You americans killed a lot of sand with your fire bombs, the sand was truly evil
Cinco anos de bombas, guerra, invasão, mortos, ataques suicidas, discursos inflamados e armas de destruição maciça que insistem em não aparecer em lado nenhum. Cinco anos do baralho de cartas mais famoso do mundo, de avanços e recuos, de operações pela liberdade e de mortes incessantes. Cinco anos a ver as mesmas caras a dizer as mesmas mentiras, caras que representam uma guerra sem fim. Mas quando, há cinco anos atrás, se deu a invasão do Iraque, foram outras as caras que marcaram a guerra e fizeram história, caras desconhecidas de todos nós, finalmente reveladas durante os sete episódios da mini-série da HBO, Generation Kill.
Quando Evan Wright viajou até Camp Mathilda no Kuwait para se juntar aos fuzileiros do primeiro batalhão de reconhecimento do exército americano, esperava poder descobrir a verdadeira face do conflito e testemunhar em primeira-mão a mudança de um país. O que encontrou foi mais do que isso: encontrou uma nova geração, viciada em jogos de computador e cultura popular, mais comovida pela televisão do que pelas mortes que testemunha, uma geração que se encontra insensibilizada pela violência, e que por isso mesmo se torna crucial para esta guerra. Ao longo dos 40 dias em que acompanhou o pelotão Bravo, Wright partilhou as emoções, as angústias, a diversão, o desespero, as frustrações e a confusão deste grupo de soldados que apenas quer cumprir a sua missão. O relato que trouxe consigo, publicado primeiro na revista Rolling Stone e transposto agora à televisão pelos mestres criadores de The Wire, é um excelente documento vivo que procura honrar o feito e a humanidade escondida dos seus heróis, ao mesmo tempo que expõe a futilidade da sua missão.
Ao bom estilo da The Wire, Generation Kill não é uma série de fácil consumo. Compreender a complicada hierarquia militar e reconhecer personagens diferentes que parecem talhadas do mesmo molde obriga a uma atenção redobrada, tornando por isso os primeiros episódios um pouco lentos, mas há medida que a história avança e que conseguimos identificar as várias figuras, apercebemo-nos das diferentes personalidades e experiências que tornam estas personagens um espelho da verdadeira guerra. A segurança e a serenidade de Brad “Iceman” Colbert (interpretado pela revelação Alexander Skarsgard) contrastam com a personalidade efusiva e as teorias malucas de Ray Person (James Ransome), mas são ambas o resultado de uma já grande experiência de combate, transposta agora para um novo cenário.
Sem nunca dar lições de moral ou obrigar-nos a escolher entre defensores e detractores da invasão, Generation Kill não se coíbe de atacar frontalmente os problemas desta guerra, que vão desde a simples falta de equipamento adequado e de comunicação fidedigna à ausência de um plano a longo prazo para depois da ocupação. Mas embora estes temas se encontrem presentes em todos os episódios, é à luta diária entre soldados e oficiais, entre a experiência de uns e a inexperiência de muitos, que se dedicam a maior parte das histórias. As tropelias de “Captain America” (Eric Nenninger) e “Encino Man” (Brian Wade), que nos deixam a sorrir pela simples estupidez dos seus actos, ilustram também o lado mais negro desta guerra, pejada de uma incompetência com consequências trágicas para a população local, como se confirma em Screwby, ou de erros causados pela ânsia de provar o seu valor a qualquer custo, como o atestam algumas das decisões de “Godfather” (Chance Kelly). Mas porque também nós estamos a descobrir a história e as personagens através dos olhos de Wright, interpretado na série por Lee Tergesen, com todo o preconceito que isso acarreta, é interessante verificar o quanto o relato poderia ter sido diferente, caso Wright tivesse acompanhado o comando em vez dos soldados e conhecesse a razão por detrás de algumas decisões mais controversas. A conversa entre Godfather e Wright em Bomb In The Garden não é suficiente para nos fazer mudar de alianças tão tarde na história, mas comprova mais uma vez que este não é um mundo a preto e branco.
Apostando mais na subtileza do que na acção explosiva característica de séries deste género, Generation Kill contrapõe os conflitos bélicos aos pessoais e profissionais, e se é preciso admitir que a entrada na cidade em A Burning Dog traz uma muito esperada demonstração do armamento americano, é nas acções de figuras como o tenente Nathaniel Fick (Stark Sands) ou o sargento Eric Kocher (Owain Yeoman) que reside o verdadeiro valor da história.
Quando nos deixa, ao som de The Man That Comes Around de Johnny Cash, Generation Kill pode gabar-se de ter conseguido alcançar (e mesmo superar) o objectivo a que se propôs – mostrar a verdadeira face da guerra e da geração que nela combate, espelhada exemplarmente na figura do novato Trombley (Billy Lush). E se a montagem final não convenceu esta espectadora, não há dúvida que as saudades da conversa de rádio que marcou todos os episódios, e dos diálogos contundentes como os mostrados em Stay Frosty, vão permanecer por algum tempo.
Uma excelente série que deveria ter lugar reservado em qualquer estante.




Pois. Ainda bem que vai melhorar:)
Confesso que estava para desistir. O hype em que a série vinha embrulhada levou-me a vê-la, sofregamente. Mas, como dizes, os 2 primeiros episódios são demasiado pachorrentos. Entediado, já a tinha colocado com o rótulo de dispensável, até que aterrei aqui…
E Generation Kill vai ter 2ª oportunidade!
Por: Paulo Pereira em 5 Setembro, 2008
às 9:50 pm
Sim, pachorrentos e confusos. Só a partir do terceiro episódio é que comecei a distinguir o Iceman do Fick. O Burns e Simon são especialistas em não nos fazerem a papinha toda – tal como no The Wire, se queres saber quem são as personagens, descobre por ti próprio. Obriga a um trabalho, mas afinal, se nos dessem tudo de mão beijada, qual era a piada?
Com o passar dos episódios a linguagem, as personagens e a história vão ficando mais claras, e tenho a certeza de que quando tiver a oportunidade de rever a série, vou gostar ainda mais.
Por: syrin em 6 Setembro, 2008
às 9:46 am
Não é dos meus generos preferidos, mas deixou-me com bastante curiosidade. Quem sabe se mal tiver um tempo não a vejo.
PS: Foi bom competir contigo no x marca o local. As duas perguntas foram optimas. Devias pensar em arranjar um concurso
Abraço
Por: Francisco em 11 Setembro, 2008
às 3:15 pm
O teu blog foi indicado pelo Portal de Séries nos Prémios Dardos.
Link: http://www.portal-series.com/premios-dardos-blogs-por-blogs
Cumpz
Por: Marco em 21 Setembro, 2008
às 7:41 pm
Nice… show
Por: Juninhu em 12 Novembro, 2008
às 2:04 pm
Tão interessante que é, deveria haver continuidade e edições em DVD. Série extraordinária.
Por: A. Santos em 25 Agosto, 2009
às 3:22 pm
Sem dúvida, uma série altamente recomendável. Infelizmente penso que não estará, por agora, planeada a sua edição em Portugal. Mas quem sabe daqui a uns tempos.
Por: syrin em 25 Agosto, 2009
às 3:27 pm