisão entre bons e maus, tão simplista nos dias de hoje, funciona bem se aceitarmos que faz parte de uma época que está a ser aqui satirizada. Talvez por isso nesta história os maus sejam mesmo maus, e os bons, incrivelmente bons.

Se Anna Maxwell Martin, no papel da heroína Esther Summerson, consegue apaixonar qualquer um, o grande destaque da série tem de ser dado a Gillian Anderson, irreconhecível no papel da fria Lady Dedlock, uma mulher com um segredo escondido que voltará para assombrar a sua vida. Nas suas (poucas) falas consegue sentir-se o desespero e resignação pelos erros do passado, mas são as suas poses e olhares soturnos, complementados por uma maravilhosa direcção artística, que separam esta série de outras excelentes adaptações literárias.

Provando que servir de correio entre duas cidades tem as suas vantagens, Bleak House foi mais uma boa surpresa da BBC, e deixa um gostinho para experimentar outras.