Rubicon


“There’s always a why. You just don’t understand it.”

Há histórias que nos cativam desde o primeiro momento, desde a primeira cena, desde o primeiro diálogo, histórias que somos incapazes de esquecer. E depois há as outras, aquelas histórias com um começo lento – muito lento -, que nos confundem de tal maneira que à primeira não vamos lá, que nos obrigam a prestar atenção, a fazer um esforço gigantesco para não desistir, a reiterar a nossa determinação de prosseguir até ao fim. E essas… essas são as histórias que nos deixam – mais do que as primeiras – com um sentimento de dever cumprido no final, de que toda a nossa determinação valeu a pena. Se “Rubicon” não entra no lote das primeiras, entrou certamente para um dos lugares de topo das segundas.

Desengane-se quem pensa que “Rubicon” é uma série para todos. E desengane-se ainda mais quem pensa que é uma série para ver em qualquer altura do ano. Não, ao contrário do que pensou a AMC, “Rubicon” não é uma série para ver no pico do Verão, quando o cérebro pede descanso – é uma série para guardar para o final do Outono, para ver com a chuva e o frio lá fora, confortavelmente instalado debaixo de uma manta, acompanhado por um chá a escaldar, e dedicando-lhe toda a nossa atenção, do primeiro ao último episódio. Talvez por isso tantos tenham sido aqueles que começaram a série, que até gostaram do ambiente criado, do tipo de história de conspiração à moda antiga, da soberba realização e dos interessantes diálogos, mas que, passados uns episódios, acabaram por desistir por simples falta de paciência. Talvez por isso, o destino final da série tenha ficado desde logo claro, ao ver a lenta descida das audiências. Mas se o cancelamento foi injusto, deixando-nos sem mais uma grande série, pelo menos fica a certeza de que esta é uma daquelas histórias que não só vale a pena rever, como de certeza à segunda volta irá revelar-se muito mais gratificante do que à primeira.

Esta é a história Will Travers (James Badge Dale), analista de topo no governo americano, um homem que tudo perdeu tudo no 11 de Setembro, e que, por entre a sua angústia, se vê subitamente envolvido numa perigosa conspiração levada a cabo por um grupo de homens poderosos que gostam de brincar com a vida humana para proveito próprio. Esta é a história de Tanya (Lauren Hodges), Grant (Christopher Evan Welch) e Miles (Dallas Roberts), três analistas júnior de uma agência secreta que tentam lidar com os seus problemas e inseguranças pessoais ao mesmo tempo que procuram pistas para identificar alguns dos mais perigosos terroristas e evitar devastadores atentados um pouco por todo o mundo. Esta é a história de Katherine Rhumor (Miranda Richardson), uma mulher que procura descobrir o que poderá ter levado o seu marido ao suicídio numa altura em que tudo parecia estar bem. Estas são três histórias distintas, aparentemente independentes, mas que lentamente vão convergindo na mesma direcção e que acabam por se encontrar nos espectaculares “A Good Days’ Work” e “Wayward Sons“, deixando-nos com vontade de regressar desde logo ao início da série, de forma a encontrar todas aquelas pequenas pistas que nos apontavam na direcção correcta, se ao menos tivéssemos prestado toda a atenção necessária.

Se não há dúvida que esta é uma série de ebulição lenta, que não se preocupa em expor desde logo as personagens e as situações, e que nos deixa, pelo contrário, ir descobrindo tudo no momento certo, lançando sempre a dúvida sobre as lealdade de personagens como Truxton Spangler (Michael Cristofer) e Arliss Howard (Kale Ingram) e apenas começando a fazer sentido em “The Outsider“, num episódio minimalista em termos de localização mas grandioso a nível de discursos, também é verdade que assim que a série ganha fulgor, a partir de “The Truth Will Out“, não nos larga até ao último segundo da história. Mas, por outro lado, se também não há dúvida que a trama principal, a convergência das diversas histórias e a resolução do mistério são o ponto forte, também é preciso admitir que o final, correctamente intitulado “You Can Never Win“, nos deixa com um certo gosto amargo na boca, não só por saber que a história termina aqui, mas porque algumas das reviravoltas soaram forçadas, convenientes demais para fechar o grande arco da temporada e, em certo ponto, até contrárias ao estilo que desde o primeiro episódio vigorava na série.

Há algo de extraordinário quando nos sentimos totalmente envolvidos por uma história, completamente arrebatados pelas personagens, incapazes de pensar no que quer que seja que saia do universo em que nos encontramos imersos. Mas há algo de mais extraordinário ainda quando esse arrebatamento nos apanha de surpresa, crescendo devagarinho até se impor totalmente. E se não são muitas as séries que  fazem, 2010 teve o condão de o conseguir fazer duas vezes, com “Rubicon” e, mais tarde, com “Terriers“. Infelizmente para os telespectadores, o destino de ambas as séries foi igual: o cancelamento. Mas pelo menos fica a certeza de que são ambas séries que vale a pena ver, e rever, sempre que se precisar de uma história inteligente para contrariar o marasmo do panorama televisivo americano actual.

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3 thoughts on “Rubicon

    • Sem dúvida. A série apostou em tratar os espectadores como pessoas adultas, que não precisam que lhes façam a papinha toda e têm paciência para descobrir as coisas por si mesmas, o que por um lado é uma lufada de ar fresco nas séries americanas mas, por outro, acabou por ser o que a levou ao cancelamento.
      Mas eu gostei – tirando aquele final algo forçado, gostei imenso. E aposto que quando a revir vou gostar ainda mais. 😀

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