The Inbetweeners S1-2

“You’ve had an eventful day bunking off school, buying alchool illegally, defacing Carly’s drive and insulting Neil’s dad, have i missed anything?”

Se, por estas bandas, a aversão às séries teen já é sobejamente conhecida, a verdade é que o mesmo não acontece com as suas congéneres inglesas. Há qualquer coisa deste lado do oceano que faz com que as séries se tornem mais reais, com que as personagens e as situações sejam mais próximas das nossas – mesmo quando, na verdade, se encontram em campos totalmente opostos. Ou, talvez, a razão se prenda única e exclusivamente com um nome: Adrian.

“O Diário Secreto de Adrian Mole com 13 anos e 3/4” e todos os diários que se seguiram são um marco na vida de toda a geração dos anos 70 e 80, uma oportunidade sem igual de entrar na mente do “inimigo”, para tentar saber o que lhes vai pela alma. Através das divagações de Adrian sobre a vida, a amor, o sexo, as pernas da Lady Di e as orelhas do Príncipe de Gales, era possível acompanhar o crescimento de um jovem que, tal como muitos outros, procurava apenas encontrar o seu lugar no mundo. As meias vermelhas em desafio ao director do colégio, as atribulações amorosas de toda a família Mole e, especialmente, o amor por vezes (ou talvez não) correspondido por Pandora Braithwaite, ficaram gravadas para sempre.

Duas décadas depois, a sociedade inglesa pode ter, inevitavelmente, evoluído, as histórias e os problemas caminhado numa outra direcção, os anos Thatcher há muito substituídos pelos de Blair e por todos os que os seguiram. Mas algo permanece, sempre, igual: boys will be boys. Talvez por isso, “The Inbetweeners” tenha representado mais uns dias com muitas gargalhadas.

Hilariante, crude, sem qualquer pudor, esta é a história da vida de quatro adolescentes de uma qualquer pequena cidade inglesa, iguais a tantos outros adolescentes por todo o mundo. Will McKenzie (Simon Bird) é o recém chegado, antigo menino de colégio privado que, depois do divórcio dos pais, se vê obrigado a começar de novo numa escola estatal, onde rapidamente se mete em apuros com o director e com os colegas mais fortes. Obrigado a fazer uma escolha, agarra-se ao único grupo que o aceita: Simon Cooper (Joe Thomas), com a sua paixão assolapada por Carly, Jay Cartwright (James Buckley), que apenas pensa com a “outra” cabeça, e Neil Sutherland (Blake Harrison), que consegue ser ainda mais estranho que todos os outros amigos juntos. Desprezados pelos grupos de colegas mais populares, e demarcando-se dos nerds, a vida destes quatro amigos que tentam sobreviver à adolescência é o tema de mais uma britcom que vale a pena descobrir.

Gavin and Stacey S1-3

“Boy meets girl”. Assim começam muitas histórias de amor, com uma trama simples mas intemporal que não deixa nunca de nos cativar. E é exactamente isso que nos prova “Gavin & Stacey“, mais uma britcom a homenagear neste cantinho.

Reza a lenda que da vizinha Espanha nem bons ventos nem bons casamentos, mas em Inglaterra isso parece ser diferente. Pelo menos é o que descobrem Gavin Shipman (Matthew Horne), um inglês dos subúrbios de Essex, e Stacey West (Joanna Page), uma rapariga da pequena cidade de Barry, no País de Gales. Depois de alguns meses de namoro pelo telefone, o amor à primeira vista fica consolidado com um encontro em Londres, e à amarga despedida segue-se a doce reunião. “E viveram felizes para sempre”, podíamos dizer. Mas será mesmo assim?

“Boy meets girl. Boy loses girl. Boy finds girl again”. Deixando de lado estes tradicionais modelos de construção das comédias românticas, “Gavin & Stacey” é uma comédia leve e divertida, que nunca põe verdadeiramente em causa a relação principal destes dois jovens apaixonados, focando-se, pelo contrário, em tudo o que fica à sua volta. Pegando na história que fica por contar quando os créditos finais das comédias românticas surgem no ecrã, “Gavin & Stacey” procura mostrar mais do que um romance – procura também ilustrar como nem sempre é fácil ligar duas famílias, dois conjuntos de amigos e dois mundos totalmente diferentes. Pamela (Alison Steadman) e Nick Shipman (Larry Lamb) podem nem ser a família inglesa mais tradicional, graças ao seu sentido de humor cáustico e a um casal de amigos muito sui generis, mas comparados com a família de Stacey, composta pela mãe extremosa Gwen (Melanie Walters) e pelo impagável tio Brynn (Rob Brydon), parecem saídos de outro planeta. E se as famílias são peça essencial desta história, o que dizer dos melhores amigos do casal apaixonado, Nessa (Ruth Jones) e Smithy (James Corden), que entre amores e ódios, são presença incontornável na vida de todos e proporcionam sem dúvida nenhuma os mais hilariantes momentos da série?

Com muitas surpresas, muitas reviravoltas, muitas gargalhadas, alguns mistérios (o que terá acontecido naquela pescaria?) e vários momentos musicais míticos, “Gavin & Stacey” é mais do que uma comédia brilhante ao bom estilo do que só os ingleses sabem fazer – é também uma série imperdível. Ou, como diria Brynn… “Crackin'”

No Heroics S1

no heroics
No masks. No powers. No heroics.

Inglaterra. Uma cidade como tantas outras… mas com uma pequena diferença. Nesta cidade, os super-heróis são o prato do dia, e tanto salvam um edifício em chamas como cortam a relva com os seus fatos coloridos. Num mundo onde os super-heróis são pessoas como todas as outras, quatro amigos reúnem-se à volta de copos de Shazamstell, V for Vodka ou Gin City e discutem os seus feitos pouco heróicos.

Depois de sucessos vários no cinema, é natural que as histórias de super-heróis chegassem também ao pequeno ecrã, mas certamente nunca se imaginou que causassem tanto estrago como esta comédia negra da ITV2. “No Heroics”, como o próprio nome indica, é uma série onde os feitos heróicos se encontram em segundo plano, e onde a vida normal de quatro super-heróis de segunda categoria ganha destaque.

À volta de uma mesa do The Fortress, o pub dos super-heróis, reúnem-se quatro dos heróis mais descartáveis de sempre. Alex ou “The Hotness” (Nicholas Burns) é o mais triste. Um herói capaz de controlar o fogo, chega sempre atrasado aos compromissos, sendo inevitavelmente ultrapassado pelo seu arqui-inimigo, o maior herói da zona, Excelsor (Patrick Baladi). Mas a pouca sorte de The Hotness não se fica pelos negócios – também no amor se vê aflito, com poucas candidatas e com uma relação mal resolvida com a ex-namorada Sarah (Claire Keelan), também conhecida por “Electroclash”, cujo poder de dominar todas as máquinas é usado principalmente para sacar maços de cigarros às máquinas de vendas automáticas do bar e irritar o segurança do bar, “Thundermonkey” ou Simon (Jim Howick). Antiga companheira de equipa de Eletroclash, She-Force (Rebekah Staton) é a terceira mulher mais forte do mundo, mas preferia ser apenas Jenny, uma anónima funcionária de escritório, enquanto Don “Timebomb” (James Lance) já deixou os seus dias de herói violento para trás e goza a sua reforma em paz, com muitas drogas, bebedeiras e sexo anónimo com qualquer homem que lhe apareça à frente.

Longe de todos os poderes e dos fatos coloridos que marcam as suas vidas profissionais, homenagens claras à época de ouro dos super-heróis da banda desenhada, é no bar que as conversas entre estes quatro heróis desajustados revelam todo o humor negro que apenas na Grã-Bretanha se consegue escrever. Sem papas na língua, a linguagem mais colorida destes heróis e as situações caricatas em que frequentemente se encontram, de onde se destacam uma noite pavorosa com uma groupie, uma conversa com ex-fãs, um serviço de guarda-costas a um puto irritante ou um encontro com um membro de um grupo anti-superheróis são o grande forte da série, mostrando que, por vezes, ainda se consegue criar dentro de um género mais do que explorado.

Com a versão americana da série já devidamente cancelada, para bem da nossa sanidade mental, espera-se apenas que os próximos tempos nos possam trazer mais aventuras deste mundo.

Coupling S1-4

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Jane, could you stop doing this? Could you stop just wandering through my front door? Because this is not, I repeat NOT, an American sitcom!

Quando a paciência é pouca, e a disposição não ajuda, nada melhor do que pegar numa bela comédia para passar o tempo. E no panteão das melhores britcoms que predominam nas estantes desta casa, Coupling encontra-se num dos lugares cimeiros. Da história às situações inusitadas, das personagens à escolha dos actores que lhes dão vida, tudo foi perfeito nesta comédia, que peca apenas pelo reduzido número de temporadas.

Steve (Jack Davenport) conhece Susan (Sarah Alexander) no bar. Os dois apaixonam-se. Poderia ter começado aqui um romance como muitos outros, não fosse o facto desta relação a dois estar, desde início, sobrepovoada. A impedir o percurso seguro do romance está a alucinada ex-namorada de Steve, Jane (Gina Bellman), e o narcista ex-namorado de Susan, Patrick (Ben Miles), sem esquecer os melhores amigos dos pombinhos, o estranho Jeff (Richard Coyle) e a paranóica Sally (Kate Isitt). Um casal, o melhor amigo dele, a melhor amiga dela, a ex dele e o ex dela. Seis amigos que vão passar a conviver e a discutir, até à exaustão, todas as relações por que passam.

Visto por muitos como um Friends inglês, Coupling prova, desde o primeiro minuto, que vai muito para além da famosa sitcom americana. Fala de amizades e de relações, mas também das inseguranças e trapalhadas amorosas por que todos eventualmente passam, sempre com uma bela pitada de sexo para apimentar a história. Dos dilemas iniciais criados pelo  “Sock Gap” em “Size Matters“ e pelo “Melty Man” em “The Melty Man Cometh”, aos silêncios desconfortáveis em “My Dinner in Hell”, não há etapa da relação esquecida pela série.

Se o humor inteligente, e as divertidas experiências com a tradicional abordagem à narrativa, como o “rewind” em “The Girl With Two Breasts”, as legendas do Captain Subtext em “Her Best Friend’s Bottom” ou o ecrã dividido em “Split” diferenciam esta série das tradicionais comédias românticas, são as maravilhosas personagens e as brilhantes interpretações dos actores que a distanciam de todas as outras. Ao longo das suas quatro temporadas, constroem-se personagens memoráveis, onde se destaca desde o primeiro momento Jeff, com os seus “Jeff-ismos”, o “Giggle-Loop” e diarreia cerebral que o leva frequentemente a admitir coleccionar orelhas de mulheres e ter uma perna a menos, mas sem esquecer a presença igualmente memorável de Steve, com os seus discursos inflamados sobre temas difíceis em “Inferno” e “The Girl With One Heart”. E se a partida de Jeff condiciona, de certa forma, a última temporada, deixando um vazio que Oliver (Richard Myland) nunca consegue preencher, permite um maior desenvolvimento dos restantes personagens, especialmente de Patrick e Sally, que depois dos excelentes “Remember This” e “Perhaps, Perhaps, Perhaps” já mereciam o devido louvor.

Rever séries é complicado: já não há surpresas, já não há a emoção de descobrir uma nova história, de ver o desenvolvimento daquela relação que sempre quisemos acompanhar. Mas rever as aventuras destes seis amigos prova ser a excepção.

Homem quase descomprometido procura mulher para relação sólida. Requisitos: desinibida, descontraída, óptimo sentido de humor; capacidade de argumentação com ex-namorada irritante e amigo estranho é indispensável. Dá-se preferência a fãs de pornografia de teor lésbico e casa de banho com fechadura. Boas perspectivas de futuro. (S.T.)

The IT Crowd S1

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Have you tried turning it on and off again?

Há uns tempos atrás o mundo devia andar louco. Sim, porque quando se afirma que a Paris Hilton é geek porque (pasmem), tem uma PSP (cor de rosa), é sinal que o mundo está de pernas para o ar. Que o apocalipse está a chegar. Que os deuses devem estar loucos. Que a pessoa que fez esta afirmação nunca viu The IT Crowd.

Nos escritórios das Indústrias Reinholt, num dos bairros mais importantes de Londres, encontra-se uma cave escura, poeirenta e atafulhada, onde se escondem os dois funcionários do apoio técnico. Roy (Chris O’Down) é um informático preguiçoso, que não gosta de ser incomodado e, muito menos, de atender as chamadas irritantes dos colegas dos andares superiores, que resolvem sempre interromper-lhe as leituras de comics diárias. Já Moss (Richard Ayoade) é mais prestável, mas a sua sabedoria técnica é limitada por uma inabilidade em lidar com pessoas e situações reais. Embora essenciais para o bom funcionamento da empresa, Roy e Moss sentem-se desprezados pelo director Denholm Reynholm (Chris Morris) e odiados pelo restante pessoal, razão pela qual se recusam a fazer os trabalhos mais simples. Mas a vida dos dois vai-se complicar com a chegada de uma nova colega. Eficiente, sociável, activa, Jen (Katherine Parkison) podia ser essencial para melhorar o serviço e as relações do apoio técnico com a empresa, não fosse um pequeno problema: não perceber nada de computadores.

Divertida e caricata, esta nova comédia do Channel 4 tem os seus melhores momentos quando presta homenagem à cultura geek e nerd. Das t-shirts de Roy aos autocolantes que proclamam que o MP3 não é um crime, dos Spectrums aos filmes série B, são os pequenos detalhes que a tornam única, mas que, ao mesmo tempo, lhe causam alguns problemas: quando as histórias se tornam mais mundanas, quando saem da esfera da cave e se juntam ao mundo real, as histórias deixam de ser tão interessantes. Tal como as suas personagens, o forte dos autores é o mundo geek e nerd, e não o mundo real.

Comparando com a obra prima do Channel 4 que é Spaced, The IT Crowd é muito menos interessante, mas tem os seus momentos, daqueles que nos obrigam a admitir que sim, também nós já fizemos aquilo… como comprar duas versões dos livros do Harry Potter.

Spaced S1-2

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Do’you want some tea?

Não há comédias melhores que as britânicas, isso já foi provado diversas vezes. Os americanos bem tentam inventar, copiar, distorcer, mas nunca conseguem chegar ao golpe de génio que são a maioria das britcoms. E certamente nenhuma delas conseguiu chegar aos pés deste Spaced. A história começa de forma simples: a escritora-to-be Daisy (Jessica Stevenson) e o artista de BD Tim (Simon Pegg) precisam de uma casa, resolvendo disfarçar-se de namorados para conseguir um apartamento. O problema é que é preciso enganar a senhoria, Marsha (Julia Deakin) e o vizinho estranho (Mark Heap). Juntem a isso um amigo maníaco por armas (Nick Frost) e uma melhor amiga viciada em moda (Katy Carmichael), e temos a comédia mais surreal de todos os tempos.

Não me ria tanto desde Coupling, outra excelente britcom, mas as duas temporadas de Spaced conseguiram por vezes superar as trocas entre a Sally e o Patrick. A Daisy e o Tim são perfeitos um para o outro, mesmo que não se apercebam disso. Afinal, quem melhor para aturar um neurótico do que outro neurótico? É que entre as horas infindáveis em frente às páginas vazias de Daisy e as rezas ao altar da Buffy de Tim, não há nada que enganar.

As duas temporadas da série são um pouco diferentes. Na primeira temporada somos apresentados às várias personagens, às suas manias, às suas tentativas de encontrar sucesso e, especialmente, à tentativa de enganar Marsha. Cada episódio baseia-se num filme de culto, o que dá asas a pérolas como o episódio sobre os filmes de guerra, ou o episódio onde, empurrados por Tyres, se vão divertir a uma rave.

A segunda temporada é um pouco mais calma, e foca mais o desenvolvimento que as personagens sofreram. Eles são agora mais velhos, estão mesmo a entrar no lado errados dos 20s, mas continuam com as manias de sempre. Daisy regressa da sua viagem à Ásia com novos poderes, mas com a mesma falta de vontade de escrever, enquanto que Tim continua a tentar esquecer Star Wars: The Phantom Menace, pondo mesmo o seu trabalho na loja de BD em perigo. Com Marsha cada vez mais desconfiada, é necessário não dar nas vistas por causa do apartamento, mas uma nova conquista de Tim poderá por tudo a perder. Se a segunda temporada não é tão hilariante quanto a primeira, não deixa de ter os seus momentos de génio (como as Robot Wars ou a lutas com armas fictícias), e é com grande pena que se chega aos episódios finais. Embora houvesse planos de uma terceira temporada, a resolução final foi perfeita: o happily ever after é apenas ficção, mas pelo menos os amigos ficam para sempre.

Uma série obrigatória para todos os fãs de tv, cinema, comics e cultura popular em geral. Buffy, A-Team, Star Wars, Star Trek, filmes de terror, jogos de computador… todos têm direito a uma homenagem nesta série, e para se apanhar todas as referências é recomendável ver os episódios com as legendas “Homage to…”. Afinal, ninguém quer perder pérolas como a legenda “Every War Movie EVER!”.

E para matar as saudades… venha daí um Shaun of the Dead. E um Hot Fuzz, se algum dia estrear por cá. 🙂