Dollhouse S2

“Com um universo já estabelecido e personagens mais ou menos desenvolvidas, a segunda temporada de “Dollhouse” tem tudo para melhorar. Esperemos apenas que o consiga fazer.”

Haverá algo pior do que sermos obrigados a engolir as nossas próprias palavras? A ver as nossas apostas e expectativas saírem furadas? A ver bons actores e tramas interessantes, diferentes de tudo o que por aí anda e, por isso mesmo, promissoras, serem completamente desperdiçadas? Certamente que não. E é por isso que mesmo volvido algum (muito) tempo sobre o final de “Dollhouse“, não há como deixar de ficar irritado com a constatação de que a aposta feita no final da primeira temporada estava completamente errada.

Não há margem para dúvidas: “Dollhouse” é o pior trabalho de Joss Whedon até agora. Conhecido pelas suas tramas interessantes, por uma escrita inteligente e mordaz e pelas personagens cativantes que representam, mesmo se dentro do género fantasia e ficção científica, um pouco de todos nós, é quase inacreditável ver a trapalhada que nos apresentou nesta série, episódio atrás de episódio, temporada atrás de temporada. Miraculosamente renovada depois dos fracos resultados junto das audiências americanas, e depois de um final de temporada muito excitante, que abria as portas a um ano mais regular, o que assistimos foi, desde logo, a um regresso ao que de pior tinha sido feito, aos casos da semana desinteressantes, que nem mesmo uma panóplia de convidados especiais conseguiam tornar melhores, como se viu em “Vows“, “Instinct” e “Belle Chose“. Quem começa mal dificilmente se endireita mas, surpreendentemente, a partir de “Belonging” tudo muda. Com uma história cativante de início ao fim, com grandes ligações ao que tínhamos visto na primeira temporada em “Needs” e interpretações irrepreensíveis de Sierra (Dichen Lachmann), Victor (Enver Gjokaj) e, surpreendentemente, de Topher (Fran Kranz), que teve na segunda temporada uma volta de 180º, tornando-se numa das mais fascinantes personagens, abria-se assim caminho a uma trama mais madura, mais concreta, mais em linha com aquilo que desta série esperávamos.

Se as inúmeras tramas secundárias provaram, na primeira temporada, ser o ponto fraco da série, foi quando se apostou no mistério principal, em desenvolver a mitologia que desde o primeiro momento nos tinha sido prometida, que “Dollhouse” se revelou. E o mesmo aconteceu nesta segunda temporada. A existência de outras casas espalhadas um pouco por todo o mundo e os jogos de poder que Adelle (Olivia Williams) tão bem dominava, a tentativa de revelação ao mundo da organização com a cumplicidade de November (Miracle Laurie) e, claro, a prometida viagem até ao sótão e aos seus mundos paralelos em “The Attic” e “Getting Closer“, expondo o plano de domínio do mundo que resultou no excelente “Epitaph One” da primeira temporada, deixaram alguma expectativa para o desfecho desta série. Infelizmente, a melhoria foi sol de pouca dura, pois toda esta história acabou por ter uma resolução sem pés nem cabeça que nem mesmo os regressos de Alpha (Alan Tudyk) e Whisky (Amy Acker) conseguiram salvar. A aposta em destacar sempre as mais fracas personagens, Echo (Eliza Dushku) e Ballard (Tahmoh Penikett), num desmascarar ridículo do vilão principal que deixa qualquer um com vontade de atirar com algo à cabeça de Whedon e num destruir de tudo o que o final da primeira temporada tinha conseguido com a sequela “Epitaph Two” transforma “Dollhouse” numa das séries mais frustrantes dos últimos anos, e confirma que quem tem telhados de vidro – mesmo aquele que, para muitos, não consegue fazer nada mau – não devia andar a atirar pedras. Afinal, para estragar uma série, nem sequer é preciso ir para o Japão feudal…

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Episodes S1

“Rir é o melhor remédio.” Não haverá, certamente, ninguém que discorde desta expressão. Quando o stress do dia-a-dia se impõe, quando tudo parece correr mal, uma boa gargalhada é sem dúvida aquilo que mais nos consegue animar. Mas se rir é a melhor opção, a capacidade de rirmos de nós próprios não é para todos. Afinal, rir dos outros é mais simples do que identificar as nossas próprias falhas. Felizmente há quem não tenha este problema e aposte mesmo a sua carreira em divertir os outros gozando de si próprio. E é por isso que a nova estreia da Showtime, “Episodes”, foi uma boa surpresa na mid-season americana.

As aventuras (e desventuras) de Sean (Stephen Mangan) e Bev (Tamsin Greig), um casal de produtores britânicos que é contratado para adaptar a sua série de sucesso ao mercado americano, podem ter sido curtas para os padrões normais americanos, com uma temporada de apenas sete episódios, mas conseguiram trazer uma lufada de ar fresco às típicas comédias que do outro lado do oceano chegam graças não só a boas interpretações, argumentos sólidos, muitas situações inusitadas e cenas divertidas, mas também a uma ligação bem forte ao mundo real do desenvolvimento de séries actual nos Estados Unidos.

Recheada de personagens que parecem, de início, não ser mais do que estereótipos mas que, lentamente, se vão revelando, como é o caso de Carol (Kathleen Rose Perkins), que mostra uma profundidade muito inesperada a meio da temporada, e de outras que nos deixam sem saber o que pensar e como os classificar, como é o caso do protagonista Matt LeBlanc, que mostra aqui estar disposto a usar a sua própria vida e experiências pessoais para nos dar uma visão do que é o “verdadeiro” mundo de Holywood e que consegue quase fazer esquecer a personagem idiota de “Friends”, é sem dúvida a forma como a temporada parodia o mundo da televisão americano que mais cativa. A cada episódio, a cada cena, a cada concessão que os dois produtores tinham de fazer à sua história original devido a pressões do estúdio, desde alterar o título e a trama e mesmo a contratar um actor pouco ou nada indicado para o papel principal, identificamos todas as dúvidas, incertezas e desilusões que temos quando vemos a nossa série favorita percorrer o doloroso caminho das adaptações americanas, especialmente numa época em que os remakes insistem em não desaparecer. E se a comédia está garantida com a ajuda de personagens como Marc Lapidus (John Pankow) que, embora não saia do registo de caricatura, consegue mesmo assim ter deixas memoráveis, é também nos momentos mais sérios, como numa interessante conversa/batalha entre Bev e Matt e, mais tarde, entre Matt e Sean, que a série prova que mesmo dentro das comédias mais ou menos inusitadas, é ainda possível inserir cenas que nos fazem pensar.

Com a renovação já garantida, é com grande prazer que se espera por mais aventuras de Bev, Sean e Matt, nesta britcom tão americana.

Downton Abbey S1

“Are we to be friends then?”
“We are allies, which can be a good deal more effective.”

Séries históricas, séries de época, “period drama”, “costume drama”… chamem-lhes o que quiserem, nada melhor que uma série deste género para suportar aquelas tardes frias e chuvosas de Inverno, quando a rua parece o local mais agreste do mundo e a manta no sofá se assemelha ao paraíso na terra. Seja pelas histórias envolventes, pelas interpretações de nota, pela maravilhosa fotografia, ou, simplesmente, pela ânsia de dar um salto a uma época totalmente desconhecida, não há dúvida que, por este cantinho, as séries de época são um dos passatempos preferidos dos dias chuvosos. E como a época a isso é propícia, os sete episódios da primeira temporada do mais recente sucesso britânico, “Downton Abbey“, foram devorados em menos de um dia, devidamente acompanhados de um Earl Grey a escaldar.

Em 1912, no rescaldo do desastre do Titanic, a aristocrática família Grantham vê todos os planos de futuro desintegrarem-se com mortes inesperadas a bordo do portentoso navio. A honra, a casa e a fortuna da família, inevitavelmente transferidas pela linha masculina, irão agora, devido à falta de um filho varão do conde Grantham (Hugh Bonneville), ser transferidas para um primo distante, Matthew Crawley (Dan Stevens) que não só tem o desplante de ser filho de um médico, mas também de exercer advocacia numa cidade tão pouco digna como Manchester. Sem saída, o conde Grantham vê-se então obrigado a tudo fazer para acomodar o primo e, quem sabe, aproximá-lo mais do seio da família com a ajuda da sua filha mais velha, a bela mas algo rebelde Mary (Michelle Dockery). Entre jantares desconfortáveis recheados de cenas memoráveis, belas paisagens de exterior e um guarda-roupa de deixar qualquer mulher que se preze a roer de inveja, a história da família Grantham é interessante mas acaba, por vezes, por cair em alguns exageros, como no caso da história do convidado turco, e em reviravoltas e contratempos algo forçados e por demais já abordados, como no caso do vai-não-vai entre Mary e Matthew ou da rivalidade que se desenvolve entre Mary e a irmã do meio Edith (Laura Carmichael), retirando algum interesse à história. No entanto, para compensar estes momentos menos bons, há sempre uma cena ou outra com a irrepreensível Maggie Smith no papel da velha condessa Grantham, que consegue alegrar qualquer episódio graças às suas tiradas mordazes e a uma rivalidade com a Mrs. Crawley (Penelope Wilton), a mãe de Matthew e o oposto da velha condessa.

Fosse esta apenas a história de “Downton Abbey” e a série não teria tido o sucesso que granjeou um pouco por todo o lado. Afinal, a história da família Grantham, muito embora nos permita descobrir o final da época dourada da Inglaterra e o amanhecer de uma época de incertezas com a chegada da guerra, não seria melhor do que muitas outras que, ao longo dos anos, saíram dos cofres da BBC e da ITV. Felizmente “Downton Abbey” não se ficou por aqui e resolveu apresentar-nos o “outro lado da história”, aquele que normalmente, passa despercebido neste tipo de séries – os criados.

De manhã bem cedo até ao cair da noite, por detrás das portas, nas cozinhas, nos estábulos ou nas garagens, existe toda uma classe de pessoas que dá vida às mansões senhoriais, que reza pelo seu bom funcionamento e que permite uma vida descontraída aos seus senhores. São camareiras, mordomos, governantas, criados, ajudantes de cozinha, pessoas sem as quais não seria possível existir nesta época. E são estas mesmas pessoas que têm aqui uma voz nos eventos. Se a história da família Grantham governa a temporada, a mesma repercute-se também no andar de baixo, junto daqueles com quem a família partilha o seu dia-a-dia. Por cada O’Brien (Siobhan Finneran) ou Thomas (Rob James-Collier) que não passam de vilões algo unidimensionais, temos um interessante e misterioso Bates (Brendan Coyle), criado pessoal do conde e seu ex-companheiro na guerra, que deixa transparecer de forma exímia todo o desespero de viver aleijado numa época imperdoável para pessoas deficientes, uma sensível Anna (Joanne Froggart), uma dedicada Mrs. Hughes (Phyllis Logan), um sempre correcto Mr. Carson (Jim Carter), que não obstante ter um passado algo colorido, defende com todas as suas forças a honra da família que serve. São pessoas que longe de passar despercebidas, reflectem a trama principal da série, que longe de serem apenas os confidentes dos seus senhores, guardam segredos próprios que poderão vir a afectar o desenvolvimento da mansão. São pessoas como muitas outras na época, que nos trazem um colorido diferente à história e a tornam, por isso mesmo, muito mais interessante.

Provando que, mesmo com os cortes anunciados por algumas estações, as séries de época não morreram, “Downton Abbey” é sem dúvida um exemplo de que ainda se pode inovar e apresentar algo fresco numa área já tão bem explorada. E que, como o prova a renovação para mais uma temporada, muitas boas histórias restam ainda por contar.

Californication S3

“Happiness. I’ll be happy. Finally.”

Se há série que mais discórdia causa, que mais divide os espectadores e que tanto vai parar à lista de favoritas como de odiadas, é “Californication”. E a explicação é simples: esta não é uma série obrigatória, das que se recomenda a todas as pessoas e que figura inevitavelmente nas listas de melhores do ano. Muito pelo contrário: é uma série que requer uma mente mais aberta, algum à vontade com o deboche gratuito e muita paciência para aguentar as situações mais inusitadas, em busca dos momentos mais calmos, mais sérios, mais reais. “Californication” não é uma série que ofereça um retrato muito fiel da sociedade, preocupando-se mais em divertir o espectador com as situações inusitadas em que se metem as suas personagens do primeiro ao último episódio. E isto é, por vezes, o grande problema que apresenta.

Depois de um regresso algo desapontante mas não inesperado ao ponto de partida, “Wish You Were Here” deixa desde logo antever que pouco irá mudar por estas bandas, mesmo com desafios algo diferentes. Depois de diversas tentativas falhadas de escrever, que muitas dores de cabeça dão ao seu agente, Hank (David Duchovny) acaba por arranjar emprego como professor de escrita criativa num colégio privado, prometendo ajudar a formar (para o bem e para o mal), as mentes dos jovens californianos. Se no trabalho os desafios são muitos, e a sua atenção promete ser desviada por três belas mulheres que o perseguem incessantemente – Jill (Diane Farr), a assistente, Felicia (Embeth Davidtz), a directora, e Jackie (Eva Amurri), a aluna -, já em casa é Becca (Madeleine Martin) que começa, curiosamente, a causar alguns distúrbios próprios da adolescência. E, no meio de tudo isto, por entre as conquistas e os engates, não se esquecem as saudades pela mulher ausente, a única que verdadeiramente ama e com quem quer viver feliz: Karen (Natascha McElhone).

Quem se predispõe a ver “Californication” está desde logo preparado para hilariantes histórias, grandes diálogos, monólogos bem escritos e muita, muita diversão. Não estranha, por isso, a chegada e partida de personagens curiosas, algumas mais marcantes do que outras, como é o caso de Sue Collini, numa prestação profundamente assustadora de Kathleen Turner, e que tantas situações absurdas cria ao longo da temporada, para grande desespero de Charlie (Evan Handler). Não se assusta, também, com as cenas mais estranhas de “Sozo“, ou mais absurdas como o ridículo duelo que opõe Hank ao reitor Stacy Koontz (Peter Gallagher) por uma honra há muito perdida em “Comings & Goings“. E até consegue tolerar, de certa forma, a irritante história que continua a marcar presença em todas as temporadas, de Charlie e os seus dilemas amorosos com Marcy (Pamela Adlon). Mas é quem dá uma maior oportunidade à série, quem passa por cima destas suas características que acabam, por vezes, por constituir também alguns dos seus defeitos, que se surpreende com uma história diferente, mais profunda, que nos consegue fazer pensar. Se é nos momentos mais hilariantes que a série se destaca, como no brilhante “The Apartment“, que respira loucura em todos os segundos, ou nas cenas onde a retórica e a escrita inteligente se tornam mais proeminentes, como acontece em “So Here’s The Thing…“, em que Hank se tenta livrar de todas as mulheres que o perseguem para ficar só com a que ama, é nos momentos mais calmos, onde se renova uma amizade entre velhos amigos num simples sofá ou numa noitada pela rua fora, como acontece em “Dogtown” e, especialmente, num surpreendente “Mia Culpa“, em que fantasmas do passado regressam para tudo destruir uma família que tanto lutou para ficar junta mas que irá, muito provavelmente, ficar perdida agora, que a série se supera.

“I’m not the man they think I am at home.” Com uma temporada mais inconstante que as anteriores, mas um final perfeito do início ao fim, graças à alegoria tão bem criada que não consegue deixar ninguém indiferente, onde se destacam as ninfas na água, a inépcia do Hank, a conversa entre Hank e Becca e, especialmente, o confronto final entre Hank e Karen ao som de uma das músicas preferidas deste cantinho, não há dúvida de que “Californication” continua a ser uma das séries mais aguardadas todos os anos, e que merece o seu lugar entre as favoritas desta casa.

Human Target S2


Em todas as relações há aquela fase a que em inglês se chama “the honeymoon period”, um estado de graça, quando tudo parece bem, a cara-metade é a pessoa mais perfeita à face da terra e tudo o que faz é motivo de regozijo. O problema, no entanto, é quando essa fase passa, a realidade se sobrepõe à ilusão e os problemas do dia-a-dia começam a pesar.

Na ficção, tal como na realidade, não é difícil encontrar exemplos de séries onde, passado a fase de enamoramento, a realidade provou ser outra, mas há muito tempo que não o via acontecer de maneira tão brutal como na segunda temporada “Human Target“. Nunca tendo sido a melhor série à face da terra, era no mínimo competente naquilo a que se propunha: apresentar as aventuras de Christopher Chase (Mark Valley), um camaleão guarda-costas e especialista em segurança, que procura ajudar os seus clientes a saírem de situações perigosas com a ajuda de Winston (Chi McBride), o polícia que o pôs ao  serviço do bem, e de Guerrero (Jackie Earle Haley), um antigo inimigo que usa agora o sarcasmo a serviço do bem. Divertida, recheada de grandes momentos de acção, complementada por uma banda sonora magnífica e trazendo uma certa nostalgia das séries de acção dos anos 80, conseguiu conquistar o seu lugar entre as estreias de 2010. E quando se despediu na primavera, com um excelente “Christopher Chance“, teve ainda a oportunidade de abrir caminho a uma trama maior que poderia elevar a série de mero divertimento descomprometido a algo que valesse a pena manter debaixo de olho. O problema, no entanto, foi quando a realidade se imiscuiu na ficção, e retirou à série tudo o que tinha de bom.

O criador é afastado, arranjam-se duas gajas jeitosas metidas à pressão na história para “cativar a audiência feminina” (provando que os executivos da FOX, de mulheres, não percebem absolutamente nada), altera-se a banda sonora para a “popalhada” do costume e transforma-se, desta maneira, uma série que tinha um espírito muito próprio, num clone de tantas outras, com a agravante de se revelar, simplesmente, uma série fraca. Se a rapidez com que o clímax da primeira temporada foi resolvido em “Ilsa Pucci” pareceu estranha, e mais estranha ainda é a forma como, quase sem se dar por isso, se dá início à nova fase da série, onde Ilsa, interpretada pela britânica Indira Varma, passa de cliente a chefe deste grupo, a verdade é que nada nos faria adivinhar que a série pudesse vir a bater tão fundo como aconteceu, por exemplo na ridícula viagem aos subúrbios de “The Other Side of the Mall“, ou o ainda mais absurdo casamento de Ames (Janet Montgomery), ex-ladra e gaja boa número dois ao serviço do grupo, em “Kill Bob“. Pior, deixa-se de lado a trama que tinha vindo a ser desenvolvida na recta final da primeira temporada, sobre o passado de Chase e o que fez mudar para o lado do bem, para arranjar uma historiazeca qualquer sobre o marido de Ilsa, um ricaço que era infiel mas que, afinal, depois já não era infiel e tinha sacrificado a sua vida em prol da mulher, que entretanto se começa a apaixonar por Chase e… bom, qualquer coisa deste estilo, que nem vale a pena referir novamente de tão desinteressante que é. Basta dizer simplesmente que toda a magia, toda a alma desta série, constituída pelas trocas entre o trio principal, e que apenas em “The Return of Baptiste” deu algum sinal de vida, se perdeu irremediavelmente, sobrando em vez disso apenas uma série má, com um Winston conselheiro matrimonial, um Guerrero praticamente ausente e um fecho de temporada com uma tentativa de remake dos minutos finais de “The Bodyguard” que só dá vómitos.

“Human Target” está morta e enterrada. Pelo menos deste lado.

Rubicon


“There’s always a why. You just don’t understand it.”

Há histórias que nos cativam desde o primeiro momento, desde a primeira cena, desde o primeiro diálogo, histórias que somos incapazes de esquecer. E depois há as outras, aquelas histórias com um começo lento – muito lento -, que nos confundem de tal maneira que à primeira não vamos lá, que nos obrigam a prestar atenção, a fazer um esforço gigantesco para não desistir, a reiterar a nossa determinação de prosseguir até ao fim. E essas… essas são as histórias que nos deixam – mais do que as primeiras – com um sentimento de dever cumprido no final, de que toda a nossa determinação valeu a pena. Se “Rubicon” não entra no lote das primeiras, entrou certamente para um dos lugares de topo das segundas.

Desengane-se quem pensa que “Rubicon” é uma série para todos. E desengane-se ainda mais quem pensa que é uma série para ver em qualquer altura do ano. Não, ao contrário do que pensou a AMC, “Rubicon” não é uma série para ver no pico do Verão, quando o cérebro pede descanso – é uma série para guardar para o final do Outono, para ver com a chuva e o frio lá fora, confortavelmente instalado debaixo de uma manta, acompanhado por um chá a escaldar, e dedicando-lhe toda a nossa atenção, do primeiro ao último episódio. Talvez por isso tantos tenham sido aqueles que começaram a série, que até gostaram do ambiente criado, do tipo de história de conspiração à moda antiga, da soberba realização e dos interessantes diálogos, mas que, passados uns episódios, acabaram por desistir por simples falta de paciência. Talvez por isso, o destino final da série tenha ficado desde logo claro, ao ver a lenta descida das audiências. Mas se o cancelamento foi injusto, deixando-nos sem mais uma grande série, pelo menos fica a certeza de que esta é uma daquelas histórias que não só vale a pena rever, como de certeza à segunda volta irá revelar-se muito mais gratificante do que à primeira.

Esta é a história Will Travers (James Badge Dale), analista de topo no governo americano, um homem que tudo perdeu tudo no 11 de Setembro, e que, por entre a sua angústia, se vê subitamente envolvido numa perigosa conspiração levada a cabo por um grupo de homens poderosos que gostam de brincar com a vida humana para proveito próprio. Esta é a história de Tanya (Lauren Hodges), Grant (Christopher Evan Welch) e Miles (Dallas Roberts), três analistas júnior de uma agência secreta que tentam lidar com os seus problemas e inseguranças pessoais ao mesmo tempo que procuram pistas para identificar alguns dos mais perigosos terroristas e evitar devastadores atentados um pouco por todo o mundo. Esta é a história de Katherine Rhumor (Miranda Richardson), uma mulher que procura descobrir o que poderá ter levado o seu marido ao suicídio numa altura em que tudo parecia estar bem. Estas são três histórias distintas, aparentemente independentes, mas que lentamente vão convergindo na mesma direcção e que acabam por se encontrar nos espectaculares “A Good Days’ Work” e “Wayward Sons“, deixando-nos com vontade de regressar desde logo ao início da série, de forma a encontrar todas aquelas pequenas pistas que nos apontavam na direcção correcta, se ao menos tivéssemos prestado toda a atenção necessária.

Se não há dúvida que esta é uma série de ebulição lenta, que não se preocupa em expor desde logo as personagens e as situações, e que nos deixa, pelo contrário, ir descobrindo tudo no momento certo, lançando sempre a dúvida sobre as lealdade de personagens como Truxton Spangler (Michael Cristofer) e Arliss Howard (Kale Ingram) e apenas começando a fazer sentido em “The Outsider“, num episódio minimalista em termos de localização mas grandioso a nível de discursos, também é verdade que assim que a série ganha fulgor, a partir de “The Truth Will Out“, não nos larga até ao último segundo da história. Mas, por outro lado, se também não há dúvida que a trama principal, a convergência das diversas histórias e a resolução do mistério são o ponto forte, também é preciso admitir que o final, correctamente intitulado “You Can Never Win“, nos deixa com um certo gosto amargo na boca, não só por saber que a história termina aqui, mas porque algumas das reviravoltas soaram forçadas, convenientes demais para fechar o grande arco da temporada e, em certo ponto, até contrárias ao estilo que desde o primeiro episódio vigorava na série.

Há algo de extraordinário quando nos sentimos totalmente envolvidos por uma história, completamente arrebatados pelas personagens, incapazes de pensar no que quer que seja que saia do universo em que nos encontramos imersos. Mas há algo de mais extraordinário ainda quando esse arrebatamento nos apanha de surpresa, crescendo devagarinho até se impor totalmente. E se não são muitas as séries que  fazem, 2010 teve o condão de o conseguir fazer duas vezes, com “Rubicon” e, mais tarde, com “Terriers“. Infelizmente para os telespectadores, o destino de ambas as séries foi igual: o cancelamento. Mas pelo menos fica a certeza de que são ambas séries que vale a pena ver, e rever, sempre que se precisar de uma história inteligente para contrariar o marasmo do panorama televisivo americano actual.

United States of Tara S2

“Do you know what today is? Today is my bullet train to a new life.
They’re normal people. And they’re making room in their normal-people group photos… For me.”

Estreias auspiciosas há muitas: aquelas que nos cativam, que prometem trazer algo de novo e marcante à televisão e que nos deixam na expectativa de algo infinitamente melhor no ano seguinte. Infelizmente, poucas são as vezes que o regresso consegue alcançar o feito do original. Mas porque, mesmo assim, ainda há excepções à regra, a segunda temporada de “United States of Tara” provou que não só é possível manter o nível de qualidade da história, dos diálogos e das interpretações de todo o elenco, como por vezes consegue-se mesmo superá-lo.

Tendo por tema da temporada as memórias, aquelas que se tentam esconder e as que se tentam criar, sentimos desde logo que a tranquilidade aparente de “Yes” não poderia durar muito. Desde o primeiro momento, desde a primeira visão que temos de toda a família reunida a deitar fora as memórias de vidas passadas que fica claro que a nova tranquilidade, conseguida à custa de uma combinação de medicamentos, não poderia durar, que as desordens de Tara (Toni Collette) podiam estar adormecidas, mas não desaparecidas para sempre. Talvez por isso, o regresso dos alters fosse algo esperado. Já a forma como isso acontece, como a relativa paz da família é quebrada com o regresso de Buck não por eventos internos, mas devido a um suicídio estranho na casa ao lado, levanta mais questões que permanecem por esclarecer.

Por entre avanços e recuos, alegrias e tristezas, confusões e reencontros, o evento que despoletou o transtorno dissociativo de identidade de Tara, e que há tantos anos marca esta família, começa lentamente a revelar-se, com a ajuda de pequenas pistas que nos levam, de forma inesperada, a revelações surpreendentes. A relevância da casa do vizinho pode permanecer por esclarecer, mas com a chegada da terapeuta Shoshanna em “You Becoming You“, um novo alter de Tara que, ao contrário dos restantes, parece estar ali para ajudar toda a família, o mistério principal ganha novo fôlego e as revelações não se fazem esperar. Primeiro no espectacular “Torando!“, onde à música se sucedem as lágrimas, à dança o terror, e o papel de Charmaine (Rosemarie DeWitt) em toda esta história começa a ser cada vez mais evidente, depois na visita inesperada a uma velha conhecida que desperta rancores antigos em “To Have And To Hold“, e terminando com o confronto final  em “From This Day Forward“, no que deveria ter sido um dos dias mais felizes para a família mas que acaba envolto em lágrimas, a mistério de Tara e da sua doença fica assim, se não totalmente esclarecido, pelo menos algo resolvido, e promete trazer mais emoções na próxima temporada.

Se a trama principal da temporada conseguiu mostrar o que de melhor esta série tem – uma história cativante com personagens fascinantes e interpretações de nota – , conseguindo mesmo dar a Charmaine, personagem por vezes irritante mas que tem, no fundo, algo mais para contar, uma maior dimensão, já as histórias secundárias acabaram por prejudicar a evolução da temporada. A facada no matrimónio por parte de Max (John Corbett), devido a um crescente desespero e desejo de vingança, é de certa forma compreensível, tais como as tentativas de Marshall (Keir Gilchrist) de encontrar o seu lugar no mundo e de se sentir bem na sua pele, que o levam a primeiro experimentar o lado oposto, antes de finalmente decidir assumir as suas preferências e encontrar – esperamos nós – alguém que partilha dos seus sentimentos. No entanto, e tal como na primeira temporada, é a história de Kate (Brie Larson), primeiro no gabinete de colectas, depois com a estranha amizade com Lynda (Viola Davis) e a criação da do alter-ego princesa Valhalla e terminando com o novo (e, mais uma vez, muito estranho) namorado, que acaba por sugar grande parte do interesse aos episódios, e deixar-nos com a vontade de ver terminado o suplício. Mas porque é à volta de Tara que tudo gira, porque a série continua a apresentar grandes interpretações e porque consegue, mesmo com alguns pontos mais fracos, surpreender-nos a cada episódio, é possível afirmar que “United States of Tara” continua a ser uma das séries favoritas da mid-season americana e que se aguarda, com expectativa, mais aventura da família Greggson.