Alias S3

Forgive me if I look shocking to you, but I was believing that you were dead.

Começar de novo é difícil, especialmente quando se vêem desaparecer sem deixar rasto dois anos da nossa vida. Mas como Sydney Bristow (Jennifer Garner) vai descobrir, há muitos segredos que não conseguem ficar enterrados.

Depois de uma primeira temporada excelente, e de uma segunda temporada que deixou todos estarrecidos com as mudanças que trouxe no episódio final, a terceira temporada de Alias era aguardada com grandes expectativas. O salto temporal de dois anos, a amnésia de Sydney e as grandes mudanças na vida de todas as personagens prometiam trazer novos mistérios que iriam adensar ainda mais a já recheada trama de J.J. Abrams. Mas quando as expectativas são altas, a desilusão sente-se mais, e a verdade é que, nesta terceira temporada, Alias foi uma sombra daquilo que tinha sido até aqui.

Quando acorda em Hong Kong, dois anos depois dos eventos de The Telling, Sydney é forçada a aceitar uma nova realidade: os seus maiores confidentes desapareceram, o pai está na cadeia, Arvin Sloane (Ron Rifkin), o seu maior inimigo, assume-se agora como um grande humanitário e, pior que tudo, o homem que ama está casado com outra. Se juntarmos a isto provas de que foi forçada a trabalhar para uma perigosa organização secreta, e que os mistérios de Rambaldi continuam a apontar na sua direcção, a vida de Sidney está novamente complicada. Mas desta vez, ao contrário de lutar com todas as forças para desvendar os mistérios que a rodeiam, Sydney contenta-se em passar grande parte dos episódios a chorar pelo amor perdido de Vaughn (Michael Vartan), situação que ao final de alguns episódios se torna cansativa e desmotivante.

Não é fácil escrever uma boa história de amor, mostrar a evolução de uma relação, os conflitos por que passa e as vitórias que alcança. Muitos têm tentado fazê-lo: alguns com maior sucesso, outros com grande fracasso. Infelizmente, a terceira temporada de Alias encaixa-se neste último lote. O casamento de Vaughn, poucos meses depois do suposto grande amor da sua vida ter morrido, é deveras estranho, e por muitas declarações sentidas que se profiram em sua defesa, deixa desde logo adivinhar um final trágico. Já Lauren Reed (Melissa George), a mulher que mais tem a perder com este regresso de Sydney, nunca consegue fazer vingar a sua personagem, passando de mosquinha-morta a super-vilã com uma facilidade que deixa todos de boca aberta e arrastando mesmo consigo Julian Sark (David Anders), que perde todo o seu charme. A saída fácil e mais do que previsível para o dilema causado pelo casamento de Vaughn e Lauren prova que a única razão da sua existência era para criar um conflito externo a uma trama que dele não precisava.

Longe dos tempos em que os episódios tinham uma sequência lógica, em que as reviravoltas faziam sentido e nos deixavam agarrados ao ecrã, a terceira temporada transforma-se numa sequência de tramas e missões inacreditáveis, com direito a disfarces à Missão Impossível e a momentos de acção que mais parecem anúncios de publicidade a várias marcas, como em Blowback. Embora a aposta na acção tenha marcado presença desde o início, nunca se tinha tornado prioritária à história e às relações, a componente mais humana que tornava a série diferente. Por muitas missões em sítios longínquos que Sidney tivesse, por muitos vilões que combatesse e por muitas engenhocas que Marshall (Kevin Weismann) imaginasse, Sydney regressava sempre à realidade, ao conforto do lar, onde podia contar com a ajuda dos amigos Will e Francie. Agora que os perdeu, parece quase deslocada da realidade, e nem mesmo a amizade de Weiss (Greg Grunberg) a consegue trazer de volta. Mas se a falta deste relacionamentos antigos se sente durante toda a temporada, a aposta na chegada de uma irmã desconhecida (Mía Maestro) fruto de uma relação com mais de vinte anos, e que, só por acaso, também trabalha na mesma área, não augura nada de bom para as próximas temporadas.

Sem dúvida muito mais fraca do que as temporadas anteriores, a terceira temporada de Alias vale essencialmente por alguns bons momentos de acção e pelos raros momentos de destaque dados a Jack Bristow (Victor Garber). Boa para quem gosta de algumas explosões e de telenovelas forçadas, mas uma decepção para quem vibrou com as temporadas anteriores.

Alias S2

You know, some people go miniature golfing with their parents.
We go to India and look for nukes.

Mais difícil do que alcançar um grande sucesso, é conseguir mantê-lo, e este facto nunca esteve tão presente como durante a segunda passagem pelo universo de Sidney Bristow. Depois de uma primeira temporada excelente, onde se elevaram uma história e os seus protagonistas a um patamar próprio, aumentaram também de tal maneira as expectativas, que se tornava difícil superar o feito. Mas, muito embora a segunda temporada de Alias não consiga chegar ao nível da primeira, a verdade é que conseguiu fazer algo ainda mais surpreendente: reinventar-se a si própria.

Depois das revelações de The Enemy Walks In, a vida de Sidney (Jeniffer Garner) torna-se mais difícil quando descobre que a mãe Irina (Lena Olin), que todos julgavam morta há mais de vinte anos, está afinal bem viva e regressou para complicar ainda mais a vida familiar. Entregando-se à CIA, Irina vai transformar-se numa importante fonte de informação contra a SD-6 e a Alliance, ao mesmo tempo que tenta reconquistar a confiança da filha e do marido Jack (Victor Garber). Mas as dúvidas sobre as suas verdadeiras intenções permanecem, à medida que segredos do passado são revelados, e a ténue unidade familiar é constantemente posta à prova, ao mesmo tempo que a luta contra antigos e novos inimigos como Sloane (Ron Rifkin) e Sark (David Anders) não deixa de fazer estragos.

Tendo este cantinho repetidamente afirmado a sua predilecção por famílias disfuncionais, não é de estranhar que a difícil relação entre Sidney, Jack e Irina se tenha tornado no tema favorito desta segunda temporada. A interacção entre todos os personagens, as dúvidas, raivas e segredos (escondidos e revelados), as traições e as punhaladas nas costas, presentes em todos os episódios mas magistralmente desenvolvidas no duplo The Passage, provam, novamente, que esta é muito mais do que uma mera série de espiões, e que a família Bristow tem ainda muitos segredos escondidos por revelar. Mas se este acaba por ser o fio condutor que liga toda a história e que termina, de forma aberta, em Truth Takes Time, foi a reviravolta inesperada da segunda metade da temporada que conseguiu arrancar a série do marasmo para onde, inevitavelmente, se dirigia.

Ao contrário de muitas outras histórias, onde o amor proibido é explorado ad nauseum, e as teorias de conspiração se vão tornando mais complicadas, em Phase One resolvem-se, de uma assentada, ambos os problemas, e dá-se início a uma nova direcção da história. Com a ameaça da SD-6 eliminada, desaparecem os entraves à relação de Sidney e Vaugh (Michael Vartan), mas o perigo continua à espreita com a revelação surpreendente que uma amiga querida já não é a mesma.

Numa temporada em que todas as personagens secundárias sofreram uma evolução, como Marshall (Kevin Weisman) e as novas experiências profissionais e Dixon (Carl Lumbly) e a traição de que é alvo, e em que as participações especiais de Terry O’Quinn como o Agente Kendall, Patricia Wettig como a psicóloga Dr. Barnett, e Faye Dunaway como a assustadora Ariana Kane aperfeiçoaram um elenco sempre impecável, foram os dois melhores amigos de Sidney, Will (Bradley Cooper) e Francie (Merrin Dungey),  que mais se revelaram. Se na primeira temporada pouco destaque tiveram, nesta segunda tornaram-se integrais para a vida de Sidney, e os protagonistas da chocante season finale, The Telling, que irá mudar para sempre a vida de Sidney.

Um óptimo final para uma grande temporada desta excelente série.

Alias S1

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Write this down. E.M.E.T.I.B.
Got it? Now, reverse it

O obscuro mundo dos espiões foi já devidamente explorado em todas as suas variantes na literatura, cinema e televisão. Talvez por isso seja difícil acreditar que ainda se pode criar algo de novo. Mas como se prova pela excelente primeira temporada de Alias, ainda há boas histórias para contar.

Sydney Bristow (Jennifer Garner) podia ser uma estudante universitária como todas as outras, que tenta conjugar a vida académica, os amigos Will (Bradley Cooper) e Francie (Merrin Dungey) e o trabalho no banco Credit Dauphine. Mas Sydney esconde um segredo – ela é também uma agente da SD-6, uma divisão secreta da CIA, percorrendo o mundo em missões secretas com a ajuda do seu parceiro Dixon (Carl Lumbly). Manter uma vida dupla não é fácil, mas mais difícil ainda se torna quando Sydney descobre que tudo aquilo em que acreditava era mentira, que trabalha para as próprias pessoas que julgava estar a combater e que são elas as responsáveis pelo assassinato do seu noivo, Danny. Devastada pelos acontecimentos, Sydney vai aliar-se à verdadeira CIA, passando a trabalhar como agente dupla para acabar de vez com a SD-6 e o seu chefe Arvin Sloan (Ron Rifkin). Com a ajuda de Vaughn (Michael Vartan) e Weiss (Greg Grunberg), Sydney tem agora de lidar com contra-missões, uma primeira incursão no mundo do misterioso arquitecto renascentista Milos Rambaldi e, ao mesmo tempo, aproveitar para conhecer melhor a única pessoa que sempre a intrigou, um outro agente duplo na SD-6: o seu pai, Jack Bristow (Victor Garber).

Numa primeira temporada explosiva do primeiro ao último minuto, com o recurso constante a cliffhangers no final de cada episódio que nunca deixam esmorecer a intensidade da história, aliam-se perfeitamente a acção e a intriga das missões de Sydney, eximiamente delineadas no episódio duplo The Box, à vida dupla que vive e aos relacionamentos que tenta manter com aqueles que lhe são próximos, como em The Coup. E se os episódios relevantes para a mitologia da série, como Page 47 e The Prophecy parecem por vezes rebuscados demais, não deixam de mostrar um J.J. Abrams ainda em topo de forma.

Mas por entre toda a acção, intrigas e correrias, disfarces, perucas e invenções impossíveis de Marshall (Kevin Weissman), voltas e reviravoltas, a grande força da série reside nas suas personagens e nas relações que entre elas se estabelecem, especialmente entre Sydney e o pai, estando os momentos partilhados pelos dois entre os melhores de toda a temporada. Jennifer Garner convence como a espia de grande coração, que consegue dar uns pontapés nos vilões ao mesmo tempo que perdoa mesmo os responsáveis pelo seu sofrimento, como em Color-Blind, mas Victor Garber supera-se como o enigmático Jack, um homem traído pelo seu passado, moralmente ambíguo, que não se importa de recorrer a quaisquer extremos para proteger a filha de todos os perigos, como em Almost Thirty Years.

Tal como provou desde início em Truth be Told, atirando-nos imediatamente para dentro da acção, Alias é uma série que obriga a esperar pelo inesperado, a acreditar no inacreditável, e a não perder a fé nos próximos capítulos. E mesmo que, por estas bandas, a espia preferida continue a trabalhar para a Section 1, não há como deixar de admirar uma série que prova, de uma vez por todas, o quão assustadores são os dentistas.