Life On Mars S2

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Oh I’ve finally decided my future lies
Beyond the yellow brick road

Não há palavras mais apropriadas para dizer adeus a esta magnífica série do que estas, quando, ao som de Elton John, ficamos a conhecer o destino de Sam (John Simms).

Com apenas duas temporadas, Life on Mars não teve a vida fácil, sofrendo várias alterações desde 1998, até encontrar o seu caminho em 2006. Frustrantes, certamente, estes oito anos de preparação permitiram, no entanto, escrever uma história consistente, deixando ao longo dos episódios pistas que mais tarde seriam fulcrais para compreender o mistério, e criando histórias paralelas que voltariam a ser retomadas, convergindo para a acção principal.

Por muito divertido que fosse conhecer a vida na Manchester dos anos 70, as diferentes formas de viver, de pensar e de agir, especialmente graças às maravilhosas actuações de Philip Glenister como o Inspector Gene Hunt, o grande mistério era, desde o primeiro momento, a história de Sam. Seria esta (por muito improvável que soasse) uma viagem no tempo? Ou uma mera alucinação causada por um acidente? As pistas eram contraditórias: viagens no tempo são absurdas, e as vozes do futuro parecem corroborar a teoria de alucinação, mas os detalhes de uma vida que não se conhecia e as ligações à vida real lançam constantemente a dúvida sobre o verdadeiro sentido da história.

Se, na primeira temporada, o grande dilema consistia em tentar lidar com personalidades e formas de trabalho diferentes, na segunda temporada o mistério central que está por detrás da trama adensa-se, com a chegada de um perigoso assassino, o reencontro de velhos conhecidos e, sobretudo, com a entrada em cena do Inspector Frank Morgan (Ralph Brown), quem vem resolver (ou talvez não) o enigma do código 2612 do condado de Hyde. E é aqui, nos momentos finais, que a série se supera.

Por muitas histórias paralelas, mistérios e dúvidas que nos tivesse apresentado ao longo dos 16 episódios, o grande dilema de Life on Mars passa por uma escolha entre ficção ou realidade, ficar ou partir, M.A.R.S. ou Hyde. Resume-se, em último caso, à decisão que Sam (sempre) teve de tomar. Afinal, não há melhor maneira de saber se estamos vivos do que sentir.

No final, quando se completa o círculo, se cumprem as promessas e se fazem as últimas escolhas, custa dizer adeus a personagens tão marcantes, mas pelo menos fica a esperança de um célere regresso à esquadra, na década seguinte, para acompanhar o “Gene-genie” em mais aventuras.

Life On Mars S1

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You’re nicked.

Quando se faz parte da bela colheita de 80, é difícil admitir que pode ter havido uma década melhor. Mas, raios, a julgar pela maravilha que é Life on Mars, bem apetecia ter vivido nos anos 70.

Tudo começa em 2006 com Sam Tyler (John Simms), inspector na polícia de Manchester, que está a ter um mau dia. Um assassino anda à solta pela cidade, e promete fazer da sua namorada a próxima vítima, a não ser que ele o consiga impedir. Infelizmente para Sam, não vai ter oportunidade de resolver o crime: ao ser atropelado, desperta para uma nova vida em 1973, onde é um simples agente da polícia, sob o comando do arrogante e grosseiro Inspector Gene Hunt (Philip Glenister).

Forçado a viver nesta nova realidade, Sam vai ter de aprender a trabalhar numa época politicamente incorrecta, onde predomina o sexismo e o racismo, onde a violência policial e a corrupção são o prato do dia, numa esquadra onde é difícil ver um palmo à frente do nariz graças ao fumo do tabaco e às pilhas de papéis com casos para resolver. Lidar com métodos policiais antiquados não é fácil, especialmente com os detectives Carling (Dean Andrews) e Skelton (Marshall Lancaster) constantemente a questionar os seus métodos, e nem a voz amiga da polícia Cartwright (Liz White) o consegue ajudar a aceitar a nova vida. Algo está mal nesta história: como é que Sam ali foi parar? Terá sido viagem no tempo? Estará louco? Ou será tudo isto um sonho provocado pelo coma depois do acidente? Como é que Sam conseguirá voltar ao presente? E será que ele quer?

Viajar no tempo é um tema já batido nas séries de televisão, mas nunca uma viagem no tempo pareceu tão real. Num grande tributo às séries policias dos anos 70 ao estilo de Starksy and Hutch e The Sweeney (onde foi buscar as expressões mais caricatas), Life on Mars consegue apresentar uma reconstituição fiel dos anos 70, onde não faltam as calças à boca de sino e os coletes de camurça, os carros “cool” e a música excelente. Mas o melhor da série, aquilo que por muito que tentem nunca conseguirão fazer na tal falada (e cancelada?) versão americana, é reproduzir este ambiente tipicamente inglês, com as suas maravilhosas expressões e situações caricatas. Os diálogos do Inspector Hunt são imperdíveis, e as suas discussões com Sam brilhantes, mas é sem dúvida aquele sotaque de Manchester que dá um colorido diferente à série.

Ao longo destes primeiro oito episódios Sam teve tempo de dar umas lições sobre trabalho forense aos colegas incrédulos, apanhar assassinos em série e comuns ladrões, receber algumas lições sobre como lidar com jornalistas e reencontrar a família perdida. Mas o mistério da sua situação permanece, e um dia Sam vai ter de escolher entre abraçar esta realidade ou admitir que é tudo imaginação sua. A segunda temporada promete esclarecer todas estas dúvidas, e trazer-nos mais bons momentos dos anos 70, sempre ao som de David Bowie, é claro.