The West Wing S2

Gratias tibi ago, domine. Haec credam a deo pio? A deo iusto, a deo scito? Cruciatus in crucem. Tuus in terra servus, nuntius fui. Officium perfeci. Cruciatus in crucem. Eas in crucem!

Quem é viciado em séries habitua-se a tudo: séries boas, séries más, outras assim-assim; umas inovadoras, outras mais do mesmo; algumas que surpreendem de início mas que rapidamente sofrem uma reviravolta e caem no absurdo. Ao fim de algum tempo torna-se difícil ser surpreendido… até ao momento em que nos deparamos com séries como The West Wing e a sua segunda temporada. É nesse momento que é preciso dar o braço a torcer e dizer “Uau”.

Uma temporada, vinte e dois episódios, um ano na vida destas personagens. Começando poucos segundos depois do final da temporada anterior, “In The Shadow Of Two Gunmen” puxa-nos de forma abrupta para o desenrolar de uma história que não nos vai largar ao longo de toda a temporada. Muito depois da acção ter desvanecido, das feridas sarado e dos ânimos acalmado, é este o momento que irá influenciar toda a história e que tem pesadas consequências para o futuro. Se manter uma mentira não é fácil, e assumir a culpa frente ao mundo inteiro se torna uma tarefa árdua, “17 People” e “The War at Home” mostram como, por vezes, é no círculo mais chegado que as consequências são mais graves, e dão oportunidade a Richard Schiff e Stockard Channing de se destacarem nos papéis de Toby Ziegler e esposa do presidente respectivamente.

Permanecer ligado à realidade e, ao mesmo tempo, ter a liberdade artística de criar histórias interessantes nem sempre é fácil em televisão. Por muito que se tente, as histórias acabam sempre por ficar desfasadas da realidade. The West Wing não é a excepção: este é o governo que os Estados Unidos (e o resto do mundo) gostariam de ter, o presidente em quem gostariam de poder votar. Um governo regido por pessoas apaixonadas, competentes e eficientes, que trabalham em prol do bem comum. Um governo ideal e, ao mesmo tempo, irreal. Mas mesmo quando esta corda bamba entre a realidade e a ficção é esticada como em “Shibolleth” ou “Ellie”, a série nunca deixa de nos surpreender, contrapondo com episódios mais realistas, mais pessoais, que a transportam para uma classe à parte. O melhor exemplo desta mestria será talvez “Noël”, um episódio introspectivo onde Josh Lyman (Bradley Whitford) é finalmente confrontado com os seus sentimentos, e ao som da Suite N.º 1 de Bach relembra o seu pesadelo. Alternando os acordes do violoncelo de Yo Yo Ma, a conversa com o psiquiatra e os flashes de memória, Josh vai ter de admitir que os traumas são difíceis de esquecer e possibilita ao actor a segunda melhor interpretação da temporada.

Se uma das maiores forças desta série reside na interacção excelente entre as personagens, apoiados por diálogos brilhantes magistralmente interpretados, na segunda temporada foram as actuações individuais que se distinguiram. De velhos conhecidos como C.J. Cregg (Allison Janey) e Donna Moss (Janel Moloney) a caras novas como a republicana Ainsley Haines (Emily Procter) em debates acesos com Sam Seaborn (Rob Lowe), todos tiveram a sua oportunidade de brilhar, mas sem dúvida foi Martin Sheen que roubou a temporada.

Numa série que, como o título indica, trata do conjunto do governo e não apenas do presidente, é natural que a personagem tenha de partilhar as luzes da ribalta com as restantes, mas a segunda temporada pertenceu ao presidente Bartlet. Esteve em evidência desde o emocionante primeiro episódio, mas a recta final destacou-o das restantes personagens. A traição, a indecisão e as dúvidas sobre as consequências de um erro são os temas predominantes dos últimos episódios, que culminam com o que será, provavelmente, um dos mais emocionantes momentos jamais escritos para a TV. “Two Cathedrals” surpreende não só pela reviravolta que apresenta na história, mas também pelo grito de revolta contra um deus injusto, o arrepiante discurso de um homem desiludido e em conflito consigo mesmo. Por muito boa que tenha sido a temporada, as histórias colectivas, as interpretações individuais, este é o momento que fica para a história, e que nos deixa, ao som de Brothers in Arms dos Dire Straits, impacientemente à espera de mais episódios.

Uma temporada, vinte e dois episódios, um ano na vida destas personagens. Um início explosivo, um meio introspectivo e um final avassalador. Uma temporada marcante de uma série imprescindível.

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4 thoughts on “The West Wing S2

  1. Bom, eu ainda só vi 3 temporadas, mas tenho de dizer que a segunda foi certamente a melhor: devorei os episódios todos em poucos dias, e fiquei completamente abismada com aquele final.
    Mas estou curiosa para ver como irá prosseguir a série…

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