The Shield S7

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There are things I regret . Cause you can’t forgive . You can’t forget . There’s a game that I play . There are rules I had to break . There’s mistakes that I’ve made . But I’ve made them my way

De que são feitas as memórias? De momentos. Momentos calmos ou marcantes, momentos em que tomámos decisões ou em que decidimos nada fazer, momentos em que avançámos ou em que nos deixámos ficar para trás. Momentos que ficam guardados para sempre, e que não se conseguem mais esquecer.

As memórias são feitas de momentos e é por isso natural que, no cair do pano de sete anos de “The Shield“, se tenha escolhido homenagear esta série recordando os seus momentos mais marcantes. Ao som de “Long Time Ago” dos Concrete Blonde relembramos uma esquadra ainda despida que rapidamente se enche com as nossas figuras principais. Recordamos aqueles que deram a vida por esta história e aqueles que injustamente foram esquecidos. Recordamos momentos de felicidade e choques que nos deixaram completamente devastados. Recordamos a granada que destruiu uma amizade e as balas que, em sua homenagem, se cravaram no chão. Recordamos sete anos de brilhantes interpretações e de uma trama que nos conseguiu prender, até ao último segundo, ao ecrã.

Depois de uma sexta temporada mais fraca, que mais pareceu um compasso de espera entre a morte de Lem e o confronto final dos membros da antiga Equipa de Intervenção, o arranque da sétima temporada foi forte, com a primeira retaliação de Vic (Michael Chiklis), mas a verdade é que a trama rapidamente se tornou confusa com a proliferação de histórias paralelas. Para além da vingança pela morte de Lem, que Vic tanto prometeu, meteram-se também à mistura o confronto com os arménios e a conspiração de Pezuella (F.J. Rio), tramas que insistiram em se cruzar e que mostraram um Vic mais ardiloso do que nunca, a enganar tudo e todos de forma exímia. Mas se esta sempre foi a natureza de Vic, a verdade é que o escalar das mentiras começou, em certo ponto, a tornar-se falso demais, inacreditável demais, tirando algum impacto à história principal.

Se a crise com os arménios parecia interessante, pela óbvia ligação às primeiras temporadas, a ingenuidade demonstrada pelos mafiosos começou, a certo ponto, a tornar-se gritante demais, transformando-os em meros fantoches que Vic manipulava a seu belo prazer. Já a trama de Pezuella, que prometia trazer Aceveda (Benito Martinez) de novo à história principal, acabou por também nunca se conseguir destacar, deixando a personagem de Aceveda, que tão importante foi durante os primeiros anos desta história, sem uma direcção concreta. Embora Aceveda nunca tivesse sido o modelo do polícia perfeito, a verdade é que a sua espiral descendente começa na altura em que a personagem cai na tentação de resolver os seus problemas custe o que custar, doa a quem doer, no momento em que Aceveda se começa a transformar em Vic. O confronto entre estes dois homens deveria, por isso mesmo, ter sido interessante, ao fazer de Vic um espelho onde Aceveda se vê reflectido, mas acabou por nunca chegar às suas últimas consequências, deixando a personagem a navegar sem uma direcção concreta, tal como aconteceu a outras personagens secundárias.

Danny (Catherine Dent), Julien (Michael Jace), Tina (Paula Garcés), Billings (David Marciano). Se de Tina e de Billings não esperávamos mais do que continuassem a ser as personagens mais imprestáveis do Departamento, com a salvaguarda que, pelo menos, Billings conseguia dar algum humor aos casos mais desastrosos, a história de Tina nunca conseguiu realmente afirmar-se, fazendo com que os minutos com ela gastos parecessem desperdiçados. Já a completa aniquilação do Julien das primeiras temporadas, o homem que lutava com a sua consciência e os seus sentimentos, e a gradual perda de importância de Danny que, depois de se ver assediada por Vic pela custódia do filho, desaparece de cena durante algum tempo sem que nenhuma das personagens desse pela sua falta, foi uma falha grave que não nos permite apreciar verdadeiramente o desfecho desta história. Ambos mereciam melhor destino.

Maior destaque tiveram, felizmente, Dutch (Jay Karnes) e Claudette (CCH Pounder). O detective maravilha, uma das personagens favoritas desta que vos escreve, teve mais uma vez a oportunidade da sua carreira, ao identificar correctamente um jovem assassino em série. A luta de Dutch contra Lloyd, ao longo da temporada, foi muito interessante, não só por trazer de volta à ribalta o melhor detective da esquadra, mas também pelo impacto que o jovem teve em Dutch, deixando-nos a pensar se não seria este o golpe final, depois de Sun-Lee, de Bob, de Marci e de tantos outros, que o levaria a sucumbir à tentação de usar métodos menos ortodoxos para conseguir uma vitória, tornando-se naquilo que mais odiava. Se a história prometia um desfecho explosivo, a implosão a que assistimos não foi totalmente satisfatória, mas felizmente para Dutch, do lado pessoal, o fechar da série trouxe consigo grandes momentos. A forma como Dutch e Claudette se complementavam – os “Gémeos Maravilha”, como Vic uma vez lhes chamou -, como se apoiavam e se defendiam mutuamente, esteve presente desde o episódio piloto, mas em “Bitches Brew” ganhou uma nova dimensão. Entre Dutch e Claudette existe uma verdadeira amizade, daquelas em que se ajuda sem se pedir nada em troca, onde não há recriminações nem atribuições de culpa, apenas um apoio constante quando mais precisam, e é isso que os separa das restantes personagens desta série. Para duas grandes personagens, apenas dois grandes actores lhes podiam fazer justiça, e Jay Karnes e CCH Pounder conseguiram destacar-se ao longo de todas as temporadas, ofuscados apenas pelas interpretações exímias dos dois actores principais.

Se a primeira metade da derradeira temporada teve os seus problemas de estruturação, com o avançar dos episódios a história regressa ao rumo estabelecido desde “Post Partum”, revelando-se em força o conflito Vic e  Shane (Walton Goggins), que explode no impressionante “Parricide“. De um momento para o outro, assistimos incrédulos àquilo que há muito esperávamos: o desmanchar da fachada de Shane, o entregar do distintivo de  Vic, a queda, sem pompa nem circunstância, da Equipa de Intervenção. Em poucos minutos, tudo muda irremediavelmente, e o caminho que à nossa frente se revela é o da destruição eminente.

Semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes, Shane e Vic são sem dúvida as duas faces deste conflito desde o início. Desde sempre o mais problemático, o culpado de grande parte das situações em que a equipa se viu enfiada, Shane tentou justificar a morte de Lem como um sacrifício para o bem de todos, agindo sempre com total consciência dos seus actos e arrastando consigo a mulher Mara (Michelle Hicks), a sua alma gémea em todos os sentidos. Considerado por muitos como o grande vilão é, no entanto, no amor que sente pela família que a personagem mais se revela. Por muitos crimes que tenha cometido, por muitos mandamentos que tenha destruído, Shane nunca mentiu a Mara, nunca fingiu ser mais do que era, nunca tentou ocultar a sua verdadeira personalidade, ao contrário de Vic, que sempre escondeu de Corrine (Cathy Cahlin Ryan) tudo o que  fez.  É essa frontalidade que explica o contínuo apoio ao marido de Mara, mesmo quando recebe, de mão beijada, a oportunidade de se entregar e sair em liberdade. E é por isso mesmo que o destino final de toda a família em “Family Meeting” deixa qualquer um devastado.

No lado oposto encontra-se Vic, que consegue iludir tudo e todos mas que acaba, no final, por se iludir também a si próprio. Vic recusa-se a reconhecer o seu papel naquilo em que Shane (e Ronnie, e mesmo Lem) se tornou; recusa-se a reconhecer que poderá ser, no fundo, o catalisador de todos estes problemas. Nunca se deixando qualificar, Vic vai saltando entre o bom e o mau, entre o branco e o negro, ficando numa área cinzenta que é impossível de distinguir, e é isso que o torna uma das personagens mais interessantes da televisão americana. A sua viagem, ao longo destas sete temporadas, foi uma viagem cheia de voltas e reviravoltas, de guerras e de mudanças, uma viagem com um final, no mínimo, surpreendente. O momento em que Vic finalmente admite todos os crimes que cometeu, o momento em que relata todos os eventos a que assistimos ao longo destas temporadas a uma perplexa Olivia (Laurie Holden) em “Possible Kill Screen“, é também o momento em que se sela o destino final da equipa. Ao assinar o contrato com o ICE, Vic condena, desta forma Ronnie (David Rees Snell), o seu último amigo e confidente, aquele que sempre o apoiou e que dele nunca duvidou, à cadeia, e contribui para a trágica decisão de Shane. Ao revelar todos os segredos, consegue livrar-se da perseguição de Wyms, mas perde todo o seu futuro. Longe das ruas, com a família no programa de protecção das testemunhas, Vic termina a sua história sentado num cubículo, rodeado de memórias de um passado que perdeu.

Desde o início que sabemos que ninguém sai impune desta história. Que não há personagens totalmente boas, nem totalmente más, apenas personagens que escolheram o seu caminho e que, para o bem e para o mal, o terão de percorrer até ao fim. E porque Shawn Ryan se manteve fiel aos seus princípios, é assim, sem qualquer redenção, que termina uma das mais impressionantes séries policiais de sempre. Uma série que irá ter o seu lugar bem marcado na história de tv americana.

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8 thoughts on “The Shield S7

  1. Também considero a Wire como sendo uma melhor série do que The shield, mas no fundo são duas séries diferentes, The Shield é sobre os meandros do dia a dia de uma esquadra de uma grande metrópole, The Wire retrata a morte uma grande cidade americana em todas as suas vertentes.

    • Tudo o que tenho lido até agora sobre as duas séries é consistente com esta opinião – que The Wire e The Shield são duas séries diferentes.

      The Wire retrata a morte uma grande cidade americana em todas as suas vertentes.
      Esta é, provavelmente, uma das melhores descrições que já li de The Wire. Muito interessante.

  2. Concordo com a descrição que o McNulty (ganda Jimmy) fez das duas séries. São duas grandes séries, do melhor que se fez nesta década.

  3. É difícil dizer entre coisas excepcionais, aquela que é mais excepcional. Mas estou tentado a dizer que The Shiled é “A SÉRIE”.

    É obra manter o nível e até aumenta-lo com 7 temporadas e The Shield conseguiu-o. Mesmo quando no final da 5ª temporada me caiu tudo e pensei em desistir, ao assistir no dia a seguir ao 1º ep. da 6ª temporada esse sentimento foi-se logo e não consegui parar até chegar a fim.

    E que fim…

    Vic, Shane, Lem, Ronnie, Dutch e outros vão ficar para sempre gravados na minha memória…

    A rever daqui a uns tempos.

    PS. curiosamente sempre ouvi dizer maravilhas de The Wire. Mas depois de ter visto The Shield vai ser difícil igualar. De qualquer maneira vou investigar.

    • João ve The Wire, eu acabei de ver The Shield ha cerca de um mes atrás e antes já tinha visto The Wire, e é verdade que são séries muito diferentes mas sendo The Wire mais realista para não dizer muito mais… Aborda mais ou menos os mesmos assuntos, política, droga, gangs, etc mas as personagens de The Wire na minha opinião são melhores, igualmente bem desenvolvidas, quase todas são brilhantes…
      tbm tem uma season menos bem conseguida, ou mais aborrecida digamos, a 2ª, enquanto que Shield tem a 6ª, mas a qualidade está lá. aconselho a todos.

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