Publicado por: syrin | 4 Fevereiro, 2010

Dexter S3

“Be careful what you think you know about someone – you’re probably wrong.”

Todos os heróis precisam, a certo ponto da sua vida, de um sidekick, um parceiro que os ajude a sair das maiores embrulhadas, que seja a voz da razão naqueles momentos de desespero; uma pessoa que compreende os dilemas por que passam os heróis e que os apoia incondicionalmente. E se “Dexter” não gira à volta de um herói no verdadeiro sentido da palavra, a verdade é que conseguiu provar, com esta terceira temporada, que mesmo os assassinos em série precisam, por vezes, de alguém em quem confiar.

Falar sobre uma temporada que se viu há mais de um ano não é fácil, ainda para mais quando essa temporada não agradou da mesma forma que as anteriores. Não deixando nunca de ser uma grande série com uma magnífica interpretação da parte de Michael C. Hall como o assassino em série mais interessante de sempre, a verdade é que se começava aqui a sentir algum cansaço. Depois de um final de temporada com um cheirinho a final da série, a terceira temporada é dedicada à rebelião de Dexter contra o código que sempre o guiou, à tentativa de encontrar um novo caminho sem as limitações do passado que o seu pai adoptivo, Harry (James Remar), sempre lhe tentou ensinar. Mas se a rebelião anunciava algo de interessante, uma nova direcção para esta personagem que sempre se mostrou tão incapaz de evoluir, a verdade é que acabou por não surtir os efeitos desejados, proporcionando duas histórias de qualidade muito diferente que não se conseguiram nunca impor.

Enquanto o nascimento de uma relação de amizade com Miguel Prado (Jimmy Smits) possibilita as cenas mais interessantes de toda a série, dando a Dexter aquilo que nunca teve – uma pessoa que não só o compreendia, que conhecia o seu passageiro negro e que não fugia dela mas que também o instigava e tentava absorver todos os ensinamentos -, já o foco num novo assassino em série que, de assustador, só mesmo o nome, acabou por retirar o impacto ao que poderia ter sido um passo importante no desenvolvimento da personagem principal. Sem um nome tão ominoso como Skinner, sem revelar os níveis de crueldade do assassino da temporada, Miguel acaba por transformar-se num inimigo bem mais perigoso que o serial killer, provando que os ensinamentos de Harry não são para todos.

Se, a nível profissional, a qualidade das histórias variou, já a nível familiar este foi o ano em que tudo mudou. Depois dos dilemas da segunda temporada, a relação de Dexter com Rita (Julie Benz) altera-se de forma significativa – para o bem e para o mal. A personagem de Rita sempre foi secundária mas importante para a evolução de Dexter, para o seu crescimento enquanto personagem e enquanto ser humano – aquele que ele é, mesmo que, por vezes, se recuse a reconhecê-lo. Infelizmente, o papel preponderante que teve na primeira e, de certa forma, na segunda temporada acaba por diminuir, transformando-se em pouco mais de uma caricatura de uma mulher grávida insegura, algo que não desejávamos para a personagem. Igual sorte tem Debra (Jennifer Carpenter), cujas relações amorosas insistem em não querer vingar, e que apenas no plano profissional parece conseguir vingar, mesmo quando se vê obrigada a lidar com um novo parceiro, Quinn (Desmond Herrington).

Embora a forma como as promessas e histórias lançadas no final da segunda temporada parecem ter sido esquecidas e se o anti-climax de “Do You Take Dexter Morgan” não nos surpreende verdadeiramente, tirando algum do brilhantismo a uma série até agora irrepreensível, é impossível deixar de pensar que esta história ainda agora parece ter começado e que, tal como a gota de sangue que mancha o vestido imaculado, o futuro de Dexter poderá vir a ser mais sangrento do que se imaginava.

Publicado por: syrin | 7 Janeiro, 2010

Sons of Anarchy S1

Durante toda a nossa infância fomos habituados aos valorosos heróis de capa e espada, personagens maiores que a vida, correctos, justos, bastiões dos ideais mais perfeitos; estes eram os heróis que protegiam os indefesos e lutavam contra as injustiças, os modelos que mais tarde deveríamos seguir. Era assim no passado. Mas, de repente, estes heróis da ficção desceram ao mundo real, trocaram as suas capas e espadas por blusões de cabedal e armas, começaram a trabalhar por si e para si. Surgiram assim Tony Soprano, Vic Mackey, Gregory House, os anti-heróis que mudaram a nossa forma de ver o mundo, que se distanciaram do simples bom e mau, preto e branco, para se inserirem num patamar mais cinzento, difícil classificar. E é na sua rasteira que chega “Sons of Anarchy”.

Com a partida da saudosa “The Shield”, que deixou uma marca entre os dramas desta década, tornava-se necessário encontrar algo que a substituísse, e se “Sons of Anarchy” não consegue ainda chegar ao nível da sua antecessora, está já muito bem encaminhada. A premissa é simples: na pequena cidade fictícia de Charming, no norte da Califórnia, a vida gira à volta de um gangue de motas, a divisão fundadora dos Sons of Anarchy Motorcycle Club Redwood Original (SAMCRO). Entre os negócios legítimos da oficina de reparação de automóveis e o tráfico ilícito de armas pela calada, os Sons governam a cidade em silêncio, graças ao punho de ferro de Clay Morrow (Ron Perlman), líder do grupo. Violência, tráfico, tiros e muita acção, esta podia ser a história desta série, mas o que encontramos é mais, muito mais.

Quando Kurt Sutter criou a série, tinha dois objectivos principais: explorar as relações familiares, tomando como exemplo tragédias shakespearianas como “Hamlet”, e revelar ao mundo a cultura dos clubes de motas, mostrar a sua verdadeira realidade, longe dos estereótipos que, ao longo dos anos, lhes foram atribuídos pela ficção. Apoiando-se numa investigação profunda, tentou assim mostrar uma subcultura desconhecida, com códigos de conduta, regras e leis muito próprias, organizações com uma estrutura de comando rígida e complexa onde tudo se faz em defesa do Clube e dos seus membros. Sem defender, aprimorar ou sequer esconder os problemas e a violência causada pelos seus membros, que vemos e confirmamos ao longo da série, como durante o ataque ao armazém no episódio piloto ou na cruel sentença aplicada a um antigo membro que ousou desafiar as regras em “Giving Back”, “Sons of Anarchy” consegue, ao mesmo tempo, mostrar-nos o outro lado da história que, por vezes, nos recusamos a reconhecer. E se todas as personagens se encontram neste patamar cinzento, nenhuma é mais difícil de classificar do que Gemma Teller (Katey Sagal), rainha e senhora dos Sons, viúva do fundador e esposa do actual líder, a mulher que arriscou tudo ao trazer consigo os Sons para a cidade e que governa a vida dos seus membros e famílias.

Ao mesmo tempo que explora os códigos e regras do Clube, a relação difícil que este mantém com as autoridades da cidade – expressas da melhor forma na dicotomia que existe entre Wayne Unser (Dayton Callie) e David Hale (Taylor Sheridan), chefe da polícia e segundo no comando, entre apoiante e opositor aos Sons – e com os inimigos comuns, como os rivais Mayans e os supremacistas brancos “Nords”, “Sons of Anarchy” aprofunda as crises internas que poderão vir a causar a destruição de tudo aquilo porque o clube sempre lutou. Desiludido com a escalada de violência, Jax Teller (Charlie Hunnam), vice-presidente dos Sons e filho do fundador, começa a questionar o caminho seguido pelo Clube, e a descoberta de um manuscrito do seu falecido pai, que salienta os ideais de liberdade que deram origem a este movimento poderá vir a ser a gota de água que irá levar à destruição do clube.

Com uma estrutura lenta, que não cativa desde início, e uma miriade de tramas secundárias que não trazem nada à história, como é o caso da perseguição a Tara (Maggie Siff), ex-namorada de Jax, por parte do assustador agente do ATF Josh Kohn (Jay Karnes), resolvida de forma insatisfatória em  “Hell Followed”, as voltas e reviravoltas na relação de Jax com a ex-mulher Wendy (Drea de Matteo) e com Tara, a doença do pequeno Abel e a complexa ligação dos Sons ao Real IRA, a primeira temporada desta série não é de fácil consumo, mas chegados aos últimos capítulos, é com grande satisfação que damos o tempo por bem gasto. “Capybara” marca, sem sombra de dúvidas, o momento em que a série encontra o seu caminho, em que começa a caminhar numa direcção concreta e que se afirma como uma história a seguir atentamente. Os dilemas de Opie (Ryan Hurst) para escolher entre o Clube e a família, ao ver-se encostado à parede pela agente Stahl (Ally Walker), irão determinar o resto da temporada, culminando com o triste (se bem que previsível) “The Sleep of Babies” que poderá ser a machadada final na família de armas que são os Sons. E se a dramática tomada de posição de Jax em “The Revelator” parece algo exagerada para uma série que pretende, acima de tudo, ser levada a sério, não há dúvida que os minutos finais nos deixam em pulgas para saber o que irá acontecer a todas estas personagens.

“Sons of Anarchy” pode não ter conseguido conquistar desde o primeiro momento todos aqueles que procuravam o sucessor de “The Shield”, mas graças a uma trama interessante e às personagens marcantes que revela, deixa no ar uma grande expectativa para o futuro.

Publicado por: syrin | 5 Janeiro, 2010

Pushing Daisies S2

No panorama televisivo actual, onde se aposta em produtos certos, em sequelas, spin-offs, reimaginações e actualizações, as histórias diferentes perdem cada vez mais o seu lugar, relegadas para horários pouco atractivos ou canceladas sem dó, deixando em aberto tramas principais e secundárias. Talvez por isso soubéssemos desde o início que “Pushing Daisies” não iria ter vida fácil, mesmo com a crítica e o público a apoiá-la. Talvez por isso os meros nove episódios da primeira temporada e a interrupção a meio da segunda não nos surpreendessem verdadeiramente. Mesmo assim, e mesmo se “Pushing Daisies” nunca tenha deslumbrado, por estas bandas, tanto como deslumbrou por outras, a verdade é que o cancelamento desta pequena fantasia não deixa de ser injusto.

Com treze sólidos episódios que não só nos deram casos divertidos como o da morte misteriosa de uma freira em “Bad Habits” ou o de um assassinato num farol em dia de chuva em “The Legend of Merle McQuoddy”, mas também exploraram personagens que permaneciam misteriosas, como o regresso da família de Emerson Cod (Chi McBride) em “Water and Power”, e  trouxeram uma nova parceria entre este e Olive (Kistin Chenoweth), arrancando as maiores gargalhadas ao longo da temporada, e confirmando o estatuto destes dois grandes actores, foi sem dúvida quando se regressou ao mistério principal, ao poder de Ned (Lee Pace) e as suas consequências para todos, que a série se superou. E mesmo se o final abrupto de “Kerplunk” tenha interrompido a história principal, deixando um pouco em aberto as histórias dos pais tanto de Ned como de Chuck (Anna Friel), o facto de termos tido a oportunidade de regressar, por breves momentos, a Coeur d’Coeur já é uma bela prenda.

Diálogos brilhantes, personagens divertidas, situações inusitadas, cenários fantasiosos e um romance que não deixa ninguém indiferente, é assim que “Pushing Daisies” se despede de todos. A sua vida pode não ter sido longa, mas só pelo facto de trazer à vida personagens como as tias Vivian (Ellen Greene) e Lily (Swoosie Kurz), merece um lugar de destaque.

Publicado por: syrin | 3 Janeiro, 2010

The Wire S1

“The King stay the King”

Baltimore, Maryland. Uma cidade como tantas outras na costa leste dos Estados Unidos, Baltimore luta há anos contra o flagelo da violência, dos homicídios, da droga e da corrupção. Nesta cidade onde o crime compensa, o que começa como uma simples investigação sobre os barões da droga locais irá tornar-se numa viagem pelo submundo das grandes metrópoles, um verdadeiro documentário sobre os problemas que a sociedade moderna tenta esconder.

Contar uma boa história nem sempre é fácil: criar uma trama interessante, recheá-la de personagens marcantes, incluir reviravoltas surpreendentes que prendam o leitor até ao final coerente. Contar uma boa história implica uma grande imaginação, muita deliberação e um sentido crítico apurado para saber o que resulta ou não. Talvez por isso, e por muitas dezenas de livros que se leiam por ano, raras são aquelas histórias que sobressaem e que nos conseguem cativar. O mesmo acontece com a televisão, um meio onde se trabalha de forma mais rápida, onde a estética se sobrepõe, geralmente, à história que se pretende contar, onde se tem de lidar com um potencial público que não tem paciência para tramas intrincadas e que não quer ser obrigado a regressar, semana após semana, aos mesmos eventos. Mas por vezes, quando os astros se alinham e se deixa o autor à solta com a sua obra, conseguem-se criar algumas das melhores histórias de sempre. E foi isso que David Simon e Ed Burns tentaram fazer com “The Wire”.

Determinado a acabar com o clã Barksdale, rei e senhor do tráfico de droga em West Baltimore, o detective do Departamento de Homicídios Jimmy McNulty (Dominic West) consegue que seja criada uma pequena equipa de investigação dedicada a perseguir os traficantes da cidade. Liderada pelo tenente Cedric Daniels (Lance Reddick) do Departamento de Narcóticos, um homem com um passado obscuro e firme defensor da cadeia de comando, e contando com a ajuda dos detectives Greggs (Sonja Sohn), Herc (Domenick Lombardozzi) e Carver (Seth Gillian), a equipa irá lançar uma investigação profunda ao bando de Barksdale, mas vê-se limitada por interesses escondidos da parte dos dirigentes políticos e policiais da cidade.

Ao contrário de muitas outras séries policiais, “The Wire” não apresenta casos soltos, investigados em 40 e poucos minutos, nem grandes cenas de acção, que nos deixam prontos a saltar da cadeira, e muito menos maravilhas tecnológicas que ajudam a deslindar um caso em poucos segundos. O que descobrimos aqui é uma história continua, uma única investigação que irá ser a trama principal durante os treze episódios da primeira temporada e cujas repercussões se farão sentir até ao final; cenas de acção pura são raras, trocadas por momentos de reflexão, e quando as novas tecnologias marcam presença, ficam-se pelo substituir das máquinas de escrever pelos simples computadores. Tudo isto poderia ser prejudicial à série, mas acaba por ser aquilo que a permite distinguir-se das outras, destacar-se num terreno desbravado por grandes séries como “Homicide: Life On The Street” e “The Shield”.

Com uma estrutura muito própria, não é fácil entrar na história desta série, sendo necessários vários episódios para conseguir distinguir as (muitas) personagens, saber a que campo pertencem e quais os seus objectivos. O foco vai alternando entre as várias personagens, deixando-nos descobri-las lentamente: é assim que vemos um apagado Lester Freamon (Clarke Peters) revelar-se um dos mais inteligentes e impressionantes detectives do grupo, e que Roland “Prez” Pryzbzlewsky (Jim True-Frost) consegue deixar para trás os erros do passado. Por outro lado, ao apresentar a história também do ponto de vista dos traficantes, acrescenta-se uma intensidade diferente à história, provando mais uma vez que a antiga distinção entre bons e maus, heróis e vilões, está completamente ultrapassada. Se McNulty e Daniels são os líderes da investigação, o calculista Russel “Stringer” Bell (Idris Elba) e o chefe máximo Avon Barksdale (Wood Harris) são os grandes destaques do lado dos traficantes, dois homens que irão guiar grande parte desta história e que, graças à sua inteligência, irão provar ser inimigos à altura de qualquer equipa mais empenhada. E, no meio destes “heróis” e “vilões”, o que dizer de Omar Little (Michael K. Williams), provavelmente a melhor personagem de toda a série, o Robin Hood que rouba aos traficantes para dividir entre si e os mais pobres da comunidade, o ladrão que aterroriza as ruas ao som de músicas de embalar mas que segue um código de conduta muito próprio?

O facto de muitos eventos ocorrerem fora de cena torna-se outro obstáculo à recepção inicial desta história, obrigando a prestar muita atenção a tudo o que se passa, a guardar na memória conversas, eventos e nomes que, mais tarde (muito mais tarde), poderão vir a ser determinantes para a história. Mas se estas características muito próprias da série tornam a entrada neste universo mais complicada, acabam por revelar-se uma mais valia e surpreender aqueles que não desistem após os primeiros episódios. “The Buys” é, provavelmente, o episódio que marca essa diferença e que nos permite entrar verdadeiramente na história, identificar os “inimigos” graças a uma muito interessante alegoria naquela que é, provavelmente, a melhor cena de sempre desta série.

Porque “The Wire” se posiciona entre o documentário e a alegoria, entre o mostrar da realidade e o explorar daquilo que por detrás desta se esconde, a investigação policial revela-se apenas uma peça deste xadrez, mais uma trama entre outras que ganham tanto ou mais destaque. Esta é uma série sobre o tráfico, sobre os gangues e a sua violência que não poupa ninguém, nem mesmo os mais inocentes, que se vêem obrigados a entrar no jogo e que dele não conseguem sair como é o caso de  Bodie (J.D. Williams) e Wallace (Michael B. Jordan), representante máximo deste drama e figura essencial do momento mais marcante da primeira temporada em “Cleaning Up”. É também uma série sobre o questionar da autoridade, da importância que cada um tem no Jogo, seja ele o da criminalidade ou o da vida, tal como o faz D’Angelo (Larry Gillard Jr.), figura trágica que se encontra dividida entre a família e a consciência. Esta é uma série sobre a droga e as suas consequências devastadoras, personificadas magistralmente na personagem de Bubbles (Andre Royo), o toxicodependente e informador da polícia que representa o lado mais real da luta contra as drogas. Esta é uma reflexão sobre a fé que depositamos nas instituições que, no fundo, são altamente corruptíveis e que se defendem a si próprias, em vez de defender o indivíduo, como vemos em personagens como Rawls (John Doman), Burrell (Frankie Faison) e Clay Davis (Isiah Whitlock Jr.). Esta série é, afinal, um espelho da realidade que muitos se recusam a aceitar.

“The Game is out there, and it’s either play or get played.” Uma história complexa e interessante que nos obriga a reflectir, com uma imagem soberba, recheada de brilhantes interpretações, diálogos irrepreensíveis e cenas memoráveis, vale a pena dedicar várias horas da nossa vida a ver “The Wire”, mesmo que, por vezes, nos custe a aceitar a realidade nesta expressa. Mas quando a história é boa, vale tudo… nem que seja para descobrir Omar, Bubbles e “the Bunk” (Wendell Pierce).

Publicado por: syrin | 3 Dezembro, 2009

V + V: The Final Battle


Se há imagens que ficam guardadas na memória, são as da infância, aquela época em que tudo nos fascinava, em que tudo nos deixava de boca aberta a olhar para um ecrã onde não havia ainda muita escolha. E se há várias imagens que, deste lado, ficaram para sempre guardadas, nenhuma delas se compara ao revelar dos Visitantes na mini-série “V”.

Em plenos anos oitenta, um dia como tantos outros promete tornar-se no despertar de uma nova era. Gigantescas naves espaciais aproximam-se da Terra, colocando-se sobre as principais cidades do mundo. Dentro delas viaja uma raça extraterrestre, em tudo semelhante à humana, que procura amizade e ajuda para salvar o seu planeta da destruição. Belos, com os seus uniformes laranja e óculos de sol estilosos, e afáveis, estes visitantes prometem mudar a forma como vemos o universo e ajudar-nos a superar barreiras na medicina. Mas por detrás das suas máscaras sorridentes esconde-se um terrível segredo que poderá pôr em risco toda a humanidade. Das perseguições aos cientistas ao estabelecimento de um regime autoritário, das mortes e desaparecimentos misteriosos ao genocídio, este é um desafio que vai pôr todos à prova e mostrar que, apenas unidos, conseguiremos vingar.

Vinte e seis anos depois da sua estreia, é indiscutível que “V” e a sua sequela “V: The Final Battle” estejam datadas. As roupas e os penteados exagerados, os efeitos especiais e os diálogos forçados, os estereótipos e as caricaturas, muitos são os problemas que encontramos hoje nesta série e que, durante a nossa infância, passavam despercebidos. Mas se a idade não perdoa e muito do que aqui vemos se encontra datado, por vezes basta uma premissa interessante para conseguir manter uma história actual. Os anos passam, os regimes mudam, mas esta alegoria continua hoje tão actual como há duas décadas atrás.

Com uma história coerente e um crescendo de intensidade que nos conquista, a mini-série original é claramente o ponto alto da história, ilustrando a forma como é possível fechar os olhos aos perigos e aceitar tudo de mão beijada, traindo a sua própria raça, como no caso dos humanos Eleanor (Neva Patterson) e Daniel Berstein (David Packer). É o palco do maior desenvolvimento de personagens como Juliet (Faye Grant) e Donovan (Marc Singer), líderes da resistência que promete combater os Visitantes, do desvendar dos maiores mistérios, surpresas e reviravoltas. E, é claro, é o palco de uma das cenas mais marcantes de sempre da ficção científica, com a revelação da verdadeira identidade dos visitantes durante uma pequena pausa para o lanche da maléfica Diana (Jane Badler). Em apenas dois episódios, “V” consegue assim criar um mito que nem mesmo as sequelas conseguiram derrubar. Já “V: The Final Battle”, mesmo trazendo consigo alguns pontos interessantes, dando maior importância à resistência extraterrestre Fifth Column e ao seu líder, John (Richard Herd) e apresentando outra das cenas mais memoráveis de sempre, com o nascimento dos bebés de Robin (Blair Telfkin), nunca consegue alcançar o nível da sua antecessora e acaba por ter um final algo previsível e estranho, que mais tarde se veio a desvirtuar com a primeira temporada da série. Mas mesmo com estes problemas, mesmo com todos os defeitos que a idade trouxe à história, não há dúvida que esta continua a ser uma das mais interessantes séries de ficção cientifica que já passaram pelos nossos ecrãs e que vale a pena ver (ou rever).

Publicado por: syrin | 16 Novembro, 2009

Entourage S6

Entourage

“Life changes. Friends don’t”

Se há série que, ao longo dos anos, se tem revelado cada vez mais como um guilty pleasure, é “Entourage”. Esta não é a melhor série de sempre, nem de longe nem de perto. Nem sequer é uma série imperdível, daquelas que, pelas suas personagens, pela sua história ou pelos seus diálogos, traz algo de novo ao panorama televisivo. Não. “Entourage” tem sido, ao longo dos anos, aquela série leve de verão que nos permite, por momentos, escapar da nossa realidade, deixar o cérebro descansar e ver a vida (fictícia) dos ricos e famosos de Hollywood. Sem nunca tentar ser demasiado fiel à realidade, sem nunca se preocupar muito com o que é credível ou não, a verdade é que, ao longo das temporadas, “Entourage” se tem afirmado como uma das favoritas deste cantinho. Talvez por isso, depois de uma quinta temporada que desiludiu em certos pontos, as expectativas não fossem muitas. Mas se, ao longo deste sexto ano, houve alguns altos e baixos, não há dúvida que a série regressou aos bons velhos tempos.

Não sendo totalmente inédito, o salto temporal inicial de “Drive” deixa-nos de certa forma frustrados pela forma como se menospreza toda a história à volta da tábua de salvação de Vince (Adrian Grenier), o filme com Martin Scorcese. Mas rapidamente se percebe que esta acaba por ser a melhor escolha. Como a personagem mais fraca desta história, nunca nos preocupamos muito com o destino de Vince a não ser quando afecta o dos seus amigos, e por isso o facto de pouco ou nada ter feito durante todos os episódios passa-nos completamente ao lado. Entre mulheres, mulheres e mais mulheres, o dia-a-dia de Vince é apenas pano de fundo para o que se vai passando com os outros habitantes da mansão.

Se para Vince as mulheres foram o grande passatempo da temporada, para Eric (Kevin Connolly) as mulheres continuam a ser a sua perdição. As relações sucedem-se sem que nunca consiga esquecer a sua grande paixão, Sloan (Emanuelle Chriqui), deixando-nos com cada vez menos vontade de assistir ao drama da semana. Mas felizmente no final tudo parece bem encaminhado, tanto a nível do coração como do trabalho na nova agência. Já para Drama (Kevin Dillon), esta foi também uma temporada de mudanças a nível profissional, provocadas por um pequeno incidente com um dos seus chefes que poderia ter ditado o fim da carreira mas que acaba por se revelar uma grande surpresa. “Berried Alive” e “Scared Straight” são sem dúvida os pontos altos para este actor desesperado que encontra, no final, aquilo que tanto procurou. Mas porque nem tudo pode ser um mar de rosas, e ao contrário dos amigos, para Turtle (Jerry Ferrara) esta temporada termina em baixo. Sem dúvida a personagem menos explorada até aqui, foi interessante descobrir mais sobre um Turtle que, com a ajuda da nova namorada (dentro e fora do ecrã) Jamie-Lynn Sigler, evoluiu e a tentou encontrar um novo rumo. Não é de estranhar, por isso, que os episódios onde teve um papel preponderante, como “One Car, Two Car, Red Car, Blue Car” e “Give a Little Bit” fossem os melhores da temporada, e que o fim da relação nos deixasse tão tristes como Turtle. Mas porque as reviravoltas inesperadas são marca desta série, quem sabe a próxima temporada não traz consigo boas surpresas.

Entre altos e baixos, assim se fez a temporada para os quatro amigos. E porque, do outro lado, não se pode deixar de acompanhar o que se passa na mansão, pelos escritórios de Ari (Jeremy Piven) muitas foram também as reviravoltas. Farto de ser capacho, as tentativas de subir na carreira de Lloyd (Rex Lee) não correm muito bem, acabando por deixar a firma para ir trabalhar para o maior rival. Mas porque, no fim, tudo tem de correr bem nesta fantasia dos tempos modernos, o regresso do filho pródigo à casa que o viu partir traz consigo não apenas uma das melhores cenas de sempre da série – a marcha da vitória (e da vingança) de Ari pelos corredores da sua antiga empresa – mas também a reconciliação com aquele que, quer queira quer não, se tornou já um amigo indispensável.

Com histórias hilariantes, evolução das personagens, grandes risadas e algumas lágrimas, assim se fez esta sexta temporada que, não sendo a melhor, deixa a fasquia bem alta para o próximo verão.

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