Sons of Anarchy S1

Durante toda a nossa infância fomos habituados aos valorosos heróis de capa e espada, personagens maiores que a vida, correctos, justos, bastiões dos ideais mais perfeitos; estes eram os heróis que protegiam os indefesos e lutavam contra as injustiças, os modelos que mais tarde deveríamos seguir. Era assim no passado. Mas, de repente, estes heróis da ficção desceram ao mundo real, trocaram as suas capas e espadas por blusões de cabedal e armas, começaram a trabalhar por si e para si. Surgiram assim Tony Soprano, Vic Mackey, Gregory House, os anti-heróis que mudaram a nossa forma de ver o mundo, que se distanciaram do simples bom e mau, preto e branco, para se inserirem num patamar mais cinzento, difícil classificar. E é na sua rasteira que chega “Sons of Anarchy”.

Com a partida da saudosa “The Shield”, que deixou uma marca entre os dramas desta década, tornava-se necessário encontrar algo que a substituísse, e se “Sons of Anarchy” não consegue ainda chegar ao nível da sua antecessora, está já muito bem encaminhada. A premissa é simples: na pequena cidade fictícia de Charming, no norte da Califórnia, a vida gira à volta de um gangue de motas, a divisão fundadora dos Sons of Anarchy Motorcycle Club Redwood Original (SAMCRO). Entre os negócios legítimos da oficina de reparação de automóveis e o tráfico ilícito de armas pela calada, os Sons governam a cidade em silêncio, graças ao punho de ferro de Clay Morrow (Ron Perlman), líder do grupo. Violência, tráfico, tiros e muita acção, esta podia ser a história desta série, mas o que encontramos é mais, muito mais.

Quando Kurt Sutter criou a série, tinha dois objectivos principais: explorar as relações familiares, tomando como exemplo tragédias shakespearianas como “Hamlet”, e revelar ao mundo a cultura dos clubes de motas, mostrar a sua verdadeira realidade, longe dos estereótipos que, ao longo dos anos, lhes foram atribuídos pela ficção. Apoiando-se numa investigação profunda, tentou assim mostrar uma subcultura desconhecida, com códigos de conduta, regras e leis muito próprias, organizações com uma estrutura de comando rígida e complexa onde tudo se faz em defesa do Clube e dos seus membros. Sem defender, aprimorar ou sequer esconder os problemas e a violência causada pelos seus membros, que vemos e confirmamos ao longo da série, como durante o ataque ao armazém no episódio piloto ou na cruel sentença aplicada a um antigo membro que ousou desafiar as regras em “Giving Back”, “Sons of Anarchy” consegue, ao mesmo tempo, mostrar-nos o outro lado da história que, por vezes, nos recusamos a reconhecer. E se todas as personagens se encontram neste patamar cinzento, nenhuma é mais difícil de classificar do que Gemma Teller (Katey Sagal), rainha e senhora dos Sons, viúva do fundador e esposa do actual líder, a mulher que arriscou tudo ao trazer consigo os Sons para a cidade e que governa a vida dos seus membros e famílias.

Ao mesmo tempo que explora os códigos e regras do Clube, a relação difícil que este mantém com as autoridades da cidade – expressas da melhor forma na dicotomia que existe entre Wayne Unser (Dayton Callie) e David Hale (Taylor Sheridan), chefe da polícia e segundo no comando, entre apoiante e opositor aos Sons – e com os inimigos comuns, como os rivais Mayans e os supremacistas brancos “Nords”, “Sons of Anarchy” aprofunda as crises internas que poderão vir a causar a destruição de tudo aquilo porque o clube sempre lutou. Desiludido com a escalada de violência, Jax Teller (Charlie Hunnam), vice-presidente dos Sons e filho do fundador, começa a questionar o caminho seguido pelo Clube, e a descoberta de um manuscrito do seu falecido pai, que salienta os ideais de liberdade que deram origem a este movimento poderá vir a ser a gota de água que irá levar à destruição do clube.

Com uma estrutura lenta, que não cativa desde início, e uma miriade de tramas secundárias que não trazem nada à história, como é o caso da perseguição a Tara (Maggie Siff), ex-namorada de Jax, por parte do assustador agente do ATF Josh Kohn (Jay Karnes), resolvida de forma insatisfatória em  “Hell Followed”, as voltas e reviravoltas na relação de Jax com a ex-mulher Wendy (Drea de Matteo) e com Tara, a doença do pequeno Abel e a complexa ligação dos Sons ao Real IRA, a primeira temporada desta série não é de fácil consumo, mas chegados aos últimos capítulos, é com grande satisfação que damos o tempo por bem gasto. “Capybara” marca, sem sombra de dúvidas, o momento em que a série encontra o seu caminho, em que começa a caminhar numa direcção concreta e que se afirma como uma história a seguir atentamente. Os dilemas de Opie (Ryan Hurst) para escolher entre o Clube e a família, ao ver-se encostado à parede pela agente Stahl (Ally Walker), irão determinar o resto da temporada, culminando com o triste (se bem que previsível) “The Sleep of Babies” que poderá ser a machadada final na família de armas que são os Sons. E se a dramática tomada de posição de Jax em “The Revelator” parece algo exagerada para uma série que pretende, acima de tudo, ser levada a sério, não há dúvida que os minutos finais nos deixam em pulgas para saber o que irá acontecer a todas estas personagens.

“Sons of Anarchy” pode não ter conseguido conquistar desde o primeiro momento todos aqueles que procuravam o sucessor de “The Shield”, mas graças a uma trama interessante e às personagens marcantes que revela, deixa no ar uma grande expectativa para o futuro.

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7 thoughts on “Sons of Anarchy S1

  1. Clarividência na escolha das palavras e boa capacidade de síntese marcam sem dúvida esta tua “crónica” acerca de SoA.

    No entanto, acho que é um risco demasiado grande tentar colocar SoA no mesmo patamar de The Shield.

    É uma fasquia alta que eu não sei se SoA vai conseguir atingir algum dia. Até porque, a meu ver The Shield abrange um público mais vasto e os temas são mais amplos.

    E por isso The Shield é especial. Sons of Anarchy também o é. Mas, por enquanto, The Shield (ainda só vi até ao 3×03) está uns pontos acima…

    Pode ser que mude de opinião quando acabar de ver as 7 temporadas de The Shield e recomece a Season 3 de SoA. Quem sabe?

    Por enquanto, a minha opinião é esta 😀

    Belo resumo da Season 1. Muitos parabéns!

    • Quem diria, hem… tu, o viciado em SoA, agora viciado em The Shield. The Shield mantém a fasquia elevadíssima até ao final. A season 6 foi a de que menos gostei, mas sétima (e final) foi impressionante de início ao fim. Aliás, se fores ler as minhas críticas no TVD aos episódios da S7 logo vês como foi bom.

      Quanto a SOA, tem potencialidades, resta saber é o que vão fazer com ela. 😀

  2. Bem… Boa não é bem a palavra certa.
    Mas, como deixei o comentário a meio e entretanto já fui ao aeroporto pôr o meu irmão e voltei…

    Não consegui escrever mais nada. 😛

  3. A questão sobre a qualidade da série bate um pouco de frente com a situação que nos remete o fato de a mesma possuir um público diversificado. Questionar enredo da série e demais situaçãoes é meio complicado uma vez que quem julga esse quesito pode nunca ter sido motociclista de motoclube, nunca ter sido integrante de um. As vezes a visão de um integrante de motoclube vai ser diferente da crítica de um não integrante. Não conheço The Shield, mas pela sinopse que li, deve ser muito legal, e muito boa, conta a realidade de muitos, mas SoA também mostra uma ficção com situaçãoes parecidas as reais, talvez apenas uma ficção mas eu vivo motoclube eu sou motoclube, eu faço parte de um clube, e acho que é de uma altíssima qualidade a série! Problema de criticarmos isso ou aquilo é que teremos que ser muito superficiais, mas entende os bastidores que levaram aquela cena, o por que daquilo é mais complicado. MAS… foi só um comentário inútil de um menino qualquer.

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