There must be some way out of here,
Said the joker to the thief.
There’s too much confusion,
I can’t get no relief.
A terceira temporada de Battlestar Galactica é a mais controversa de sempre, não por ter descido de qualidade em alguns momentos, mas por ter reflectido duramente sobre a nossa realidade. Só na ficção se conseguiria subverter a noção de terrorismo, ao pôr-nos na pele dos “terroristas” que organizam ataques suicidas e não olham a meios para vencer, mesmo que isso resulte na morte de inocentes. Só na ficção se lidaria com as terríveis consequências da guerra, com a (in)justiça dos tribunais militares independentes e com o castigo de criminosos de guerra, como em Collaborators. Só na ficção se debateriam as vantagens da vingança, a oportunidade de cometer genocídio contra um inimigo perigoso como em A Measure Of Salvation. Só aqui se assistiria à escolha difícil entre o respeito à família ou à própria consciência, como em The Son Also Rises.
Desde o final da temporada dois, com a chegada dos Cylons e a sua triunfal entrada em New Caprica (reminiscente da entrada dos Nazis em Paris na segunda guerra mundial) que se adivinhava um início de série pesado, mas os primeiros episódios conseguiram superar as expectativas. Se Occupation e Precipice nos deixam angustiados, é o destino de Ellen (Kate Vernon) em Exodus, Part 2 que se torna um dos momentos mais chocantes da temporada e que irá ter graves consequências para Tigh (Michael Hogan).
Mas o grande destaque da série foram sem dúvida os desempenhos individuais. Edward James Olmos esteve excelente (como sempre) no papel de Adama, que mais uma vez é obrigado a tomar decisões difíceis. O regresso a New Caprica foi certamente a mais controversa: pôr em risco os sobreviventes e, no fundo, toda a humanidade, ou fugir novamente, deixando mais 30 000 pessoas à mercê dos Cylons. No final a sua decisão prova ser a mais acertada, dando origem em Exodus, Part 2 a um dos mais espectaculares planos de salvamento da história da TV (o que eu não dava para ver isto num ecrã HD gigante!).
Já Apollo (Jamie Bamber) teve altos e baixos durante toda a temporada, e os confrontos com o pai retornaram em grande. Ao contrário das temporadas anteriores, nesta terceira temporada Apollo parece representar sempre o lado negativo da história: é ele que prefere a fuga ao regresso, é ele que imagina uma forma de se livrarem para sempre dos Cylons, é ele que vai mudar de lado numa manobra inesperada. E, no entanto, com um impressionante depoimento em Crossroads, Part 2 redime-se pela temporada inteira.
Como sempre, por entre as histórias individuais e os momentos de acção somos confrontados com o aspecto religioso e mitológico da série, que nesta terceira temporada recebeu um grande destaque… o que acabou por prejudicar um pouco a história. A grande demanda de D’Anna (Lucy Lawless) em busca dos restantes 5 cylons começou por ser interessante, mas perdeu-se um pouco para o final, com consequências trágicas para a Number Three em Rapture. De qualquer forma, conseguiu levantar mais questões interessantes, criando facções opostas dentro de cada lado que poderão vir a ser exploradas mais profundamente.
Quanto a Baltar (James Callis) e Number Six (Tricia Helfer), os dois grandes representantes da mitologia e religião nas temporadas anteriores, viram a sua relação alterar-se drasticamente. Longe vão os tempos em que os seus diálogos se tornavam o comic relief de uma série dramática: com a mudança de cenário altera-se a dinâmica na sua relação, o que leva a momentos surreais em que se invertem os papéis. E como toda a temporada foi de mudança, nos episódios finais encontram-se, cada um deles, em cruzamentos: irá Number Six aceitar os colonos, e irá Baltar converter-se no novo profeta?
Porque esta foi também a temporada mais criticada, é preciso admitir que houve momentos em que a série se perdeu. Ao explorarem as histórias individuais das personagens, fugiram um pouco da trama principal, e o resultado foram alguns episódios sem nexo como o Hero e o Taking a Break From All Your Worries, ou as idas e vindas do quadrângulo amoroso mais chato de sempre. Em consequência disso, algumas das personagens mais interessantes da temporadas anteriores perderam algum do seu charme, nomeadamente Starbuck (Katee Sackhoff). A história de Starbuck e Leoben (Callum Keith Rennie) começou em grande nos primeiros episódios, mas ao longo da temporada foi-se desenvolvendo de forma estranha, tendo culminado com um grande momento “WTF?!” em Maelstrom.
Mas Battlestar Galactica não é considerada uma das melhores séries na tv de momento pela Time, Rolling Stone e Newsday por nada, e na bela tradição de nos deixar com um grande cliffhanger, Crossroads, Part 2 revela-nos mais um dos segredos desta complicada trama: ao tom de All Along the Watchtower numa nova versão de Bear McCreary e Steve Bartek, ficamos a conhecer mais 4 cylons. O que significa que até Janeiro de 2008 iremos andar todos a perguntar “Who Is The Final Cylon?!
Enquanto não chega Janeiro de 2008, enquanto não temos os dois episódios intercalares (Razor) em Novembro, por estas bandas vai-se matando saudades desta excelente série com a não menos excelente banda sonora original composta por Bear McCreary. Passacaglia, Kobol’s Last Gleaming, Destiny, The Shape of Things to Come e Bloodshed da primeira temporada; Baltar’s Dream, Allegro, Prelude To War, Worthy Of Survival e Black Market da segunda temporada não páram de tocar por estas bandas. Uma fusão de melodias calmas, instrumentos musicais exóticos e cânticos em sânscrito com violinos, percussão e guitarras eléctricas que nos transporta para dentro do universo de Battlestar Galactica. Bandas sonoras que nos contam uma história sem imagens.
Battlestar Galactica é a melhor série de televisão actual.
Pelo menos para mim.


