K-Ville

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Laissez les bons-temps rouler

Num imaginário há muito alimentado pela banda desenhada, New Orleans tornou-se numa cidade de sonho: de noite, um lugar misterioso, cheia de brumas, crime e personagens ambíguas; de dia, uma cidade amistosa, aberta aos seus visitantes, recheada de cor, de música. Assim permaneceu, durante vários anos, até ao fatídico verão de 2005. Até que a realidade se impôs à fantasia; até que o furacão Katrina destruiu por completo a imagem idílica.

Dois anos depois do eventos do Furacão Katrina, uma cidade tenta reerguer-se das águas, e cabe ao Departamento da Polícia de New Orleans controlar a criminalidade que continua a assolá-la. Longe dos ratos de laboratório e das máquinas high-tech das séries actuais, K-Ville é um policial à moda antiga, com dois polícias durões, Marlin Boulet (Anthony Anderson) e Trevor Cobb (Cole Hauser), que percorrem a cidade a alta velocidade em busca de criminosos. Entre perseguições, tiroteios, copos e interpretações pouco entusiastas dos restantes companheiros de elenco, como John Carrol Lynch no papel do Capitão James Embry, ou Tawny Cypress e Blake Shields, nos papeis de LoveTap e Glue Boy, respectivamente, esta série poderia ter sido apenas mais um fracasso da FOX.

Mas por entre todas as suas fraquezas, não obstante a grande dificuldade que é escrever algo de novo num género já por demais ficcionalizado, há algo que distingue K-Ville das outras séries – a sua estreita ligação à cidade que a acolhe. Sem pudor (ou, pelo menos, tanto quanto um canal de sinal aberto permite), K-Ville mostra-nos a verdadeira face da Nova Orleans de 2007: destruída, pobre, sem grandes expectativas de futuro, tentando lutar contra ressentimentos passados. Longe dos dramas pessoais das personagens, ou mesmo do pouco convincente passado de Cobb, é nas histórias verídicas da cidade que a série se destaca. A tensão nas ruas, vestígio do abandono a que a população foi submetida no final do desastre, marca todos os episódios, dentro e fora da esquadra – afinal, não foram apenas os civis que fugiram quando as cheias galgaram os muros, como se prova com a história de Charlie Pratt (Derek Webster) – mas é a determinação com que os sobreviventes se dedicam à reconstrução das suas comunidades que deixa uma réstia de esperança para o futuro.

Com uma recepção pouco entusiástica desde o primeiro episódio, o destino de K-Ville estava há muito definido. A aposta não foi ganha… mas pelos menos conseguiu mostrar, em apenas dez episódios, aquilo que muitos insistem em mascarar: a actual face de New Orleans, com todos os seus vícios e virtudes.

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