Episodes S1

“Rir é o melhor remédio.” Não haverá, certamente, ninguém que discorde desta expressão. Quando o stress do dia-a-dia se impõe, quando tudo parece correr mal, uma boa gargalhada é sem dúvida aquilo que mais nos consegue animar. Mas se rir é a melhor opção, a capacidade de rirmos de nós próprios não é para todos. Afinal, rir dos outros é mais simples do que identificar as nossas próprias falhas. Felizmente há quem não tenha este problema e aposte mesmo a sua carreira em divertir os outros gozando de si próprio. E é por isso que a nova estreia da Showtime, “Episodes”, foi uma boa surpresa na mid-season americana.

As aventuras (e desventuras) de Sean (Stephen Mangan) e Bev (Tamsin Greig), um casal de produtores britânicos que é contratado para adaptar a sua série de sucesso ao mercado americano, podem ter sido curtas para os padrões normais americanos, com uma temporada de apenas sete episódios, mas conseguiram trazer uma lufada de ar fresco às típicas comédias que do outro lado do oceano chegam graças não só a boas interpretações, argumentos sólidos, muitas situações inusitadas e cenas divertidas, mas também a uma ligação bem forte ao mundo real do desenvolvimento de séries actual nos Estados Unidos.

Recheada de personagens que parecem, de início, não ser mais do que estereótipos mas que, lentamente, se vão revelando, como é o caso de Carol (Kathleen Rose Perkins), que mostra uma profundidade muito inesperada a meio da temporada, e de outras que nos deixam sem saber o que pensar e como os classificar, como é o caso do protagonista Matt LeBlanc, que mostra aqui estar disposto a usar a sua própria vida e experiências pessoais para nos dar uma visão do que é o “verdadeiro” mundo de Holywood e que consegue quase fazer esquecer a personagem idiota de “Friends”, é sem dúvida a forma como a temporada parodia o mundo da televisão americano que mais cativa. A cada episódio, a cada cena, a cada concessão que os dois produtores tinham de fazer à sua história original devido a pressões do estúdio, desde alterar o título e a trama e mesmo a contratar um actor pouco ou nada indicado para o papel principal, identificamos todas as dúvidas, incertezas e desilusões que temos quando vemos a nossa série favorita percorrer o doloroso caminho das adaptações americanas, especialmente numa época em que os remakes insistem em não desaparecer. E se a comédia está garantida com a ajuda de personagens como Marc Lapidus (John Pankow) que, embora não saia do registo de caricatura, consegue mesmo assim ter deixas memoráveis, é também nos momentos mais sérios, como numa interessante conversa/batalha entre Bev e Matt e, mais tarde, entre Matt e Sean, que a série prova que mesmo dentro das comédias mais ou menos inusitadas, é ainda possível inserir cenas que nos fazem pensar.

Com a renovação já garantida, é com grande prazer que se espera por mais aventuras de Bev, Sean e Matt, nesta britcom tão americana.

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Californication S3

“Happiness. I’ll be happy. Finally.”

Se há série que mais discórdia causa, que mais divide os espectadores e que tanto vai parar à lista de favoritas como de odiadas, é “Californication”. E a explicação é simples: esta não é uma série obrigatória, das que se recomenda a todas as pessoas e que figura inevitavelmente nas listas de melhores do ano. Muito pelo contrário: é uma série que requer uma mente mais aberta, algum à vontade com o deboche gratuito e muita paciência para aguentar as situações mais inusitadas, em busca dos momentos mais calmos, mais sérios, mais reais. “Californication” não é uma série que ofereça um retrato muito fiel da sociedade, preocupando-se mais em divertir o espectador com as situações inusitadas em que se metem as suas personagens do primeiro ao último episódio. E isto é, por vezes, o grande problema que apresenta.

Depois de um regresso algo desapontante mas não inesperado ao ponto de partida, “Wish You Were Here” deixa desde logo antever que pouco irá mudar por estas bandas, mesmo com desafios algo diferentes. Depois de diversas tentativas falhadas de escrever, que muitas dores de cabeça dão ao seu agente, Hank (David Duchovny) acaba por arranjar emprego como professor de escrita criativa num colégio privado, prometendo ajudar a formar (para o bem e para o mal), as mentes dos jovens californianos. Se no trabalho os desafios são muitos, e a sua atenção promete ser desviada por três belas mulheres que o perseguem incessantemente – Jill (Diane Farr), a assistente, Felicia (Embeth Davidtz), a directora, e Jackie (Eva Amurri), a aluna -, já em casa é Becca (Madeleine Martin) que começa, curiosamente, a causar alguns distúrbios próprios da adolescência. E, no meio de tudo isto, por entre as conquistas e os engates, não se esquecem as saudades pela mulher ausente, a única que verdadeiramente ama e com quem quer viver feliz: Karen (Natascha McElhone).

Quem se predispõe a ver “Californication” está desde logo preparado para hilariantes histórias, grandes diálogos, monólogos bem escritos e muita, muita diversão. Não estranha, por isso, a chegada e partida de personagens curiosas, algumas mais marcantes do que outras, como é o caso de Sue Collini, numa prestação profundamente assustadora de Kathleen Turner, e que tantas situações absurdas cria ao longo da temporada, para grande desespero de Charlie (Evan Handler). Não se assusta, também, com as cenas mais estranhas de “Sozo“, ou mais absurdas como o ridículo duelo que opõe Hank ao reitor Stacy Koontz (Peter Gallagher) por uma honra há muito perdida em “Comings & Goings“. E até consegue tolerar, de certa forma, a irritante história que continua a marcar presença em todas as temporadas, de Charlie e os seus dilemas amorosos com Marcy (Pamela Adlon). Mas é quem dá uma maior oportunidade à série, quem passa por cima destas suas características que acabam, por vezes, por constituir também alguns dos seus defeitos, que se surpreende com uma história diferente, mais profunda, que nos consegue fazer pensar. Se é nos momentos mais hilariantes que a série se destaca, como no brilhante “The Apartment“, que respira loucura em todos os segundos, ou nas cenas onde a retórica e a escrita inteligente se tornam mais proeminentes, como acontece em “So Here’s The Thing…“, em que Hank se tenta livrar de todas as mulheres que o perseguem para ficar só com a que ama, é nos momentos mais calmos, onde se renova uma amizade entre velhos amigos num simples sofá ou numa noitada pela rua fora, como acontece em “Dogtown” e, especialmente, num surpreendente “Mia Culpa“, em que fantasmas do passado regressam para tudo destruir uma família que tanto lutou para ficar junta mas que irá, muito provavelmente, ficar perdida agora, que a série se supera.

“I’m not the man they think I am at home.” Com uma temporada mais inconstante que as anteriores, mas um final perfeito do início ao fim, graças à alegoria tão bem criada que não consegue deixar ninguém indiferente, onde se destacam as ninfas na água, a inépcia do Hank, a conversa entre Hank e Becca e, especialmente, o confronto final entre Hank e Karen ao som de uma das músicas preferidas deste cantinho, não há dúvida de que “Californication” continua a ser uma das séries mais aguardadas todos os anos, e que merece o seu lugar entre as favoritas desta casa.

United States of Tara S2

“Do you know what today is? Today is my bullet train to a new life.
They’re normal people. And they’re making room in their normal-people group photos… For me.”

Estreias auspiciosas há muitas: aquelas que nos cativam, que prometem trazer algo de novo e marcante à televisão e que nos deixam na expectativa de algo infinitamente melhor no ano seguinte. Infelizmente, poucas são as vezes que o regresso consegue alcançar o feito do original. Mas porque, mesmo assim, ainda há excepções à regra, a segunda temporada de “United States of Tara” provou que não só é possível manter o nível de qualidade da história, dos diálogos e das interpretações de todo o elenco, como por vezes consegue-se mesmo superá-lo.

Tendo por tema da temporada as memórias, aquelas que se tentam esconder e as que se tentam criar, sentimos desde logo que a tranquilidade aparente de “Yes” não poderia durar muito. Desde o primeiro momento, desde a primeira visão que temos de toda a família reunida a deitar fora as memórias de vidas passadas que fica claro que a nova tranquilidade, conseguida à custa de uma combinação de medicamentos, não poderia durar, que as desordens de Tara (Toni Collette) podiam estar adormecidas, mas não desaparecidas para sempre. Talvez por isso, o regresso dos alters fosse algo esperado. Já a forma como isso acontece, como a relativa paz da família é quebrada com o regresso de Buck não por eventos internos, mas devido a um suicídio estranho na casa ao lado, levanta mais questões que permanecem por esclarecer.

Por entre avanços e recuos, alegrias e tristezas, confusões e reencontros, o evento que despoletou o transtorno dissociativo de identidade de Tara, e que há tantos anos marca esta família, começa lentamente a revelar-se, com a ajuda de pequenas pistas que nos levam, de forma inesperada, a revelações surpreendentes. A relevância da casa do vizinho pode permanecer por esclarecer, mas com a chegada da terapeuta Shoshanna em “You Becoming You“, um novo alter de Tara que, ao contrário dos restantes, parece estar ali para ajudar toda a família, o mistério principal ganha novo fôlego e as revelações não se fazem esperar. Primeiro no espectacular “Torando!“, onde à música se sucedem as lágrimas, à dança o terror, e o papel de Charmaine (Rosemarie DeWitt) em toda esta história começa a ser cada vez mais evidente, depois na visita inesperada a uma velha conhecida que desperta rancores antigos em “To Have And To Hold“, e terminando com o confronto final  em “From This Day Forward“, no que deveria ter sido um dos dias mais felizes para a família mas que acaba envolto em lágrimas, a mistério de Tara e da sua doença fica assim, se não totalmente esclarecido, pelo menos algo resolvido, e promete trazer mais emoções na próxima temporada.

Se a trama principal da temporada conseguiu mostrar o que de melhor esta série tem – uma história cativante com personagens fascinantes e interpretações de nota – , conseguindo mesmo dar a Charmaine, personagem por vezes irritante mas que tem, no fundo, algo mais para contar, uma maior dimensão, já as histórias secundárias acabaram por prejudicar a evolução da temporada. A facada no matrimónio por parte de Max (John Corbett), devido a um crescente desespero e desejo de vingança, é de certa forma compreensível, tais como as tentativas de Marshall (Keir Gilchrist) de encontrar o seu lugar no mundo e de se sentir bem na sua pele, que o levam a primeiro experimentar o lado oposto, antes de finalmente decidir assumir as suas preferências e encontrar – esperamos nós – alguém que partilha dos seus sentimentos. No entanto, e tal como na primeira temporada, é a história de Kate (Brie Larson), primeiro no gabinete de colectas, depois com a estranha amizade com Lynda (Viola Davis) e a criação da do alter-ego princesa Valhalla e terminando com o novo (e, mais uma vez, muito estranho) namorado, que acaba por sugar grande parte do interesse aos episódios, e deixar-nos com a vontade de ver terminado o suplício. Mas porque é à volta de Tara que tudo gira, porque a série continua a apresentar grandes interpretações e porque consegue, mesmo com alguns pontos mais fracos, surpreender-nos a cada episódio, é possível afirmar que “United States of Tara” continua a ser uma das séries favoritas da mid-season americana e que se aguarda, com expectativa, mais aventura da família Greggson.

Dexter S3

“Be careful what you think you know about someone – you’re probably wrong.”

Todos os heróis precisam, a certo ponto da sua vida, de um sidekick, um parceiro que os ajude a sair das maiores embrulhadas, que seja a voz da razão naqueles momentos de desespero; uma pessoa que compreende os dilemas por que passam os heróis e que os apoia incondicionalmente. E se “Dexter” não gira à volta de um herói no verdadeiro sentido da palavra, a verdade é que conseguiu provar, com esta terceira temporada, que mesmo os assassinos em série precisam, por vezes, de alguém em quem confiar.

Falar sobre uma temporada que se viu há mais de um ano não é fácil, ainda para mais quando essa temporada não agradou da mesma forma que as anteriores. Não deixando nunca de ser uma grande série com uma magnífica interpretação da parte de Michael C. Hall como o assassino em série mais interessante de sempre, a verdade é que se começava aqui a sentir algum cansaço. Depois de um final de temporada com um cheirinho a final da série, a terceira temporada é dedicada à rebelião de Dexter contra o código que sempre o guiou, à tentativa de encontrar um novo caminho sem as limitações do passado que o seu pai adoptivo, Harry (James Remar), sempre lhe tentou ensinar. Mas se a rebelião anunciava algo de interessante, uma nova direcção para esta personagem que sempre se mostrou tão incapaz de evoluir, a verdade é que acabou por não surtir os efeitos desejados, proporcionando duas histórias de qualidade muito diferente que não se conseguiram nunca impor.

Enquanto o nascimento de uma relação de amizade com Miguel Prado (Jimmy Smits) possibilita as cenas mais interessantes de toda a série, dando a Dexter aquilo que nunca teve – uma pessoa que não só o compreendia, que conhecia o seu passageiro negro e que não fugia dela mas que também o instigava e tentava absorver todos os ensinamentos -, já o foco num novo assassino em série que, de assustador, só mesmo o nome, acabou por retirar o impacto ao que poderia ter sido um passo importante no desenvolvimento da personagem principal. Sem um nome tão ominoso como Skinner, sem revelar os níveis de crueldade do assassino da temporada, Miguel acaba por transformar-se num inimigo bem mais perigoso que o serial killer, provando que os ensinamentos de Harry não são para todos.

Se, a nível profissional, a qualidade das histórias variou, já a nível familiar este foi o ano em que tudo mudou. Depois dos dilemas da segunda temporada, a relação de Dexter com Rita (Julie Benz) altera-se de forma significativa – para o bem e para o mal. A personagem de Rita sempre foi secundária mas importante para a evolução de Dexter, para o seu crescimento enquanto personagem e enquanto ser humano – aquele que ele é, mesmo que, por vezes, se recuse a reconhecê-lo. Infelizmente, o papel preponderante que teve na primeira e, de certa forma, na segunda temporada acaba por diminuir, transformando-se em pouco mais de uma caricatura de uma mulher grávida insegura, algo que não desejávamos para a personagem. Igual sorte tem Debra (Jennifer Carpenter), cujas relações amorosas insistem em não querer vingar, e que apenas no plano profissional parece conseguir vingar, mesmo quando se vê obrigada a lidar com um novo parceiro, Quinn (Desmond Herrington).

Embora a forma como as promessas e histórias lançadas no final da segunda temporada parecem ter sido esquecidas e se o anti-climax de “Do You Take Dexter Morgan” não nos surpreende verdadeiramente, tirando algum do brilhantismo a uma série até agora irrepreensível, é impossível deixar de pensar que esta história ainda agora parece ter começado e que, tal como a gota de sangue que mancha o vestido imaculado, o futuro de Dexter poderá vir a ser mais sangrento do que se imaginava.

Stargate SG-1 S4

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Lose it. It means, go crazy… nuts… insane… bonzo… no longer in possessions of one’s faculties… three fries short of a Happy Meal… WACKO!!

Trama principal intrigante. Histórias secundárias interessantes. Atenção à continuidade. Evolução das personagens. Acção e aventura. Humor. Ficção científica. Separadas, encontramos estas características em muitas séries, mas quando as conjugamos, é a quarta temporada de “Stargate SG-1” que descobrimos.

Continuando a curva ascendente que trazia da temporada anterior, os vinte e dois episódios que constituem o quarto ano de “Stargate SG-1” revelam uma série que encontrou o seu caminho e que o soube explorar da melhor maneira. Com a guerra contra os Goa’uld sempre presente, é no entanto o aparecimento de um novo e formidável inimigo que irá lançar a temporada. Os Replicators, máquinas que se auto-copiam e que nem mesmo os poderosos Asgard conseguem derrotar, continuam a espalhar-se pela galáxia, ameaçando não só os aliados dos Tau’ri, mas também o próprio planeta Terra. Se os primeiros confrontos em “Nemesis” e “Small Victories” provam ser difíceis, é com a batalha contra Apophis em “Exodus” que os Replicators se assumem como o próximo inimigo a abater.

Entre dois grandes inimigos, e com alguma dificuldade em manter relações cordiais com os mais próximos aliados, os Tok’ra, o Comando de Stargate vê-se confrontado com muitos dilemas por essa galáxia fora, mas é também dentro da sua própria casa que o perigo se encontra à espreita. Com os russos a pressionar em “Watergate” e o NID sempre à espreita em “Chain Reaction” não há descanso para a equipa, mas pelo menos o bom humor fica garantido graças à sempre hilariante presença do Coronel Maybourne (Tom McBeath).

Numa temporada que se apoia cada vez em histórias passadas e personagens recorrentes e que consegue criar episódios memoráveis como “2010” e “Window of Opportunity”, é também aqui que se confirma a evolução das personagens e dos actores que os interpretam. Para o Coronel O’Neill (Richard Dean Anderson) e a Major Carter (Amanda Tapping), esta é a temporada da linha ténue entre os sentimentos pessoais e as regras militares, com admissões sentidas que deixam marcas profundas e que têm o seu expoente máximo em “Divide and Conquer”, “Beneath the Surface” e “Entity”. Depois dos desgostos que sofreu, Daniel Jackson (Michael Shanks) encontra-se mais seguro de si e do seu papel na equipa, pondo à frente de tudo o seu trabalho – de linguista, arqueólogo, mas também de compasso moral da equipa- , mas os Goa’uld parecem querer roubar-lhe todos os entes queridos, como se verifica em “The Curse”. Quanto a Teal’c (Christopher Judge), a vitória só chegará quando o seu povo estiver livre da escravidão, e as razões para lutar aumentam exponencialmente com a resolução de “Crossroads”, despoletando uma crise que poderá prolongar-se por muito tempo. Mas porque esta é e será sempre uma história dedicada a uma equipa, os problemas individuais e os ocasionais atritos serão sempre ser superados graças à amizade que os une, e que se estende também ao General Hammond (Don S. Davis), à Dra. Frasier ( Teryl Rothery) e a Jacob (Carmen Argenciano)

Vinte e dois episódios recheados de histórias intrigantes, personagens principais e secundárias marcantes, e muito humor fazem desta a melhor temporada de “Stargate SG-1”, e deixam a promessa de muitas outras aventuras para os anos que seguirão. Deste lado, já teve direito a uma prateleira especial dedicada às suas aventuras.

United States of Tara S1

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O que é preciso para fazer uma boa série? Actores famosos, grandes orçamentos, efeitos especiais espectaculares e muita publicidade? Não, muito pelo contrário. Por vezes basta uma boa ideia, uma trama interessante, um elenco competente e a coragem para mostrar algo de novo. E se “United States of Tara” não é a melhor série estreante, podemos pelo menos considerá-la uma das mais irreverentes dos últimos tempos.

Tara (Toni Colette) é uma mulher como todas as outras. Vive nos subúrbios com o marido Max (John Corbett) e os dois filhos adolescentes, Kate (Brie Larson) e Marshall (Keir Gilchrist); tem uma irmã mais nova, Charmaine (Rosemarie DeWitt), com quem ocasionalmente se chateia, e um trabalho esporádico como pintora de murais. Poderia ser uma mulher como qualquer outra… não fosse o facto de sofrer de Transtorno Dissociativo de Identidade, uma condição mental que a faz criar múltiplas personalidades que se manifestam quando menos se espera. A vida na casa dos Gregson é, por isso, tudo menos normal, especialmente quando uma das personalidades alternativas se revela. Para além de Tara, a original, temos  também T, uma miúda de 16 anos sem papas na língua, selvagem e provocadora como tantas outras; Buck, um camionista de meia idade, veterano da guerra do Vietname, viciado em cerveja, cigarros e armas; e Alice, a esposa ideal, a típica dona de casa dos anos cinquenta, com o seu penteado perfeito, avental branco imaculado à cintura e uma capacidade incrível de magoar todos à sua volta. Ao mínimo stress, Tara refugia-se dentro de si própria e permite a uma das suas personalidades alternativas sair para o mundo exterior, criando grandes confusões, momentos hilariantes mas também algum drama.

Da imaginação de Diablo Cody saiu assim esta dramédia diferente, que nos força a questionar aquilo em que acreditamos em cada episódio. Do humor ao drama, das gargalhadas às lágrimas, ao longo dos doze episódios que constituem a primeira temporada temos oportunidade de ver todas as emoções espelhadas no rosto da principal interveniente, mostrando mais uma vez a grande actriz que Toni Colette é. Mas se a força da série reside nesta mistura de drama e comédia, é também aí que reside, em certa forma, um dos seus maiores problemas. Não havendo um arco de história bem definido para a série de início, criam-se alguns problemas de fluidez da trama, que parece andar perdida em histórias paralelas, como a de Kate e do seu estranho chefe, Gene (Nathan Corddry) ou toda a trama das amizades coloridas de Marshall, que apenas em  “Betrayal” conseguem surpreender.

Sem nunca resolver as grandes questões que levantou desde início – o mistério que envolve o primeiro sintoma de Tara, a hierarquia das personalidades alternativas e o surgimento de uma nova personalidade animalística -, a primeira temporada desta série consegue mesmo assim apresentar grandes momentos e deixar alguma expectativa para as próximas temporadas. E mesmo que a série venha a desapontar aqueles que julgavam estar perante a nova grande comédia da televisão americana, como o deu a entender o episódio piloto, certamente que, com a ajuda de momentos brilhantes como o da sequência das personalidades alternativas em “Miracle”, a série conseguirá encontrar o seu público e terá a oportunidade de nos revelar mais desta complexa Tara.

Californication S2

californication2

Things fall apart. They break. That’s life.

Sexo, drogas e rock’n’roll. Esta simples frase poderia resumir a vida de Hank Moody (David Duchovny), um escritor bloqueado que vagueia sem rumo por essa Califórnia fora, à procura de algo que o ajude a esquecer as mágoas do passado. Esta era, na verdade, a realidade de Hank Moody… até ao dia em que tudo muda. Inesperadamente, Hank recupera aquilo que mais almejava – a sua família. Mas porque a vida real não é um conto de fadas, e o “viveram felizes para sempre” já não é suficiente, “Slip of the Tongue” traz-nos de volta ao universo de “Californication”, e marca o início de mais um capítulo na saga de Hank e da sua família.

Não é fácil resistir à tentação, especialmente quando nos encontramos rodeados daquilo de que mais gostamos. A promessa de algo doce, proibido, e tão, mas tão delicioso, deixa qualquer um com água na boca. Quando se é Hank Moody, esse fruto proibido – as mulheres que o rodeiam incessantemente – torna-se ainda mais difícil de resistir. Mas desta vez, Hank tem tudo aquilo que quer, e promete fazer um esforço para manter a família unida.

Se, por vezes, explorar demasiado uma história acaba por diminuir a sua qualidade, não há dúvida de que a segunda temporada de “Californication” consegue surpreender ao superar-se a si própria. O dilema essencial continua lá: a dificuldade de conciliar os nossos maiores desejos com os erros do passado; as personagens continuam, no fundo, a ser as mesmas: Hank nunca poderia deixar de ser Hank, tal como não esperamos mais dos que o rodeiam. Mas, ao mesmo tempo, com o passar dos episódios, vemos as personagens a crescer, a aceitarem-se como são na verdade; vemos a história – e os seus intervenientes – a evoluir. E isso é exactamente aquilo que pedimos de uma série. Mesmo quando, no final, regressamos ao estado inicial.

Hank bem tenta, mas as confusões sucedem-se: depois de se ver em apuros com Karen (Natascha McElhone) ao escolher o quarto errado, descobre que uma das suas relações do passado poderá vir a dar frutos inesperados. O futuro, que tanto tinha desejado, acaba assim mesmo antes de começar, e o regresso aos vícios não se faz esperar, agora com a colaboração de um novo parceiro de crime e empregador, o grande Lew Ashby (Callum Keith Rennie).

O sexo, o álcool, as festas e as drogas continuam a rodear todas estas personagens, mas os diálogos contundentes, os momentos mais contemplativos e, especialmente, as poucas mas impressionantes cenas em que Madeleine Martin tem a oportunidade de brilhar como a pequena Becca, ajudam a equilibrar uma série que passa cada vez mais de um mero “guilty pleasure” para o rol dos favoritos. Por cada “In A Lonely Place” que insista em contar a completamente dispensável história de Charlie Runkle (Evan Handler), da sua mulher drogada Marcy (Pamela Adlon) e da actriz de filmes pornográficos que ambos adoptaram, temos um sentido vislumbre do passado como o apresentado em “In Utero”, e por cada cena mais ousada de “The Raw & The Cooked”, temos os momentos finais de “Blues From Laurel Canyon”, que provam que esta não é uma série que se encaixe em nenhum formato pré-estabelecido.

Mesmo se “La Petite Mort” termine a temporada de forma previsível e nos transporte de volta ao primeiro episódio desta série, não há dúvida que as desventuras de Hank Moody pela sua Califórnia marcarão presença obrigatória neste canto.