Publicado por: syrin | 30 Junho, 2009

Heroes S3

Heroes 3

Fénix. Uma criatura mitológica que renasce das suas próprias cinzas. Uma das mais queridas figuras da banda desenhada norte-americana, a Fénix representa também o poder de superar os obstáculos e conseguir reinventar-se. Nada menos do que isso era o que esperávamos da terceira temporada de “Heroes”, depois da desilusão que foi o segundo volume, “Generations”. Esperava-se que a trama passasse a ter um rumo definido, que as personagens escolhesse um lado e o mantivessem por mais do que um episódio, que os mistérios que desde o início nos intrigavam fossem explicados, e que a série recuperasse o encanto inicial. Mal sabíamos nós em que nos estávamos a meter.

Ominosamente intitulado “Villains”, o terceiro volume desta série pretendia explorar o lado mais negro das personagens, dar-nos uma visão do que seria o mundo controlado por eles. É assim que descobrimos a verdade sobre a tentativa de assassinato a Nathan (Adrian Pasdar), que vemos mais um futuro alternativo que terá de ser evitado e que assistimos à reunião dos elementos deste xadrez. De um lado, Mohinder (Sendhil Ramamurthy), Nathan, Nikki/Jessica/Tracy (Ali Larter), Elle (Kristen Bell) e Sylar (Zachary Quinto), guiados pelo renascido Arthur Petrelli (Robert Forster), o misterioso patriarca da família que parece ter vindo a puxar todos os cordelinhos desta história. Do outro lado, guiados pelas visões de Angela Petrelli (Cristine Rose), Peter (Milo Ventimiglia), Claire (Hayden Panettiere), Daphne (Brea Grant), Parkman (Greg Grunberg), Hiro (Masi Oka) e Bennet (Jack Coleman). Os dois campos encontram-se no momento mais aguardado destas três longas temporadas, o eclipse que tanto deu que falar para no final… no final não acontecer nada. Toda a trama da fórmula milagrosa que daria poderes a todos os humanos termina sem nenhuma resolução, e todo o impacto que “The Eclipse” poderia trazer foi, mais uma vez, desperdiçado, assistindo-se ao regresso ao status quo inicial.

Num capítulo onde tudo aconteceu a velocidades que fazem inveja a Daphne, em que as personagens mudaram de alianças e de lado tantas vezes quantas mudaram de roupa, passando de bons para maus para bons em questão de meros episódios, e em que a história se revelou ainda mais embrulhada do que antes, houve, mesmo assim, alguns momentos interessantes, como o destino da mãe biológica de Claire em “Dual”, a roleta russa do Puppet Master em “Dying of the Light”, ou a sentida despedida de Hiro da sua mãe em “Our Father”, mas o peso das múltiplas linhas de argumento que não levam a lado nenhum e que destroem o trabalho para trás já realizado fez-se sentir, ilustrando a falta de direcção que a série tem desde o início da segunda temporada.

Despedidos alguns escritores, e prevendo-se já o regresso de um dos antigos responsáveis pelo sucesso da série, o início do quarto volume, “Fugitives” almeja esquecer todos os problemas e dar um novo propósito à série, e a verdade é que a “A Clear and Present Danger” consegue dar-nos um pouco daquilo que a série tanto precisava: uma direcção mais concreta, mais acção e novas personagens interessantes, como The Hunter (Željko Ivanek). Nesta homenagem à X-Tinction Agenda, Nathan (novamente do lado do mal) alia-se ao governo americano para livrar a América dos mutantes heróis, obrigando-os a sofrer (e, em alguns casos, mesmo a morrer) para conseguirem escapar das garras dos seus captores. Quanto a Sylar, este prefere deambular livremente pelos Estados Unidos fora, à procura das suas verdadeiras raízes e de uma vingança há muito sonhada do pai biológico que o abandonou.

Se a história começa bem, e o destino de algumas personagens, como Micah (Noah Gray-Cabey) em “Cold Snap” nos deixem bem impressionados, o problema de sempre mantém-se: reviravoltas confusas, mudanças de aliança inexplicáveis, reaparecimentos inacreditáveis e ret-cons que deixam qualquer fã de continuidade de cabelos em pé. Por muito interessante que “1961” seja, mostrando-nos um pouco do passado da Companhia e dos seus principais elementos, torna-se dispensável no meio de uma história que não se sabe bem para onde caminha, e apresenta tantos erros de continuidade que nem mesmo a pequena atenção ao roubos de Angela Petrelli na primeira temporada nos deixa descansar sabendo que a série está em boas mãos. Entre histórias desperdiçadas (como a supra-mencionada X-Tinction Agenda), desperdiçáveis (dois japoneses e um bebé) e completamente inacreditáveis, como a resolução de “An Invisible Thread”, o volume quatro, melhor do que o terceiro, continua a cair nos mesmos erros.

Ao contrário da Fénix, que renasceu das cinzas, “Heroes” mostra-se cada vez mais incapaz de sair da sua espiral descendente, deixando-nos com receio do que poderá chegar na quarta temporada.

Publicado por: syrin | 28 Junho, 2009

How I Met Your Mother S4

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“I’m cuddly bitch. deal with it!”

Sair de uma temporada muito boa e conseguir manter elevada a fasquia de uma série não é fácil. Há quem o consiga fazer da melhor maneira (“Breaking Bad”, “Chuck”), e há quem comece a dar provas de um certo desgaste (“House”). Mas conseguir manter fresca e actual uma série que não só tem na bagagem várias temporadas, mas onde sabemos de antemão o final, torna-se mais complicado. Talvez isso explique o leve decréscimo de qualidade nas histórias desta quarta temporada de “How I Met Your Mother”.

Com o sim de Stella (Sarah Chalke) a Ted (Josh Radnor), a história prometia mudar de direcção. De repente, encontrávamo-nos perante a potencial mãe, a elusiva mulher que procuramos desde o primeiro episódio. Stella era interessante, uma boa adição ao grupo de amigos e alguém que conseguia mesmo tornar Ted numa pessoa melhor. Mas Stella tinha um problema: não podia ser a mãe para não terminar aqui a história. E, por causa disso, teve de ir embora. “Shelter Island” pode não ter sido o melhor episódio de sempre da série, e pode até ter estragado um pouco uma personagem que, desde o início, sempre pareceu extremamente sensível, mas até era compreensível, dada a história passada da personagem. O grande problema causado pela sua saída acabou por ser a perda de direcção da história.

Sabemos, desde o início, que a descoberta da mãe é de menor importância, e que as vidas, os percalços e a amizade destes cinco amigos há muito que se tornou o ponto fulcral da história. Mas mesmo em séries onde o elemento central é a amizade, espera-se que haja um fio condutor, algo que ligue os episódios e nos faça voltar, semana após semana, para ver estas personagens, para acompanhar a sua interacção e o seu desenvolvimento. E foi aqui que a quarta temporada de “How I Met Your Mother” pecou. Com Stella fora de jogo, Ted, indiscutivelmente a personagem principal, volta a ser o chato de sempre, o homem que não se consegue decidir e que saltita de situação em situação, sem nunca escolher um caminho. Dos seus dramas profissionais às várias relações que manteve no resto da temporada, nada se destacou, e mesmo o tão excitante “Right Place Right Time”, que tantas esperanças deixou, acabou por ser mais um falso avanço numa história recheada deles.

Sem uma trama definida, a temporada acabou por ser marcada por episódios soltos que, embora continuem divertidos, deixaram também um certo sentimento de que a magia se começa a extinguir. Sim, o humor permanece, tal como a estrutura diferente das histórias, com avanços e recuos na linha temporal, soberbamente realizados em episódios como “Three Days of Snow”; sim, as personagens secundárias, encabeçadas por Marshall (Jason Segel) e Barney (Neil Patrick Harris) continuam a fazer as nossas delícias, especialmente a partir do momento em que ganharam mais destaque com as gravidezes bem visíveis (ou talvez não!) das intérpretes de Lily (Alyson Hannigan) e Robin (Cobie Smulders). E sim, episódios como “The Naked Man”, “Mosbius Designs” e “Intervention” ainda nos conseguem deixar a rir às gargalhadas. Mas porque esta série já provou que consegue fazer melhor, fica uma certa sensação de desapontamento pelas oportunidades perdidas, e uma esperança que, entre o novo rumo profissional de Ted e os possíveis desenvolvimentos no romance mais esperado de sempre da série, “How I Met Your Mother” reencontre o seu caminho. Afinal, quem nos deu Slap Bets, Robin Sparkles e inovadores currículos-vídeo, já provou o seu valor.

Publicado por: syrin | 21 Junho, 2009

No Heroics S1

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No masks. No powers. No heroics.

Inglaterra. Uma cidade como tantas outras… mas com uma pequena diferença. Nesta cidade, os super-heróis são o prato do dia, e tanto salvam um edifício em chamas como cortam a relva com os seus fatos coloridos. Num mundo onde os super-heróis são pessoas como todas as outras, quatro amigos reúnem-se à volta de copos de Shazamstell, V for Vodka ou Gin City e discutem os seus feitos pouco heróicos.

Depois de sucessos vários no cinema, é natural que as histórias de super-heróis chegassem também ao pequeno ecrã, mas certamente nunca se imaginou que causassem tanto estrago como esta comédia negra da ITV2. “No Heroics”, como o próprio nome indica, é uma série onde os feitos heróicos se encontram em segundo plano, e onde a vida normal de quatro super-heróis de segunda categoria ganha destaque.

À volta de uma mesa do The Fortress, o pub dos super-heróis, reúnem-se quatro dos heróis mais descartáveis de sempre. Alex ou “The Hotness” (Nicholas Burns) é o mais triste. Um herói capaz de controlar o fogo, chega sempre atrasado aos compromissos, sendo inevitavelmente ultrapassado pelo seu arqui-inimigo, o maior herói da zona, Excelsor (Patrick Baladi). Mas a pouca sorte de The Hotness não se fica pelos negócios – também no amor se vê aflito, com poucas candidatas e com uma relação mal resolvida com a ex-namorada Sarah (Claire Keelan), também conhecida por “Electroclash”, cujo poder de dominar todas as máquinas é usado principalmente para sacar maços de cigarros às máquinas de vendas automáticas do bar e irritar o segurança do bar, “Thundermonkey” ou Simon (Jim Howick). Antiga companheira de equipa de Eletroclash, She-Force (Rebekah Staton) é a terceira mulher mais forte do mundo, mas preferia ser apenas Jenny, uma anónima funcionária de escritório, enquanto Don “Timebomb” (James Lance) já deixou os seus dias de herói violento para trás e goza a sua reforma em paz, com muitas drogas, bebedeiras e sexo anónimo com qualquer homem que lhe apareça à frente.

Longe de todos os poderes e dos fatos coloridos que marcam as suas vidas profissionais, homenagens claras à época de ouro dos super-heróis da banda desenhada, é no bar que as conversas entre estes quatro heróis desajustados revelam todo o humor negro que apenas na Grã-Bretanha se consegue escrever. Sem papas na língua, a linguagem mais colorida destes heróis e as situações caricatas em que frequentemente se encontram, de onde se destacam uma noite pavorosa com uma groupie, uma conversa com ex-fãs, um serviço de guarda-costas a um puto irritante ou um encontro com um membro de um grupo anti-superheróis são o grande forte da série, mostrando que, por vezes, ainda se consegue criar dentro de um género mais do que explorado.

Com a versão americana da série já devidamente cancelada, para bem da nossa sanidade mental, espera-se apenas que os próximos tempos nos possam trazer mais aventuras deste mundo.

Publicado por: syrin | 10 Junho, 2009

Burn Notice S1

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Know what it’s like being a spy? It’s like being in a dentist’s office twenty-four hours a day. Read magazines, have coffee, and every so often, someone tries to kill you.

Dorothy, Blanche, Rose e Sophia, Sonny e Rico, Sean e Christian, Horatio, Dexter. O que têm em comum todas estas personagens tão diferentes? A sua cidade, o local a que chamam lar: Miami. Terra do sol, da praia e das mulheres em bikini, este é um local idílico para a maioria dos comuns mortais, mas um pesadelo para Michael Westen (Jeffrey Donovan).

O que acontece a um espião quando é despedido? Ele é queimado: todas as suas identidades são apagadas, as suas contas congeladas, entra para as listas negras das agências internacionais de espionagem e é forçado a desenrascar-se na cidade onde o abandonam. Para Michael, a situação é ainda pior: não sabe porque foi despedido, não tem recursos, e é forçado a trabalhar como detective privado para poder sobreviver numa cidade que odeia, uma cidade onde a mãe Madeline (Sharon Gless), uma hipocondríaca e fumadora inveterada, o pode chatear a qualquer hora do dia e onde o irmão mais novo Nate (Seth Peterson) se mete em embrulhadas constantes. Mas como qualquer ex-espião que se preze, Michael não vai baixar os braços e aceitar o seu destino: com a ajuda da ex-namorada Fiona (Gabrielle Anwar), uma terrorista do IRA com uma grande apetência para as armas e as explosões, e de Sam (Bruce Campbell), um espião reformado que aproveita o seu tempo em Miami a seduzir mulheres ricas, Michael vai tentar resolver o mistério do seu despedimento e regressar ao activo.

Excitante e divertida, “Burn Notice” combina acção, intriga, romance e humor de forma exímia, nunca nos dando um momento para descansar. Os casos apresentados ao longo dos doze episódios que constituem a primeira temporada, que variam de protecção de testemunhas a guerras de droga, de raptos a esquemas de prostituição clandestina, podem não ser os mais originais, mas com ajuda de um elenco competente, uma acção rápida e várias dicas e vídeos de instruções sobre como sobreviver neste mundo tão perigoso, conseguem transformar esta que poderia ser apenas mais uma série de acção numa das histórias de espiões mais interessantes dos últimos anos. E com o mistério que envolve Michael ainda em aberto no final de “Loose Ends”, a segunda temporada promete trazer mais grandes histórias passadas nesta idílica Miami.

Publicado por: syrin | 28 Maio, 2009

The Shield S7

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There are things I regret . Cause you can’t forgive . You can’t forget . There’s a game that I play . There are rules I had to break . There’s mistakes that I’ve made . But I’ve made them my way

De que são feitas as memórias? De momentos. Momentos calmos ou marcantes, momentos em que tomámos decisões ou em que decidimos nada fazer, momentos em que avançámos ou em que nos deixámos ficar para trás. Momentos que ficam guardados para sempre, e que não se conseguem mais esquecer.

As memórias são feitas de momentos e é por isso natural que, no cair do pano de sete anos de “The Shield“, se tenha escolhido homenagear esta série recordando os seus momentos mais marcantes. Ao som de “Long Time Ago” dos Concrete Blonde relembramos uma esquadra ainda despida que rapidamente se enche com as nossas figuras principais. Recordamos aqueles que deram a vida por esta história e aqueles que injustamente foram esquecidos. Recordamos momentos de felicidade e choques que nos deixaram completamente devastados. Recordamos a granada que destruiu uma amizade e as balas que, em sua homenagem, se cravaram no chão. Recordamos sete anos de brilhantes interpretações e de uma trama que nos conseguiu prender, até ao último segundo, ao ecrã.

Depois de uma sexta temporada mais fraca, que mais pareceu um compasso de espera entre a morte de Lem e o confronto final dos membros da antiga Equipa de Intervenção, o arranque da sétima temporada foi forte, com a primeira retaliação de Vic (Michael Chiklis), mas a verdade é que a trama rapidamente se tornou confusa com a proliferação de histórias paralelas. Para além da vingança pela morte de Lem, que Vic tanto prometeu, meteram-se também à mistura o confronto com os arménios e a conspiração de Pezuella (F.J. Rio), tramas que insistiram em se cruzar e que mostraram um Vic mais ardiloso do que nunca, a enganar tudo e todos de forma exímia. Mas se esta sempre foi a natureza de Vic, a verdade é que o escalar das mentiras começou, em certo ponto, a tornar-se falso demais, inacreditável demais, tirando algum impacto à história principal.

Se a crise com os arménios parecia interessante, pela óbvia ligação às primeiras temporadas, a ingenuidade demonstrada pelos mafiosos começou, a certo ponto, a tornar-se gritante demais, transformando-os em meros fantoches que Vic manipulava a seu belo prazer. Já a trama de Pezuella, que prometia trazer Aceveda (Benito Martinez) de novo à história principal, acabou por também nunca se conseguir destacar, deixando a personagem de Aceveda, que tão importante foi durante os primeiros anos desta história, sem uma direcção concreta. Embora Aceveda nunca tivesse sido o modelo do polícia perfeito, a verdade é que a sua espiral descendente começa na altura em que a personagem cai na tentação de resolver os seus problemas custe o que custar, doa a quem doer, no momento em que Aceveda se começa a transformar em Vic. O confronto entre estes dois homens deveria, por isso mesmo, ter sido interessante, ao fazer de Vic um espelho onde Aceveda se vê reflectido, mas acabou por nunca chegar às suas últimas consequências, deixando a personagem a navegar sem uma direcção concreta, tal como aconteceu a outras personagens secundárias.

Danny (Catherine Dent), Julien (Michael Jace), Tina (Paula Garcés), Billings (David Marciano). Se de Tina e de Billings não esperávamos mais do que continuassem a ser as personagens mais imprestáveis do Departamento, com a salvaguarda que, pelo menos, Billings conseguia dar algum humor aos casos mais desastrosos, a história de Tina nunca conseguiu realmente afirmar-se, fazendo com que os minutos com ela gastos parecessem desperdiçados. Já a completa aniquilação do Julien das primeiras temporadas, o homem que lutava com a sua consciência e os seus sentimentos, e a gradual perda de importância de Danny que, depois de se ver assediada por Vic pela custódia do filho, desaparece de cena durante algum tempo sem que nenhuma das personagens desse pela sua falta, foi uma falha grave que não nos permite apreciar verdadeiramente o desfecho desta história. Ambos mereciam melhor destino.

Maior destaque tiveram, felizmente, Dutch (Jay Karnes) e Claudette (CCH Pounder). O detective maravilha, uma das personagens favoritas desta que vos escreve, teve mais uma vez a oportunidade da sua carreira, ao identificar correctamente um jovem assassino em série. A luta de Dutch contra Lloyd, ao longo da temporada, foi muito interessante, não só por trazer de volta à ribalta o melhor detective da esquadra, mas também pelo impacto que o jovem teve em Dutch, deixando-nos a pensar se não seria este o golpe final, depois de Sun-Lee, de Bob, de Marci e de tantos outros, que o levaria a sucumbir à tentação de usar métodos menos ortodoxos para conseguir uma vitória, tornando-se naquilo que mais odiava. Se a história prometia um desfecho explosivo, a implosão a que assistimos não foi totalmente satisfatória, mas felizmente para Dutch, do lado pessoal, o fechar da série trouxe consigo grandes momentos. A forma como Dutch e Claudette se complementavam – os “Gémeos Maravilha”, como Vic uma vez lhes chamou -, como se apoiavam e se defendiam mutuamente, esteve presente desde o episódio piloto, mas em “Bitches Brew” ganhou uma nova dimensão. Entre Dutch e Claudette existe uma verdadeira amizade, daquelas em que se ajuda sem se pedir nada em troca, onde não há recriminações nem atribuições de culpa, apenas um apoio constante quando mais precisam, e é isso que os separa das restantes personagens desta série. Para duas grandes personagens, apenas dois grandes actores lhes podiam fazer justiça, e Jay Karnes e CCH Pounder conseguiram destacar-se ao longo de todas as temporadas, ofuscados apenas pelas interpretações exímias dos dois actores principais.

Se a primeira metade da derradeira temporada teve os seus problemas de estruturação, com o avançar dos episódios a história regressa ao rumo estabelecido desde “Post Partum”, revelando-se em força o conflito Vic e  Shane (Walton Goggins), que explode no impressionante “Parricide“. De um momento para o outro, assistimos incrédulos àquilo que há muito esperávamos: o desmanchar da fachada de Shane, o entregar do distintivo de  Vic, a queda, sem pompa nem circunstância, da Equipa de Intervenção. Em poucos minutos, tudo muda irremediavelmente, e o caminho que à nossa frente se revela é o da destruição eminente.

Semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes, Shane e Vic são sem dúvida as duas faces deste conflito desde o início. Desde sempre o mais problemático, o culpado de grande parte das situações em que a equipa se viu enfiada, Shane tentou justificar a morte de Lem como um sacrifício para o bem de todos, agindo sempre com total consciência dos seus actos e arrastando consigo a mulher Mara (Michelle Hicks), a sua alma gémea em todos os sentidos. Considerado por muitos como o grande vilão é, no entanto, no amor que sente pela família que a personagem mais se revela. Por muitos crimes que tenha cometido, por muitos mandamentos que tenha destruído, Shane nunca mentiu a Mara, nunca fingiu ser mais do que era, nunca tentou ocultar a sua verdadeira personalidade, ao contrário de Vic, que sempre escondeu de Corrine (Cathy Cahlin Ryan) tudo o que  fez.  É essa frontalidade que explica o contínuo apoio ao marido de Mara, mesmo quando recebe, de mão beijada, a oportunidade de se entregar e sair em liberdade. E é por isso mesmo que o destino final de toda a família em ”Family Meeting” deixa qualquer um devastado.

No lado oposto encontra-se Vic, que consegue iludir tudo e todos mas que acaba, no final, por se iludir também a si próprio. Vic recusa-se a reconhecer o seu papel naquilo em que Shane (e Ronnie, e mesmo Lem) se tornou; recusa-se a reconhecer que poderá ser, no fundo, o catalisador de todos estes problemas. Nunca se deixando qualificar, Vic vai saltando entre o bom e o mau, entre o branco e o negro, ficando numa área cinzenta que é impossível de distinguir, e é isso que o torna uma das personagens mais interessantes da televisão americana. A sua viagem, ao longo destas sete temporadas, foi uma viagem cheia de voltas e reviravoltas, de guerras e de mudanças, uma viagem com um final, no mínimo, surpreendente. O momento em que Vic finalmente admite todos os crimes que cometeu, o momento em que relata todos os eventos a que assistimos ao longo destas temporadas a uma perplexa Olivia (Laurie Holden) em “Possible Kill Screen“, é também o momento em que se sela o destino final da equipa. Ao assinar o contrato com o ICE, Vic condena, desta forma Ronnie (David Rees Snell), o seu último amigo e confidente, aquele que sempre o apoiou e que dele nunca duvidou, à cadeia, e contribui para a trágica decisão de Shane. Ao revelar todos os segredos, consegue livrar-se da perseguição de Wyms, mas perde todo o seu futuro. Longe das ruas, com a família no programa de protecção das testemunhas, Vic termina a sua história sentado num cubículo, rodeado de memórias de um passado que perdeu.

Desde o início que sabemos que ninguém sai impune desta história. Que não há personagens totalmente boas, nem totalmente más, apenas personagens que escolheram o seu caminho e que, para o bem e para o mal, o terão de percorrer até ao fim. E porque Shawn Ryan se manteve fiel aos seus princípios, é assim, sem qualquer redenção, que termina uma das mais impressionantes séries policiais de sempre. Uma série que irá ter o seu lugar bem marcado na história de tv americana.

Publicado por: syrin | 17 Maio, 2009

Prison Break S4

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Era uma vez um homem simpático, pacato, dotado de uma inteligência extrema, que queria salvar o seu irmão de uma grande injustiça. Michael (Wentworth Miller), assim, se chamava o nosso herói, infiltrou-se por isso numa cadeia de máxima segurança e, com a ajuda de uma tatuagem muito complexa, de vários amigos, uns quantos inimigos e da bela médica Sara (Sarah Wayne Callies), conseguiu fugir. Mas, quando chegou cá fora, reparou que a fuga ainda agora tinha começado, pois uma grande conspiração em redor da sua família impedia-o de encontrar o tão merecido repouso. Perseguido por todos os lados pelo terrível Mahone (William Fichtner), Michael e o seu irmão Lincoln (Dominic Purcell) correram a maratona pelos Estados Unidos fora até que, quando tudo parecia resolvido, são novamente capturados e enviados para uma terrível prisão sul americana. Rodeado de amigos e inimigos (a maioria dos quais o acompanhavam já desde a primeira temporada), Michael vê-se envolvido mais profundamente na conspiração da Companhia que mete uns tais de Whistler e Gretchen (Jodi Lyn O’Keefe) e uma Sofia que ninguém percebe bem o que é que lá anda a fazer mas que sempre ajuda a fazer número. Adiante.

Como Michael é o maior lá do sítio, ninguém o consegue segurar por muito tempo e acaba por fugir novamente da cadeia (desta vez sem recorrer à tatuagem), jurando vingança pela morte da sua amada Sara, brutalmente decapitada numa cena roubada descaradamente ao “Seven”. Mas, quando menos se esperava… Michael é novamente capturado e forçado a trabalhar para o governo. A sua missão: Scylla. Num armazém recheado de Macbooks e móveis do IKEA, o Departamento de Segurança Interna e o seu maior representante, o Sr. Próprio (aka, Don Self, aka. Michael Rapaport) propiciam uma reunião familiar onde não faltam Sucre (Amaury Nolasco), Bellick (Wade Williams), um nerd asiático qualquer e, surpresa das surpresas, Sara, que afinal não morreu (brincadeirinha! Foi tudo um erro, a cabeça na caixa era de outra mulher, nós é que vimos mal).

Com Michael, Lincoln, Sucre, Bellick, Mahone, Sara e o nerd dos computadores, está então formada esta nova Ocean’s 7, que tem por missão roubar Scylla das mãos do terrível General Krantz (Leon Russom) e assim conseguir a tão sonhada liberdade. Scylla, entretanto, começa por ser o livrinho preto, a lista dos agentes infiltrados no governo americano, para passar, com o avançar dos episódios, a ser o repositório de todos os segredos da Companhia. Recheada com planos para tecnologias de valor incalculável, que, como é óbvio, todos querem roubar, incluindo o nosso velho conhecido T-Bag (Robert Knepper) que se aliou a Gretchen, Scylla vai andar de mãos em mãos até finalmente ir parar às garras da misteriosa Christine (Kathleen Quinlan), nada mais nada menos do que a falecida mãe de Lincoln e Michael (mas que afinal não é mãe de Lincoln) que, pelos vistos, não só está viva como trabalha para a Companhia e ainda por cima é má como as cobras e quer vender a tecnologia aos indianos ou aos chineses e dar início à terceira guerra mundial para poder ganhar milhares de milhões de dólares a vender armas e…

Podia, neste texto, falar um pouco mais de todas as dificuldades pelas quais as personagens passaram. Podia falar da terrível perseguição que sofreram às mãos do assustador Wyatt (Cress Williams), dos momentos inacreditáveis passados no escritório onde T-Bag se refugiou, dos problemas de saúde de Michael, que incluem uma misteriosa operação ao cérebro da qual ele recupera de um dia para o outro, das voltas e reviravoltas das personagens (quantas vezes é que o Self mudou de lado?) ou mesmo das mortes tão choradas que nos deixam incrédulos a olhar para a televisão. Poder podia… mas para quê perder tempo a falar sobre uma série que se embrulhou de tal forma a ponto de se transformar numa autêntica comédia? Assim sendo, é melhor esquecer rapidamente o fiasco que foram estas últimas temporadas de “Prison Break” e ficar apenas pela primeira. Para bem da nossa sanidade mental.

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